Junho de 2013
"A melhor resposta ao império do dinheiro é a lei da honra"
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Entrevista

“A melhor resposta ao império do dinheiro é a lei da honra”

 Retorno à ordem cristã para superar uma economia baseada na “intemperança frenética” — espírito inquieto e precipitado que provoca violenta aceleração no ritmo de vida.

John Horvat:

“A família surge de alguns princípios gerais que se fundam no Direito natural, como seu caráter de união monogâmica entre pessoas de sexos opostos”
O
Sr. John Horvat II é pesquisador, educador, palestrante internacional, articulista e autor do livro Retorno à ordem, lançado recentemente nos Estados Unidos pela Sociedade Americana de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), da qual é vice-presidente e diretor do website (www.tfp.org).

Seus escritos têm sido reproduzidos em publicações como “The Wall Street Journal”, “FOX News”, “The Christian Post”, “The Washington Times”, “ABC News”, “C-SPAN”, além de outros órgãos de imprensa e sites.

As pesquisas, escritos e conferências do Sr. Horvat sobre a crise sócio-econômica dos Estados Unidos se estendem por mais de duas décadas, culminando no lançamento de sua obra inovadoraRetorno à ordem, útil não só para os americanos, mas para todos os nossos contemporâneos.

O Sr. Horvat reside na sede da TFP americana em Spring Grove, Pennsylvania, onde lidera a Comissão de Estudos Americanos Tradição, Família e Propriedade. Foi nessa bela propriedade que ele concedeu a presente entrevista a Catolicismo, na qual responde a questões sobre temas tratados no referido livro. Ele defende que não bastam as leis para a solução dos graves problemas de nosso século, como os econômicos, mas cumpre restaurar os valores culturais, morais e religiosos, como, por exemplo, a prática das virtudes cardeais e a consideração da lei natural. 

*       *       *

Catolicismo O que há de novo na solução proposta em seu livro Retorno à ordem?

John Horvat Quando a maior parte das pessoas excogita soluções, pensa em termos de sistema, isto é, em um plano a ser posto em prática para resolver todos os problemas. As soluções propostas no livro Retorno à ordem partem de um pressuposto totalmente diferente. Elas são orgânicas e derivam de alguns princípios básicos da Lei natural e da doutrina católica. Porém, tais princípios se desenvolvem depois de maneira imprevisível, adaptando-se às circunstâncias concretas de cada realidade, muito variáveis. Não é um sistema rígido, uma espécie de plano quinquenal socialista que impõe uma série de normas e regulamentos para a sociedade inteira. Não é uma solução planejada sobre uma mesa. Eis o aspecto novo e, ao mesmo tempo, antigo das soluções propostas no livro. Propomos soluções que levam em consideração o lado humano das coisas, ou seja, soluções flexíveis, mas, ao mesmo tempo, com uma base sólida.

 

 Catolicismo Poderia dar um exemplo de uma solução cristã orgânica?

John Horvat Vem-me à mente a família. Não se pode inventar um novo tipo de família e impô-la a um povo. A família surge de alguns princípios gerais que se fundam no Direito natural, de onde provém o seu caráter de união monogâmica entre pessoas de sexos opostos.

 

 Catolicismo O que não funciona no atual sistema econômico?

John Horvat Hoje, temos um tipo de economia constantemente voltado para o frenesi. É o que chamamos de “intemperança frenética”, um termo cunhado para descrever o espírito inquieto e precipitado que domina atualmente vários setores da economia. Tal espírito anula toda restrição legítima e visa somente satisfazer as paixões desordenadas.

A crise das hipotecas anterior a 2008 é um exemplo. Bastou que a bolha se desinflasse e os juros aumentassem para que o sistema viesse abaixo

“A economia tornou-se fria e impessoal, veloz e frenética, mecânica e inflexível. Cumpre reintroduzir o elemento humano na economia e na sociedade”
A intemperança frenética produz não só avidez e ambição, mas também uma expansão explosiva de desejos humanos além do limite da razão e da moral. Leva a realizar atividades econômicas que anulam a própria ideia de moderação e os valores espirituais, religiosos, morais e culturais que normalmente deveriam temperá-las, introduzindo um elemento quase irracional, causador de relações agitadas, especulação e risco exagerado.

É impossível resolver nossos problemas econômicos com leis ou com regras. O problema está no homem, em sua alma. A única resposta real à intemperança frenética é um retorno à temperança. E isto exige uma conversão espiritual.

 

Catolicismo Poderia citar um exemplo do que o Sr. denomina “intemperança frenética”?

John Horvat Nos Estados Unidos, a crise das hipotecas anterior a 2008 é um exemplo. A fim de adquirir uma casa a qualquer custo — a famosa bolha imobiliária — um número enorme de pessoas fez uma hipoteca bancária sem ter como pagá-la. Pensando apenas no lucro, os banqueiros não se preocuparam em controlar os riscos. Vieram em seguida os operadores financeiros, introduzindo essa hipoteca má em pacotes de títulos para revender aos investidores. A prudência foi literalmente atirada às urtigas. Bastou que a bolha se desinflasse e os juros aumentassem para que o sistema viesse abaixo.

Apreciamos o uísque, o queijo Camembert e o champanhe, por entender que constituem expressões de cultura local

“Nos dias de hoje, comecemos por difundir na sociedade princípios, valores morais e veremos como a influência do dinheiro começará a desaparecer”
A intemperança frenética tende a eliminar toda restrição, visando somente vantagens e interesses pessoais. Ora, são exatamente essas restrições de ordem moral que devem temperar a economia, humanizando-a e mantendo-a no limite do razoável. Por outro lado, a intemperança frenética provoca uma violenta aceleração no ritmo de vida, que ela tende a manter anulando o elemento humano pela utilização de máquinas cada vez mais velozes e reduzindo as pessoas à condição de engrenagens de uma gigantesca economia. Essa intemperança também elimina o calor das relações humanas na economia, torna a vida brutal, exclui os aspectos morais e extingue o senso de comunidade. Quando as pessoas se comunicam exclusivamente por celular ou via Internet, o contato humano de outrora deixa de existir. Anula-se aquilo que alguns economistas chamam de “capital social”. Praticamente perdemos a ideia de comunidade orgânica, isto é, de uma estrutura social onde as pessoas se relacionam com laços de confiança e amizade, sem as quais não se pode garantir um caráter humano à economia.

 

Catolicismo No livro, o Sr. trata da importância da moeda, do império do dinheiro.

John Horvat Quando a intemperança frenética prepondera, o dinheiro tende a governar. Os homens colocam à parte os valores culturais e morais e adotam um sistema diverso de valores que sobrepõe a quantidade à qualidade, o útil ao belo, a matéria ao espírito. Seu efeito trágico foi que a economia moderna tornou-se fria e impessoal, veloz e frenética, mecânica e inflexível. Cumpre reintroduzir o elemento humano na economia e na sociedade. Impõe-se um retorno à ordem cristã.

 

Catolicismo Qual é a melhor resposta ao império do dinheiro?

John Horvat A melhor resposta ao império do dinheiro é a lei da honra. A honra afirma valores que não podem ser comprados nem vendidos. Pressupõe a valorização das coisas de qualidade. Difunde no mercado um clima de tranquilidade e temperança. A lei da honra conduz naturalmente os homens a estimar e procurar as coisas excelentes. Introduz no mercado uma série de valores como qualidade, beleza, bondade e caridade. Na honra encontramos a influência temperante das virtudes cardeais.

Alguém poderá objetar: mas é possível implementar tal lei nos dias de hoje? Comecemos por difundir princípios, ideias, valores morais na sociedade e veremos como a influência do dinheiro começará a desaparecer.

 

Catolicismo O Sr. é contrário ao sistema capitalista?

John Horvat Não, eu defendo muitos dos princípios básicos da economia de mercado: a propriedade privada, a livre empresa, o governo limitado e a fiscalização contida. O problema é que a palavra capitalismo tem muitos significados difíceis de avaliar. A esquerda utiliza-a para descrever os erros ou os excessos do atual sistema de mercado, enquanto alguns libertários usam-na para promover uma anarquia radical. Este é o motivo pelo qual evitei acuradamente essa palavra no livro. Preferi seguir o sábio conselho do jesuíta Pe. Bernard Dempsey, segundo o qual é impossível definir cientificamente o capitalismo. Ele mesmo utiliza o termo com muita relutância, dizendo: “Só um general demente aceitaria a batalha no terreno escolhido pelo adversário”.

 

Catolicismo O que aqui é um sistema orgânico de mercado?

John Horvat A concepção orgânica de mercado repele o gigantismo na indústria, no comércio e nas finanças, em favor de uma economia de proporção humana. A concepção orgânica rejeita a padronização em massa dos produtos, porque esta empobrece culturalmente a sociedade, diminuindo a tendência de cada região a desenvolver sua própria riqueza cultural com os recursos de seu território. Apreciamos o uísque, o queijo Camembert e o champanhe, por entender que constituem expressões de cultura local. A vida proporcionaria uma riqueza muito maior se houvesse mais produtos locais.

 

Catolicismo Como definir essa visão da economia?

John Horvat É certamente diversa da visão moderna. Creio que a economia deve basear-se nos princípios que norteavam a sociedade pré-industrial. Entendamo-nos, não digo voltar atrás historicamente, mas falo de retomar aqueles princípios perenes que constituem a base de uma economia sã e equilibrada. Os problemas começam quando o pensamento econômico se desliga da filosofia moral. Esta ruptura tornou-se evidente com o advento da Revolução Industrial (1760-1840). Os economistas começaram a sustentar que a economia não deveria estar sujeita a nenhuma norma ética superior. Quer dizer, trouxe consigo a intemperança frenética da qual falei acima.

         Um segundo problema da economia moderna é sua dissociação de toda legítima consideração social. Na visão católica, economia e sociedade são realidades complementares. Precisamos reintroduzir retamente o elemento social na economia. Necessitamos de uma ordem econômica vinculada aos princípios gerais das relações sociais, da caridade e da justiça. Cumpre dar maior relevo às instituições que auxiliam a reforçar tal ordem social: a família, a comunidade, o Estado cristão e a Igreja. Ao invés de ser um instrumento para ajudar o homem a alcançar seu fim último, a economia tornou-se um patrão autoritário. Devemos reconduzi-la ao seu limite natural. Eis por que o livro propõe um retorno à ordem.

 

Catolicismo A solução para a atual crise, portanto, seria um retorno à ordem cristã?

John Horvat Para resolver a atual crise não necessitamos de novas leis, mas de algo mais profundo. Precisamos redefinir as nossas prioridades, reordenar a nossa vida, começar a praticar a temperança e outras virtudes cardeais. Impõe-se um retorno à sociedade orgânica cristã, que não trata as pessoas como peças de uma máquina, mas como seres humanos que somos. Ela repõe o elemento humano no centro da sociedade moderna e favorece o papel temperante da tradição, da moral, da família e da comunidade, ajudando a reconstruir o tecido social e acalmar o mercado. Essa sociedade será cristã, isto é, fundada sobre as virtudes cristãs; guiar-se-á pela Lei natural, orientada ao bem comum e à vida virtuosa em comunidade; será cheia de matizes, poesia e paixões ordenadas.

 

Catolicismo Quais são as perspectivas?

John Horvat As soluções orgânicas não podem ser impostas; devem desenvolver-se de modo natural. Nosso livro demonstra que o atual modelo sócio-econômico está em crise, com os dias contados, e que haverá naturalmente uma procura de outros modelos. Temos, portanto, necessidade de procurar um modelo alternativo que nos permita superar a crise. Devemos estar prontos para afastar os modelos que serão propostos pelo socialismo, por ecologistas e outros, e apresentar aqueles derivados de uma concepção católica das coisas. Devemos voltar aos princípios da ordem cristã, que fazem parte do nosso patrimônio e de nossas tradições. São princípios que funcionaram no passado. O livro coloca esta opção sobre a mesa e mostra como já é possível mover-se nessa direção.

 

Catolicismo O que o Sr. entende por princípios que funcionaram no passado?

John Horvat O testemunho da História vem em defesa de tais princípios, cujos antecedentes são extraordinários. As pessoas tendem a pensar que a civilização anterior à Revolução Industrial era primitiva e retrógrada. Isso está longe da verdade. De fato, a civilização cristã preparou o caminho para o verdadeiro progresso.

         Os princípios do Cristianismo muito têm contribuído para inaugurar um período de incrível dinamismo e enorme progresso tecnológico. O historiador Samuel Lilley, por exemplo, demonstra que o progresso tecnológico foi proporcionalmente muito maior na Idade Média do que em toda a história precedente. A Idade Média não era inimiga da tecnologia. Na Europa medieval foram introduzidas máquinas em uma escala desconhecida de qualquer civilização anterior. Alguns historiadores sustentam que a Revolução Industrial foi na realidade um prolongamento (eu diria uma corrosão) do processo iniciado na Idade Média. O historiador Lynn White afirma que a Cristandade foi a primeira civilização não construída sobre os ombros de escravos. Esse progresso dinâmico não se limitava à tecnologia, mas se estendia também ao campo do direito, da instrução, da medicina, da economia e do governo. Os que não confiam nos livros de História poderão visitar os monumentos da época: catedrais, universidades, castelos. Aí terão uma ideia do que se fez.

 

Catolicismo Seu livro foi escrito só para os norte-americanos?

John Horvat Todos nós individualmente fazemos parte da cultura da intemperança frenética. Ou melhor, sob alguns aspectos, somos seu elemento mais ativo. O livro Retorno à ordem trata também de como devemos agir em nossa vida pessoal para nos desligarmos dos ritmos frenéticos que criamos. Ele foi escrito não somente para os americanos, mas também para todas as pessoas do mundo moderno. Creio que estamos em condições de rejeitar o império do dinheiro e a lógica dos mercados de massa que alimentam a intemperança frenética. E também de restabelecer o contato com o elemento humano deficiente na sociedade e na economia. Seja a medida qual for, se ela concorrer para reforçar a família e a comunidade local, para aumentar nosso apreço pela reflexão, pela beleza, pelo dever e pela virtude, ela será uma medida positiva para o retorno à ordem. Temos por isso necessidade de entender a crise e participar do debate sobre o futuro da civilização cristã. O livro Retorno à ordem nos convida a participar desse debate, o qual acreditamos que vai crescer em importância na medida em que a crise se agravar. 

Ainda a propósito de sua pergunta, gostaria de acentuar que meu livro é dedicado ao Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, pensador católico, um brasileiro campeão da luta pela Civilização Cristã cujo exemplo de grande virtude e coragem serviu de inspiração para muitos. Foi sua visão católica que inspirou o livro, o qual está profundamente irrigado pelos pensamentos contidos nas dezenas de reuniões que ele de bom grado condescendeu em ter com a Comissão de Estudos norte-americanos.

 

Catolicismo Por que o retorno à ordem é tão urgente neste momento?

Os que não confiam nos livros de História poderão visitar os monumetos da Idade Média: catedrais, universidades, castelos, como transparence na foto acima

“Creio que a economia deve basear-se nos princípios que norteavam a sociedade pré-industrial. Entendamo-nos, não digo voltar atrás historicamente”
John Horvat
Um dos principais motivos que o torna urgente é o fato de o bissecular modelo ocidental moderno parecer ter entrado em declínio. Mesmo o American way of life não é mais aquele de outrora. Quando se evidenciar o declínio de nossa sociedade, com seus fundamentos sendo postos em discussão, creio que muitos compreenderão a importância do retorno à ordem.

         Mas tal retorno só será possível mediante um retorno a Deus e à Santa Igreja. Uma sociedade ordenada é necessariamente virtuosa, confia na Providência e nos leva a amar a Deus. Ela é possível e para ela devemos retornar.

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