Junho de 2013
Notre-Dame de Paris
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Capa

Durante a Revolução, os demolidores destruíram todos os brasões, coroas e escudos da catedral. Sinos e bordões foram fundidos para fazer canhões. [A respeito da restauração dos sinos de Notre-Dame, (vide matéria da Capa) As imagens foram condenadas à destruição como “simulacros góticos”. Derrubadas, mutiladas e quebradas, as estátuas da galeria dos reis de Judá, na fachada, foram precipitadas ao pátio. Cacos e fragmentos foram roubados e vendidos. Em 1977, importantes fragmentos de 21 das 28 cabeças foram encontrados durante escavações. As cruzes foram igualmente derrubadas. Os mármores, quebrados. Os vitrais que continham a flor-de-lis, lambuzados grosseiramente com tinta a óleo. Todos os altares foram sistematicamente destruídos e os túmulos profanados.

“Façamos tábula rasa do passado! Soem os tambores! Que corra o sangue! A pátria está em perigo. Todos os indulgentes são suspeitos. Todos os suspeitos são culpados. O Terror é uma espiral infernal que se enrola sobre si mesma não poupando ninguém”.(14)

A catedral foi transformada depois em depósito: enquanto seus móveis e madeiras eram vendidos em leilão, guardavam-se tonéis de vinho em sua nave. Pilhada pelos exploradores como a carcaça de um animal pelos abutres, ela era no final quase como um barco fantasma.

Passado o tufão revolucionário, sobe Napoleão, “a Revolução em botas”. Os fatos são bastante conhecidos: o general faz vir à força o Papa Pio VII para a sua coroação imperial em Notre-Dame. Não terá sido fácil convencê-lo a casar-se com Josefina, para que também ela pudesse ser coroada como sua esposa. O matrimônio só foi celebrado na véspera, discretamente.

Napoleão — que roubou sacrilegamente da Casa de Loreto e depois mandou derreter a imagem do Menino Jesus de ouro, cujo tamanho e peso era o mesmo do recém-nascido Dieudonné, oferecida por Luís XVIII e Ana d’Áustria em ação de graças pelo nascimento de Luís XIV — fez esperarem pacientemente, na nave de Notre-Dame, o Papa, os bispos, o corpo diplomático e toda uma legião de convidados ilustres e autoridades representativas da nação… Duas horas de atraso!

Finalmente, a cerimônia desenrolou-se. Sob o olhar penalizado do Pontífice, Napoleão coroou-se a si mesmo, e depois a Josefina. Era 2 de dezembro de 1804.

A restauração criadora de Viollet-le-Duc

“Deus escreve certo sobre linhas tortas”. É a única explicação para o despertar do interesse pelas catedrais góticas num século XIX já infectado pelos preconceitos positivistas.

Para ser breve, recorro uma vez mais a Irina de Chikoff,(15): Eugênio Viollet-le-Duc tinha 17 anos quando em 1831 Victor Hugo publicou Notre-Dame de Paris, verdadeiro manifesto a favor da arquitetura medieval desprezada durante séculos. É surpreendente, pois Victor Hugo é o revolucionário que escreveu também Quatrevingt-treize.
Cabeças das estátuas da fachada de Notre-Dame, encontradas em 1977

Recém-casado, Viollet-le-Duc visitou Chartres e o Monte Saint-Michel em 1835. Foi para ele uma revelação, deixando-o convencido de que a arquitetura medieval era o estilo que melhor se adaptava ao gênio de seu país. Pouco depois ele aceitava o convite de um amigo para fazer o levantamento dos principais monumentos medievais da França. Tratava-se de Prosper Merimée, nomeado secretário da Comissão dos monumentos históricos pelo rei Luís Filipe.

Merimée confiou-lhe inicialmente a restauração da abacial de Vézelay e depois a da Sainte-Chapelle, em colaboração com Jean-Baptiste-Antoine Lassus, arquiteto e historiador de arte decorativa medieval. O projeto de ambos venceu o concurso para a restauração de Notre-Dame, iniciada em1845. Lassus e Viollet-le-Duc começaram restabelecendo os ateliês das antigas corporações de ofício, necessários à execução de trabalhos de escultura, carpintaria, cantaria, montagem de vitrais, confecção de imagens, etc.

Agulha de Notre-Dame

Se Victor Hugo era fascinado pelas “duas torres formidáveis” de Notre-Dame, Viollet-le-Duc se impressionava mais com a pureza de suas linhas e com a doce luz difusa de suas rosáceas. Seis anos antes, ele experimentara uma verdadeira emoção estética ao contemplar os vitrais da catedral.

Eugênio Viollet-le-Duc
Igualmente admirador e profundo conhecedor do estilo gótico, Jean-Baptiste Lassus transmitiu a Viollet-le-Duc grande parte de seus conhecimentos. Arquiteto diocesano de Chartres e de Le Mans, ele projetou a nave da catedral-basílica de Moulins e restaurou várias outras igrejas, como a catedral Notre-Dame de la Treille, de Lille e a de São Pedro de Dijon. Faleceu em 1857.

Em 1859, Napoleão III inaugurou a nova e fabulosa flecha da catedral. Apesar de todas as dificuldades, principalmente a falta de verbas, em 19 anos (1845-1864) a restauração de Notre-Dame de Paris estava concluída.

Após árduos estudos não só de Notre-Dame, mas também das catedrais de Reims e Amiens, Viollet-le-Duc e Lassus souberam criar, introduzindo muitas alterações e melhorias. Foi do primeiro, por exemplo, a ideia de povoar o exterior do edifício com gárgulas e figuras fantásticas.

Esse movimento restaurador das antigas jóias da Cristandade permite aos fiéis desnorteados de nossa época vislumbrar a beleza de um mundo maravilhoso que foi destruído ou abandonado. Por isso, Notre-Dame, o Monte Saint-Michel, e em menor proporção outras catedrais francesas, encontram-se hoje entre os monumentos mais visitados da França.

A catedral é figura da Jerusalém celeste para a qual todos somos chamados. E nela resplandece Aquela que, conforme a rezamos na Salve Rainha, é a nossa vida, doçura e esperança: a clemente e piedosa sempre Virgem Maria.

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Notas:

1. Cfr. Comprendre l’art des églises, Denis R. McNamara, Dessain et Tolra/Larousse, 2012, p. 5

2. Encíclica Immortale Dei, de 1º-11-1885, Bonne Presse, Paris, vol. II, p. 39.

3. M. Aubert e S. Goubet Cathédrales et trésors gothiques de France, Arthaud, Paris, 1971, p. 7.

4. Op.cit., p. 22.

5. L’art religieux du XIIIe en France,Armand Colin, Paris, 1969.

6. Op. cit., vol. I, p. 10.

7. Cfr. Histoire de l’Art,Garamond, Paris, 1992, p. 11.

8. Ibid, pp.137 e ss.

9. Evangelho de São João que encerra a Missa tradicional. Veja-se o desenvolvimento dessas ideias na citada obra de M Aubert e S. Goubet, p. 23.

10. I. de C., La Couronne du Roi des Rois, in “Le Figaro” hors-série Notre-Dame de Paris, Janeiro/2013.

11. Idem, p. 138.

12. Em editorial para o número hors-série de “Le Figaro” de janeiro de 2013.

13. Revolução e Contra-Revolução,publicada em primeira mão por Catolicismo, Abril/1959.

14. Cfr. I. de C., Le temple de la déesse Raison, in “Le Figaro”hors-série Notre-Dame de Paris, p. 38.

15. Viollet-le-Duc, Le Néogothique,in “Le Figaro”, p. 42.

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