Junho de 2013
Uma opção não excludente
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Memória

Uma opção não excludente

 “Com grande vantagem para a concórdia social, se complementem harmonicamente uma opção preferencial pelos pobres e uma opção preferencial pelos nobres, como por todas as elites análogas”.

 Paulo Roberto Campos

 Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana, magnífica obra de Plinio Corrêa de Oliveira, publicada em 1993, completa 20 anos.
Versão alemã do livro

No vigésimo aniversário dessa obra de repercussão mundial — publicada inicialmente em português e depois em alemão, espanhol, francês, inglês e italiano —, e em homenagem ao seu autor, que foi o inspirador e principal colaborador de Catolicismo até seu falecimento em 1995, transcrevemos abaixo alguns trechos do livro. Sirvam eles de incentivo aos leitores para lerem a obra completa, que se encontra disponível na seção “Livros” do site www.pliniocorreadeoliveira.info

Entre diversas cartas de felicitações a Plinio Corrêa de Oliveira por tal obra, salientamos as dos Cardeais Alfons Stickler, Bernardino Echeverría Ruiz, Mario Luigi Ciappi e Silvio Oddi, bem como dos renomados teólogos Pe. Anastasio Gutiérrez, CMF, Pe. Raimondo Spiazzi, OP e Pe. Victorino Rodríguez y Rodríguez, OP.

A respeito desse livro, Georges Bordonove, célebre historiador francês, escreveu no Prefácio: “[...] notável em todos os pontos, especialmente pela abundância e exatidão rigorosa da documentação, pela cultura universal do autor, pela solidez da argumentação e pela transparência do pensamento”.

A razão da transcrição dos trechos escolhidos

Os trechos abaixo se opõem à pretensão de movimentos vinculados à Teologia da Libertação que tentam “desenterrar” velhos sofismas para interpretar erroneamente o conceito de “opção preferencial pelos pobres”. Cabe lembrar que, a pretexto da luta pela proteção dos pobres, o regime comunista subjugou diversos países, entre os quais Cuba, que por mais de 50 anos jaz na mais negra miséria. Dessa mesma Cuba, da qual o atual governo brasileiro pretende “importar” seis mil médicos, cuja atuação em nosso território causará a pior das epidemias: a disseminação do comunismo.

Contrariamente à doutrina da Teologia da Libertação, no primeiro capítulo de Nobreza e elites tradicionais análogas, o autor afirma: “Na nossa época, na qual tão necessária se tornou a opção preferencial pelos pobres, também se faz indispensável uma opção preferencial pelos nobres, desde que incluídas nesta expressão também outras elites tradicionais expostas ao risco de desaparecimento e dignas de apoio”.

A igreja não exclui ninguém, fazendo a opção por todas classes sociais, nobres ou pobres, como é representado neste quadro Saindo da Igreja, do pintor espanhol Raimundo de Madrazo y Garreta(1841-1920). No quadro notam-se pessoas de diversas classes sociais, desde a pobre mulher cega, pedindo esmola junto à porta, até ricas senhoras elegantemente vestidas.
Neste mesmo sentido, mais adiante (capítulo 5) encontramos: “Muito se fala hoje do apostolado em benefício das massas e, como justo corolário, de uma ação preferencial em favor das suas necessidades materiais. Mas importa não ser unilateral em tal matéria, e jamais perder de vista a alta importância do apostolado sobre as elites e, através destas, sobre todo o corpo social; bem como, de modo correlato, de uma opção apostólica preferencial pelos nobres. De tal sorte que, com grande vantagem para a concórdia social, se complementem harmonicamente uma opção preferencial pelos pobres e uma opção preferencial pelos nobres, como por todas as elites análogas”.

A autêntica doutrina católica sempre ensinou a legitimidade da desigualdade entre as classes sociais e a harmonia que deve reinar entre elas, assim como sempre condenou a luta de classes. É o que destaca o trecho a seguir, extraído das primeiras páginas, após o Sumário, de Nobreza e elites tradicionais análogas.

Opção preferencial: o que é?

Opção preferencial pelos nobres: a expressão quiçá possa surpreender à primeira vista aos que se familiarizaram com a fórmula cara a João Paulo II, "opção preferencial pelos pobres". Porém, é exatamente uma opção preferencial pelos nobres que anima este livro.

A grande objecção que essa afirmação pode suscitar é que, ex natura rerum — pelo menos — um nobre é relacionado, importante e rico. Ele tem, pois, múltiplos meios para sair de uma situação de penúria em que incidentalmente se encontre. A opção preferencial já foi exercida a favor dele pela Providência, que lhe deu tudo quanto é necessário para que ele se soerga.

É precisamente o contrário o caso do pobre. Ele não é ilustre, não dispõe de relações úteis, frequentemente faltam-lhe recursos para remediar as suas próprias carências. E, em consequência, uma opção preferencial que o ajude a atender às suas necessidades — pelo menos as essenciais — pode ser de estrita justiça.

Assim, uma opção preferencial pelos nobres parece quase um sarcasmo atirado contra os pobres.

Na realidade, essa antítese entre nobres e pobres tem cada vez menos razão de ser, se se considera a pobreza que vai atingindo gradativamente um número maior de nobres, conforme é lembrado por Pio XII nas suas alocuções ao Patriciado e à Nobreza romana. E o nobre pobre encontra-se em situação mais confrangedora do que o pobre não nobre. Pois este último, pela própria limitação das suas condições, pode e deve despertar e pôr em ação o senso de justiça bem como a generosidade do próximo.

Pelo contrário, o nobre, pelo próprio fato de ser nobre, tem razões para deixar de pedir auxílio. E prefere esconder o seu nome e a sua origem, quando não tem remédio senão deixar transparecer a sua pobreza. É o que, em linguagem expressiva, se chamava outrora a pobreza envergonhada.

O atendimento das necessidades desse gênero de nobres — como, aliás, também dos empobrecidos decaídos, de qualquer nível da sociedade — era objeto de especiais encômios dos antigos, e a caridade cristã encontrava mil artifícios para aliviar a situação dos pobres envergonhados, a fim de que recebessem a ajuda necessária sem que nada lhes magoasse o senso da dignidade própria.(1)

Mas não é só o pobre de recursos materiais que merece opção preferencial. São-no também aqueles que, pelas circunstâncias da sua vida, têm deveres particularmente árduos a cumprir, e aos quais incumbe maior responsabilidade no cumprimento desses deveres pela edificação que daí pode resultar para o corpo social, como, em sentido oposto, pelo escândalo que a transgressão de tais deveres pode trazer ao mesmo corpo social.

Nessas condições encontram-se frequentemente membros da nobreza contemporânea, como se mostra na presente obra.(2)
Santa Isabel rainha de Hungria, auxiliadora por damas da Corte, curando um doente. Quadro de Lucas Valdes, século XVII. Museu de Belas Artes, Sevilha.

A opção preferencial pelos nobres e a opção preferencial pelos pobres não se excluem, e menos ainda se combatem, segundo ensina João Paulo II: “Sim, a Igreja faz sua a opção preferencial pelos pobres. Uma opção preferencial, note-se, não, portanto, uma opção exclusiva ou excludente, porque a mensagem da salvação é destinada a todos”.(3)

Essas diversas opções são modos de manifestação do senso da justiça ou da caridade cristã, que só podem irmanar-se no serviço do mesmo Senhor, Jesus Cristo, que foi o modelo dos nobres e modelo dos pobres, segundo nos ensinam com insistência os Romanos Pontífices.(4)

Sirvam estas palavras de esclarecimento para os que, animados pelo espírito de luta de classes — de momento, num evidente declínio — imaginam existir uma relação inevitavelmente conflituosa entre o nobre e o pobre. Esta intelecção equivocada levou muitos deles a interpretar as palavras opção preferencial, usadas por S.S. João Paulo II, como se significassem preferência exclusiva. Tal interpretação, apaixonada e facciosa, carece de qualquer objetividade. As preferências de uma pessoa podem incidir simultaneamente, e com graus diversos de intensidade, sobre vários objetos. Pela sua natureza, a preferência por um deles de nenhum modo indica uma forçosa exclusão dos outros.

__________ 

1. Plinio Corrêa de Oliveira, Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana, Livraria Civilização Editora, Porto, 1993. Documentos III.

2. Op. cit., Capítulo I, 1 e 3; Capítulo II, 1; Capítulo IV, 9 e 10; Capítulo VII, 8.

3. "Ad Patres Cardinales et Curieae Pontificalisque Domus Prelatos, imminente Nativitate Domini coram admissos", 21/12/84, Acta Apostolicae Sedis, Typis Polyglottis Vaticanis, 1985, vol. LXXVII, nº 5, p. 511.

4. Nobreza e elites tradicionais análogas, Capítulo IV, 8; Capítulo V, 6; Documentos IV.

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