Junho de 2013
Notre-Dame de Paris
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Em 1182, estavam concluídos o coro e seus dois deambulatórios. Paris crescera, tendo então mais de 50 mil habitantes. A catedral, incompleta, foi consagrada pelo legado papal, com a presença do rei Filipe Augusto. Mas faltava ainda muito para concluir a obra.

Em 1196 faleceu Maurício de Sully, sendo sucedido na Sé episcopal no ano seguinte por Odon de Sully. Apesar do mesmo nome de família, este último, de sangue nobre, não tinha nenhum parentesco com D. Maurício, que era de origem modesta. D. Odon continuou os trabalhos com afinco.

Seguiu-se a construção da nave, da fachada e dos campanários. O campanário sul foi terminado em 1240, decidindo-se então que as torres não seriam mais encimadas pelas flechas que figuravam no projeto inicial. Em muitas ocasiões faltou dinheiro e foi preciso recorrer ao rei, aos nobres, aos burgueses e à população em geral.

Finalmente ficou pronta a torre norte, em 1250. A catedral estava então em condições de ser aberta ao culto, embora faltassem muitos detalhes, aperfeiçoamentos e correções, por vezes de importância. Mas a obra já aparecia em todo o seu vulto, como fruto e símbolo de uma nova era.

Rex regum et Dominus dominantium

Nessa ocasião reinava em França Luís IX, o rei santo. Em 10 de agosto de 1239, junto com seu irmão o conde Roberto de Artois e sua mãe Branca de Castela, ele foi receber a Coroa de Espinhos de Nosso Senhor Jesus Cristo em Villeneuve-l’Archevêque, antigo burgo perto de Sens. A sagrada relíquia, símbolo da derrisão com que os homens coroaram o Divino Mestre, foi conduzida em cortejo a Paris, venerada solenemente pelo caminho nas catedrais e abadias.

Em Paris, as relíquias são recebidas ao som de hinos e cânticos, enquanto ressoam os sinos da catedral e das 17 igrejas capelas circundantes.

São Luís Rei entra com a Coroa de Espinhos na Sainte Chapelle
Recentemente, em uma bela edição da revista “Le Figaro”hors-série sobre Notre-Dame de Paris,(10) Irina de Chikoff fornece os elementos dessa descrição.

A Coroa de Espinhos fora encontrada juntamente com a Santa Cruz e outras relíquias da Paixão pouco depois do Concílio de Niceia, no século IV, por Santa Helena, mãe do imperador Constantino. Tais relíquias passaram às mãos dos cruzados após a queda de Constantinopla, em 1204.

Mais tarde, cruzado também ele, São Luís empregou todos os recursos para obter as sagradas relíquias, agora por fim em suas mãos. Para abrigá-las faz edificar a Sainte Chapelle, junto ao seu palácio na Île de la Cité, distante apenas 300 metros da catedral. Enquanto essa jóia da arquitetura gótica era construída, as relíquias permaneceram em Notre-Dame.

As relíquias da Paixão — a Coroa de Espinhos, três cravos e um fragmento da verdadeira Cruz onde morreu Nosso Senhor — constituem o mais precioso tesouro da catedral. São expostas à veneração pública todas as primeiras sextas-feiras de cada mês, à tarde, sob a custódia dos Cavaleiros da Ordem Hospitalar de São João de Jerusalém, em cuja capela, atrás do altar-mor, ficam guardadas.

A santidade, o heroísmo e a sabedoria de governo caracterizam o longo reinado de São Luís, que marcou a fundo seu tempo. Para Germain Bazin, o século de São Luís é o grande século da arte gótica, comparável ao 5º século grego:
Relicário com a Coroa de Espinhos

Vê-se então, na Idade Média, o primeiro estabelecimento de um sistema político e social coerente; o dogma religioso e o pensamento filosófico são fixados em obras como a Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino; o verdadeiro centro dogmático e intelectual da Cristandade não é Roma, mas a Universidade de Paris, onde ensina o italiano Santo Tomás”.(11) E também seu conterrâneo São Boaventura. Esse sistema não é senão o Reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei dos reis.

Rainha das catedrais

A França possui ainda hoje um número elevado de catedrais, abadias, igrejas e capelas góticas. Alguns desses monumentos são merecidamente célebres, como as catedrais de Reims, Chartres, Amiens, Bourges, Estrasburgo, para citar apenas estas. Mas existem inúmeras outras igrejas como que perdidas em longínquas províncias ou em cidades modernizadas.

Sem dúvida, cada catedral possui sua beleza específica, algumas de valor excepcional. Mas nenhuma terá inspirado tanto os poetas, artistas e escritores quanto Notre-Dame de Paris. Bastaria o privilégio insigne de abrigar as relíquias da Paixão. Também tem seu peso o fato de ser a Sé da capital do reino, do império e da república. Mas possui ainda outros trunfos que fazem dela a rainha das catedrais. A respeito de Notre Dame de Paris, exclamou Plinio Corrêa de Oliveira: “Igreja de uma beleza perfeita, alegria do mundo inteiro”.

Ocupando a metade leste da Île de la Cité (Ilha da cidade), que é o coração de Paris, a catedral situa-se num lugar privilegiado, como uma grande nave acariciada pelas águas do rio Sena. No século XX, a população de Paris teve o bom senso de opor-se à construção de arranha-céus no centro histórico. Assim, de vários ângulos a catedral pode ser vista, total ou parcialmente, em sua beleza única.

A sua agulha aponta para o céu com a doce violência de uma prece, como uma flecha que arranca os maiores perdões do Coração divino. Sua fachada e suas torres são de uma harmoniosa força e doçura, que conquistam qualquer alma aberta à beleza.

“Em uma extraordinária vertical, sua fachada associa o mistério da Encarnação a Cristo Juiz, mostrando seu corpo martirizado e os instrumentos da sua Paixão no momento de separar os eleitos dos condenados. Jesus Cristo como Mestre no tremó (a coluna que divide a porta central) alinha-se à Cruz de glória sobreposta, no coro, à Virgem das Dores que oferece a Deus seu Filho supliciado para expiar os nossos pecados”, observa Michel De Jaeghere.(12)
Foto: Paulo Roberto Campos

Se analisarmos os detalhes, descobriremos novas riquezas: a doçura incomparável da harmonia de cores de suas rosáceas, especialmente a do portal Sul; a majestosa e maternal imagem de Nossa Senhora de Paris no transepto, à direita da mesa da comunhão; os altos-relevos coloridos que circundam o coro, visíveis do deambulatório, ilustrando episódios da história da salvação; a sua estatuária externa hierática e monumental, com toda a sua riqueza simbólica; as suas gárgulas representando figuras hediondas, a lembrar a presença do maligno, sempre à espreita para perder as almas…

Sob o signo da luta entre o bem e o mal, entre anjos e demônios, manifesta-se um dos aspectos mais interessantes de Notre Dame de Paris.

O neto de São Luís contra o Papa!

De acordo com M. De Jaeghere, se Notre Dame de Paris ocupa um lugar especial no imaginário dos franceses, não é apenas por ser um catecismo em pedra, mas também um compêndio e palco da História, conforme um dito do Cardeal Feltin: [Em Notre-Dame] “a França recita o rosário perpétuo das suas alegrias, dos seus lutos e das suas glórias”.

Com efeito, se aí ocorreram acontecimentos gloriosos, também se cometeram pecados imensos. Assim a transformação da catedral em templo da deusa razão, figurada por uma mulher impúdica que nela se exibiu nua num episódio da Revolução Francesa – classificada por Plinio Corrêa de Oliveira em sua obra-mestra (13) como a segunda Revolução.

Também a primeira Revolução, fautora da destruição da Cristandade medieval, está ligada à história da catedral de Paris. Com efeito, foi em Notre Dame que o rei Filipe IV, dito o Belo, presidiu os primeiros Estados-Gerais em abril de 1302.

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