Junho de 2013
Notre-Dame de Paris
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Com que objetivo? — Obter apoio para a sua política religiosa. O rei inaugurara um novo estilo absoluto de governo, cercando-se de legistas. Eliminou costumes e privilégios locais da antiga sociedade feudal e criou novos impostos, provocando descontentamento geral. Extinguiu a isenção da Igreja de pagar tributos e por fim mandou prender D. Bernardo Saisset, bispo de Pamiers, que representava o baluarte da ortodoxia católica na luta contra a heresia cátara ou albigense na sua diocese ao sul de Toulouse.

Esses fatos levaram o Papa Bonifácio VIII a enviar ao rei, em 1301, a bula Ausculta, fili (Ouça, meu filho), em defesa da autoridade papal, e a pedir um tribunal especial para julgar o bispo de Pamiers. No ano seguinte, o Pontífice escreveu a bula Unam sanctam, demonstrando a supremacia do poder espiritual sobre o poder temporal.

Em 1303, dois enviados do rei — Guilherme Nogaret e Sciarra Colonna – partiram ao encalço de Bonifácio VIII, retirado em Anagni (pois Roma encontrava-se em poder dos Colonna). O Pontífice foi por eles insultado, acusado de heresia, humilhado e esbofeteado, vindo a falecer de desgosto poucos dias depois.

Esse episódio, conhecido como o Atentado de Anagni, constitui um marco na História. É o começo do fim da Cristandade medieval e o anúncio da primeira Revolução, inaugurando a era do absolutismo real, do humanismo e do renascimento do paganismo. Mais tarde o protestantismo veio selar essa revolução no campo doutrinário e especificamente religioso.

Ao ver a obra demolidora de seu neto, o grande São Luís deve ter-se movido de indignação em seu túmulo! Mas Filipe o Belo foi mais longe: mandou prender os cavaleiros Templários e confiscou seus bens (a Ordem possuía muitas propriedades na França). Há algum tempo já circulavam contra esses religiosos as lendas mais abjetas. “Menti, menti. Algo sempre ficará”, dirá mais tarde o ímpio Voltaire.

Depois de um processo iníquo a Ordem foi dissolvida, e no dia 18 de março de 1314, em frente de Notre-Dame de Paris, seu grão-mestre Jacques de Molay e outros cavaleiros foram queimados vivos. Em novembro do mesmo ano Filipe o Belo, o rei maldito, teve de prestar contas de seus atos a Deus.

Martírio e reabilitação de Santa Joana d’Arc

Em dezembro de 1431, Henrique IV da Inglaterra foi sagrado rei da França em Notre-Dame, na presença de D. Pierre Cauchon, bispo de Beauvais e depois de Lisieux. Aliado dos ingleses, este bispo fora o carrasco de Santa Joana d’Arc no julgamento iníquo que a condenou a ser queimada viva como feiticeira na praça do mercado de Rouen.

A coroação de Henrique IV era uma impostura, pois o rei legítimo, Carlos VII, já fora sagrado em Reims. Em 1437, Carlos VII recuperou o trono e em 1455 abriu-se em Notre-Dame o processo de reabilitação de Joana d’Arc, beatificada por São Pio X em 1909 e canonizada por Bento XV em 1920.  

O voto de Luís XIII

Os limites deste artigo nos levam a saltar para o reinado de Luís XIII, no século XVII. O soberano, casado com a princesa espanhola Ana d’Áustria, aproximava-se da maturidade sem filhos, com graves problemas de saúde e uma guerra difícil contra os calvinistas, entrincheirados em La Rochelle.

Luís XIII
O rei recorreu então à Santíssima Virgem: fez-lhe o voto de construir uma igreja, se fosse atendido. Em 1628, depois de 13 meses de cerco, os calvinistas renderam-se. Em agradecimento, o soberano fundou a igreja de Nossa Senhora das Vitórias, em Paris. Em 1630, ele se viu curado de uma grave disenteria. Mas nenhum sinal de um herdeiro!

Ao longo de uma década, o voto de Luís XIII sofreu alterações em sua formulação, sendo finalmente apresentado ao Parlamento em 1637. Ele instituía uma celebração anual em todas as igrejas do reino, a 15 de agosto, com procissão solene em honra da Assunção da Virgem.

No mesmo ano, um religioso agostiniano teve uma visão da Mãe de Deus segurando em seus braços o herdeiro do trono que, disse Ela, Deus queria dar à França. Nossa Senhora pedia ainda que se fizessem publicamente três novenas a Nossa Senhora das Graças de Cotignat, a Nossa Senhora de Paris e a Nossa Senhora das Vitórias.

Efetivamente, no ano seguinte, depois de 22 anos de casamento, Ana d’Áustria deu à luz Louis Dieudonné (Luís dado por Deus), que viria a ser o Rei- Sol. Em 1643 falecia Luís XIII. Uma parte importante de seu voto fora cumprida. Luís XIV terminaria de cumpri-la por seu pai in extremis, no fim de seu reinado.

Para marcar sua consagração a Nossa Senhora Luís XIII prometera “construir de novo o altar-mor da catedral de Paris, com uma imagem da Virgem tendo em seus braços seu precioso Filho descido da Cruz; nós (o próprio rei) seremos representados aos pés de ambos, oferecendo-lhes nossa coroa e nosso cetro”.

A cena foi esculpida em 1715 no mais puro estilo do Grand Siècle por Guilherme Couston, em contraste com a austera sacralidade gótica da catedral. Foi preciso, ademais, refazer todo o claustro do coro. Mas ninguém nega tratar-se de uma grande obra. Além da Pietà e da expressiva escultura de Luís XIII, figura também na cena o próprio Luís XIV.

Condé e Turenne: dois estilos

Em Notre-Dame foram sepultados os dois maiores gênios militares do século de Luís XIV: Turenne e o Grand Condé.

Como Luís II de Bourbon-Condé era primo de Luís XIV, quis o rei oferecer-lhe “a mais bela, a mais magnífica e a mais triunfante pompa fúnebre jamais realizada”, conforme os superlativos de Madame de Sevigné. Para pronunciar seu elogio fúnebre na catedral, diante do Rei-Sol, subiu ao púlpito o mais célebre dos oradores: o borguinhão Jacques Bénigne Bossuet, bispo de Meaux.

Altar da catedral com as estátuas de Luís XIII e Luís XIV ladeando a Pietá

Não era sem razão que o príncipe de Condé morria coberto de glória: ele era o mais brilhante dos improvisadores numa batalha, surpreendendo o inimigo pelo seu ímpeto e pela sua audácia. O que supõe um golpe de vista preciso e um discernimento notável nas batalhas. Assim foi ao atirar seu bastão de comando no meio de um quadrado de “tercios espanhóis”, desafiando seus homens a recuperá-lo… O recalcitrante pelotão ibérico foi destroçado!

Ao marechal Henri de La Tour d’Auvergne, visconde de Turenne, nobre protestante convertido ao catolicismo, atribui-se, ao contrário, um estilo militar em que prevalece a estratégia, o método, o planejamento, a análise do terreno e o cuidado na execução. Tudo isso conduzia quase implacavelmente suas tropas à vitória.

A perfeição da arte de guerrear talvez esteja numa sábia combinação desses dois estilos.

Notre-Dame

Os mais belos aspectos da alma católica são perceptíveis na catedral

Plinio Corrêa de Oliveira(*)

 

Na catedral de Notre-Dame em Paris, bela em cada um de seus pormenores, consideremos inicialmente as três portas do primeiro pavimento, encimadas por lindíssimas ogivas. Em cada portal aparecem vários episódios da História Sagrada, esculpidos de um e outro lado da ogiva.

Acima das portas ogivais, uma fileira de estátuas. Não satisfeita em decapitar Luís XVI, a Revolução Francesa — cuja infâmia supera qualquer outro acontecimento histórico, exceto a traição de Judas — incitou alguns vândalos a subirem até essas esculturas e degolá-las.

Imaginemos que não existisse a parte superior do edifício, mas apenas o andar térreo coroado por essa espécie de balaústre acima das estátuas dos reis. Mesmo despojada dessa forma, ela seria uma edificação linda. Podemos imaginar também outro edifício formado apenas pela grande rosásea central e pelas duas laterais acima de duas pequenas ogivas superiores. Se esse conjunto estivesse no solo, poderia ser também a fachada de uma igreja belíssima. Poderíamos ainda imaginar cada uma das pontas das torres do terceiro piso transformadas em oratórios e colocadas no rés do chão, e veríamos que, mesmo separadamente, elas seriam extraordinárias.

Na fachada da catedral há três belezas superpostas, mas a finura dos franceses — o charme mais belo que a beleza — fê-los sentir que alguma coisa faltaria, se ficasse só nisso. Percebe-se então uma cúpula atrás, e no alto uma flecha — a famosa flecha de Notre-Dame, que dá um arremate, um toque de leveza, de graça e de grandeza às torres inacabadas.

 

*       *       *

As torres da catedral deveriam ter sido mais altas, mas o estilo gótico morreu ao sopro maldito da Renascença e do Humanismo, e por isso elas não foram concluídas. Entretanto, mesmo assim, têm encanto e beleza.

Notre-Dame provoca uma impressão muito agradável pelo contraste entre a altura e a largura do edifício. Ela é graciosa e leve, mas possui um quê de fortaleza. É esguia, no entanto não pode de nenhum modo ser considerada frágil. Reflete bem a plenitude do espírito da Idade Média: hierático e hierárquico, sacral e ordenado, tudo voltado para o que há de mais alto. A maior seriedade se compagina bem com a graça e a delicadeza, e os mais belos aspectos da alma católica aparecem a todo propósito em todos os ângulos da catedral.

______________

(*) Trecho de conferência proferida por Plinio Corrêa de Oliveira em 11 de janeiro de 1989. Sem revisão do autor.

 

 


As profanações e o saque da catedral

Impressionou-me ter ouvido certa vez um professor afirmar que, infelizmente influenciado por certas ideias revolucionárias, Luís XVI já teria aprovado a demolição da catedral de Notre Dame para erguer em seu lugar um templo em estilo grego, a exemplo da igreja de La Madeleine, em Paris.

Felizmente esse terrível desígnio não se realizou. Como se sabe, no dia 21 de janeiro de 1793, a Revolução cortou a cabeça de Luís XVI na praça da Concórdia. O monarca, aliás, se houve no momento da morte com um valor e uma resignação cristã exemplares. Impedindo inicialmente que o carrasco lhe amarrasse as mãos, olhou interrogativo para o sacerdote que o assistia junto ao cadafalso. O Pe. Edgeworth lhe disse então que se deixasse atar, pois assim mostraria mais um sinal de semelhança com Nosso Senhor Jesus Cristo, injustamente condenado. Em uma atitude digna de um mártir, o rei cessou de imediato qualquer resistência.

Mas se a catedral não foi demolida, algo pior aconteceu: no período da Revolução Francesa, a Convenção revolucionária decretou que a igreja passava a chamar-se templo da deusa Razão. Na realidade, Notre-Dame já vinha sendo degradada desde 1790. Não se sabe por que nem por quem a flecha foi desmontada entre 1786 e 1792.

 

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