Junho de 2013
Notre-Dame de Paris
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Notre-Dame de Paris

(1163 — 2013)

850 anos da Rainha das Catedrais. Magnífico testemunho da fé que impregnava a Idade Média — a “Doce primavera da Fé” — na qual a beleza da arte gótica nasceu e vicejou esplendorosamente.

 Gabriel J. Wilson

A mais célebre catedral do mundo, dedicada a Nossa Senhora na capital francesa, comemora 850 anos de existência.

Jóia do estilo gótico, ela é um testemunho vivo do alto grau de civilização de uma época denegrida durante séculos por toda espécie de inimigos da Religião católica, inclusive os modernistas. Se pudessem, estes teriam derrubado todas as antigas igrejas e catedrais românicas, góticas, barrocas ou clássicas, para erguer em seus lugares templos do absurdo, do monstruoso e do esotérico, como são a catedral do Rio de Janeiro, no estilo brutal ao gosto divulgado por Le Corbusier, a catedral de Brasília, projetada pelo comunista de carteirinha Oscar Niemeyer, ou ainda o projeto da nova catedral de Belo Horizonte, também do mesmo arquiteto e uma afronta ao Estado que deu tão belos exemplos de sua religiosidade através da arte barroca.

O modernismo que se infiltrou na Religião católica rompeu com a tradição, à semelhança do movimento artístico. Este último tinha como imperativo moral e filosófico desenvolver uma “estética” com base em formas hediondas, avessas aos princípios clássicos e sem qualquer referência histórica, adotando ao mesmo tempo materiais desenvolvidos pela revolução industrial, como o aço e o cimento. O modernismo religioso ou progressismo serviu-se dessa arte para manifestar sua adesão ao mundo.(1)

“Doce primavera da Fé”

Mas, à medida que o progressismo devastava as fileiras católicas no século XX, providencialmente estudiosos e especialistas sem preconceitos foram pondo a nu a grande mentira dos que manipulam os povos e as sociedades: a Idade Média, longe de constituir “mil anos de trevas”, conforme apregoado, foi ao contrário uma das eras em que as artes, as ciências e o descortino de horizontes do espírito humano mais progrediram. Melhor do que ninguém a descreveu o Papa Leão XIII com estas palavras memoráveis:

Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil. Então a Religião instituída por Jesus Cristo, solidamente estabelecida no grau de dignidade que lhe é devido, em toda parte era florescente, graças ao favor dos Príncipes e à proteção legítima dos Magistrados. Então o Sacerdócio e o Império estavam ligados entre si por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios. Organizada assim, a sociedade civil deu frutos superiores a toda a expectativa, cuja memória subsiste e subsistirá, consignada como está em inúmeros documentos que artifício algum dos adversários poderá corromper ou obscurecer”.(2)

Um desses “frutos superiores a toda expectativa” foram as catedrais góticas, graças à “permuta amistosa de bons ofícios” entre as três classes que compunham a ordem social medieval: clero, nobreza e povo. O estilo gótico ou ogival, então recém-descoberto, alcançou notoriedade com a edificação da basílica de Saint-Denis, pelo célebre Abade Suger e consagrada em 1140.

Pouco depois começaram a surgir no horizonte, em terras do domínio real, as flechas e torres brancas das maravilhosas catedrais. E o coração do povo encheu-se de entusiasmo, porque “toda a França está nas catedrais como toda a Grécia se resume no Partenon”, como exclama Rodin.(3)O gótico floresce na arte medieval e as catedrais são o mais grandioso testemunho do pensamento, da fé e do ideal daquele período histórico.

Sente-se uma emoção peculiar na França ao contemplar as catedrais. Assim a de Senlis com sua flecha esguia, vista através das árvores da floresta; ou, ao longe, encimando a colina que domina a planície, a silhueta da catedral de Laon, a figurar a quilha de um navio fantástico; ou ainda admirar a sólida e possante fachada de Notre-Dame de Paris, as rendas em pedra da catedral de Reims, a elegante harmonia de lógica e proporção da catedral de Amiens, a umbrática nave da catedral de Chartres, ressaltando o esplendor das cores e belezas dos seus incontáveis vitrais…
"Os simples, os ignorantes, todos os que compunham 'a santa plebe de Deus', aprendiam pelos olhos quase tudo o que sabiam sobre a fé".

A luz da Idade Média

A arte gótica caracteriza-se por abóbadas formadas por ogivas cruzadas, sustentadas por contrafortes de arcos-botantes. Sobretudo a partir da segunda metade do século XII, com a criação das universidades e o aparecimento de luminares como São Tomás de Aquino e São Boaventura, novas aspirações se manifestaram nos campos da cultura, das ciências e das artes. Na arquitetura, a tendência era para que as linhas se lançassem rumo ao céu, e no interior penetrasse a luz em abundância. Era precisamente isso que o estilo gótico permitia, ao diminuir o peso sobre as colunas e distribuí-lo por todo o edifício.

“Esse esplendor da luz para o qual tendem os esforços de todos os arquitetos da Idade Média não responde apenas ao desejo de iluminar os fiéis reunidos na nave central e nas laterais, mas também ao desejo de instruí-los pelas representações das verdades da fé nos vitrais das altas janelas. Sabe-se bem como os medievais gostavam dos vitrais em cujo azul do céu se desenrolavam cenas do Antigo e do Novo Testamento e as histórias dos santos da Legenda Áurea”,escrevem Marcel Aubert e Simone Goubet.(4)

O mesmo pensamento encontra-se em Emile Mâle.(5)“A Idade Média concebeu a arte como um ensino. Tudo o que era útil ao homem conhecer — a história do mundo desde a sua criação, os dogmas da religião, os exemplos dos santos, a hierarquia das virtudes, a variedade das ciências, das artes, dos ofícios — era-lhe ensinado pelos vitrais da igreja ou pelas estátuas do pórtico”.

Bíblia dos pobres

Por isso a catedral mereceu dos primeiros impressores do século XV este epíteto tocante: “A Bíblia dos pobres”. “Os simples, os ignorantes, todos os que compunham ‘a santa plebe de Deus’, aprendiam pelos olhos quase tudo o que sabiam sobre a fé. Essas grandes figuras tão religiosas pareciam dar testemunho da verdade do que ensinava a Igreja. As inumeráveis estátuas, dispostas segundo um plano sábio, eram como uma imagem da ordem maravilhosa que Santo Tomás fazia reinar no mundo das ideias; graças à arte, as mais altas concepções da teologia e da ciência chegavam confusamente até as inteligências mais humildes”.(6)

Sim, na Idade Média toda forma continha um pensamento, porque a fé é racional: rationabile obsequium. Nesse sentido, os belíssimos vitrais não representam apenas uma janela para o mundo maravilhoso e quase celeste da religião, mas constituem verdadeiras aulas de catecismo, que podem ser lidas quase como histórias em quadrinhos. Assim o povinho simples (le menu peuple de Dieu) aprendia sobre a História Sagrada, os dogmas da fé, os exemplos dos santos e a vida eterna. Igualmente a estatuária, fortemente expressiva da linguagem dos símbolos, servia a essa função didática. Infelizmente essas riquezas, mais espirituais que materiais, foram abandonadas na idade moderna, levando Emile Mâle a dizer que “o simbolismo, que era a alma da nossa arte religiosa, acabava de morrer”.(7)

Entretanto, parece lícito perguntar se de algum modo ele não ressuscitou no século XIX, quando um movimento artístico e literário começou a revalorizar as riquezas da Idade Média.

Ordem na sociedade, ordem nas mentes

Germain Bazin, que foi conservador do museu do Louvre, assim destaca o papel da catedral na evolução dos espíritos na Idade Média:

Imagem de Notre-Dame de Paris
“A catedral é a expressão monumental dessa preocupação pela ordem que domina o mundo da ação como o do pensamento”.
Por outro lado,“os centros intelectuais se deslocam dos mosteiros para as universidades; a iniciativa artística não pertence mais aos abades, mas aos bispos, levados por um impulso de entusiasmo popular. Como o templo antigo, a catedral é o monumento da cidade; de todas as formas monumentais criadas pelas civilizações, ela é a que melhor exprime o esforço consentido de toda uma sociedade. A progressiva expansão do estilo gótico em toda a França coincide com esta força de coesão que tende a reagrupar o território da antiga Gália num Estado possante, em torno do poder real”.(8)

No mundo medieval, a catedral é a figura da Cidade de Deus, da Jerusalém celeste — como afirma a liturgia da dedicação das igrejas. As suas paredes laterais são a imagem do Antigo e do Novo Testamento, os pilares e as colunas representam os Profetas e os Apóstolos, que sustentam a abóbada, da qual Cristo é a chave; o portal é a entrada do Paraíso, embelezado pelas estátuas e baixos-relevos pintados e dourados, bem como os suntuosos batentes de bronze.

A casa de Deus deve ser iluminada pelos raios do sol, deslumbrante de luz como o próprio Paraíso… Deus é luz e a luz dá beleza às coisas; assim devemos identificar a beleza essencial divina na luminosidade que, com a harmonia e o ritmo, reflete a imagem de Deus. Por isso, era preciso aumentar a luz interior da catedral abrindo janelas tão grandes o quanto possível.

Por ocasião da dedicação do novo coro de sua igreja, em 11 de junho de 1144, o Abade Suger explica que a beleza da obra deve iluminar a alma de quem a contempla. O espírito é incapaz de atingir a verdade suprema sem servir-se de representações figuradas (ou símbolos); mas, por meio daquela iluminação da alma é capaz de conhecer a Jesus Cristo, que é a verdadeira “luz que ilumina este mundo”.(9)

Em busca da perfeição

É o momento de nos ocuparmos da história da construção da catedral de Nossa Senhora (Notre-Dame) de Paris.

A Paris de 1160 devia ter pouco mais de 20 mil habitantes quando Maurício de Sully, com o favorecimento do rei Luís VII, foi escolhido para ocupar sua Sé episcopal. O rei fora educado na infância pelo Abade Suger, o qual, como vimos, concluiu com sucesso a primeira basílica em estilo ogival.

D. Maurício apresentou ao rei, naquele mesmo ano, seu projeto de construir em estilo gótico uma nova catedral em honra da Santíssima Virgem (o padroeiro da Sé anterior era Santo Estêvão). O povo da cidade tomou-se de entusiasmo pela ideia. Obtida a ampliação do terreno em volta da antiga igreja carolíngia, os trabalhos começaram em 1163. A pedra fundamental foi colocada pelo Papa Alexandre III, ocasionalmente refugiado na França para escapar à ira do imperador germânico Frederico Barba Roxa, que teve a ousadia de fazer eleger um antipapa e por isso foi excomungado.

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