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Vidas de Santos

São Pedro Damião: destemido defensor da Igreja numa era de crise

Para combater os males que se abateram sobre a Igreja e a Cristandade no século XI, a Divina Providência suscitou Santos de envergadura incomum

Valdis Grinsteins

Era terrível a crise que a Santa Igreja atravessava no início do século XI. Tinha aquela como causas principais a intromissão do Poder temporal na vida da Igreja, a venda dos cargos eclesiásticos e a falta de observância da castidade por parte dos sacerdotes.

Essas causas estavam relacionadas entre si, pois da primeira delas decorriam as outras.

De fato, ao interferir na eleição do Papa e dos Bispos, procuravam os governantes temporais obter a nomeação de Prelados que não lhes criassem muitos problemas. E naturalmente os eclesiásticos ambiciosos e oportunistas aproveitavam-se dessa circunstância, muitas vezes comprando descaradamente os cargos.

Compreende-se que tal gênero de eclesiásticos relapsos constituíam um fator de difusão da imoralidade no Clero, pois não visavam em sua atuação a maior glória de Deus, mas sim desfrutar as vantagens humanas proporcionadas por seus cargos.

Criava-se assim um problema que parecia insolúvel. Aparentemente, era um círculo vicioso. Pois, para se obter Bispos virtuosos era necessário um bom Papa que os nomeasse; e para se conseguir um Papa virtuoso, deveria haver bons Prelados que o elegessem.

Deus, entretanto, que nunca abandona a Santa Igreja, mesmo nas horas de pior crise, suscitou dois homens para sanar esses males: o Papa São Gregório VII, que combateu principalmente os inimigos externos da Igreja e vibrou o golpe decisivo contra a indébita intromissão no plano espiritual; e São Pedro Damião, que batalhou eficazmente sobretudo contra os inimigos internos, denunciando e extirpando seus vícios. Ambos tornaram-se figuras exponenciais do movimento que se empenhou na realização da reforma dos costumes eclesiásticos no século XI, e que teve salutares reflexos na própria ordem temporal.

Outro fator decisivo desse movimento reformista foi a extraordinária atuação empreendida por uma série de mosteiros beneditinos em toda a Europa sob a liderança da famosa Abadia de Cluny, na França. Convém lembrar a propósito que São Pedro Damião fez uma viagem à referida abadia para se encontrar com São Hugo, um dos célebres abades santos desse mosteiro.

* * *

São Pedro Damião nasceu em Ravena (Itália), em 1007, de família extremamente pobre. Era o último de muitos irmãos. Sua mãe, desesperada pelos apertos que passava para alimentar sua numerosa prole, abandonou-o certa vez em plena rua. Foi então recolhido por determinada mulher, que vivia pecaminosamente com um sacerdote, sendo mais tarde devolvido à casa paterna.

Ficando órfão em tenra idade, um irmão encarregou-se de sua subsistência, mas tratou-o como escravo, ordenando-lhe que cuidasse dos porcos que possuía.

Outro irmão, chamado Damião, que era arcipreste de Ravena, libertou-o dessa situação e ajudou-o a iniciar os estudos. Em sinal de gratidão, Pedro juntou seu pré-nome ao dele, passando assim a ser conhecido como Pedro Damião.

Terminados seus estudos, dedicou-se ao ensino, chegando a lecionar em Faenza e Ravena.

Porém, não sendo esta sua vocação, aos 28 anos ingressou na Ordem Camaldulense, fundada pouco antes por São Romualdo. Entrou no Mosteiro de Fonte Avellana, onde, estimulados pelo exemplo de sua vida virtuosa, os monges o elegeram Abade, após o falecimento do superior daquela casa religiosa.

Sua atuação nesse honroso cargo foi altamente benéfica para a Ordem, não só pela fundação de vários mosteiros, como pela reforma da Ordem dos Monges da Santa Cruz. Vários discípulos seus atingiram a santidade, como São Rodolfo, São João de Lodi e São Domingo Loricato.

Imbuído por verdadeira caridade, Pedro Damião não se contentou em viver tranqüilamente em seu mosteiro, enquanto numerosas almas se perdiam no mundo. Julgou seu dever atacar com vigor os erros e vícios da época, especialmente os disseminados nos ambientes eclesiásticos.

A imoralidade dos clérigos: alvo do Santo reformador

São Pedro Damião percebeu com clareza que a imoralidade reinante entre os sacerdotes era o primeiro inimigo a ser debelado, visto ser ela a fonte de outros pecados -- avareza, inveja e soberba -- que devastavam o Clero naquele tempo.

Não julgando suficiente apenas a pregação contra esses males, escreveu em 1051 uma obra que até hoje suscita polêmicas: O livro de Gomorra. Nele, empregando uma linguagem forte, vitupera todo tipo de pecados contra a castidade, fustigando aqueles que deveriam impedir este estado de coisas e não o faziam.

O Papa reinante, São Leão IX, acolheu esse livro com significativas palavras de elogio. Mas, naturalmente, os atingidos por tal ataque ficaram indignadíssimos. E conseguiram o apoio de numerosos sacerdotes que, apesar de deplorar a imoralidade vigente, julgavam não ser oportuno desvendar de forma tão clara os vícios existentes no seio do Clero.

O clamor produzido foi tal que o próprio Sumo Pontífice ficou um tanto perturbado. São Pedro Damião, porém, não se deixou abater e escreveu ao Papa uma carta na qual, a par da reverência e submissão devidas ao Sumo Pontífice, justificava sua posição e a necessidade de semelhante obra naquelas circunstâncias muito especiais. Com isso, a tormenta esmoreceu um tanto, mas ainda continuou viva por vários anos.

Conhecedor, por sua grande experiência, que as paixões da carne se vencem mortificando a carne, tornou-se um decidido promotor, e até renovador, do velho costume da auto-flagelação.

Essa luta contra a imoralidade no Clero durou toda a vida de São Pedro Damião, valendo-lhe numerosos inimigos, os quais não sentiram qualquer escrúpulo em lançar contra ele as mais variadas calúnias.

Eliminação da simonia: decisiva vitória do Santo

Outro campo de batalha abriu-se para São Pedro Damião, cujo zelo pela causa da Igreja era inesgotável: a luta contra a venda de cargos eclesiásticos, conhecida como simonia (palavra derivada de Simão Mago, que tentou comprar com dinheiro o poder de São Pedro para crismar, conforme narram os Atos dos Apóstolos (At. 8, 18-19).

A esse respeito, começaram a aparecer na época doutrinas absurdas. Uma delas afirmava que se um Bispo houvesse comprado seu cargo, perdia o poder de conferir o sacerdócio. Ora, se as ordenações sacerdotais, conferidas por ele, não eram válidas, os sacramentos administrados por esses padres também não o eram. É óbvio que a aplicação de tal doutrina provocaria logo grande desordem.

De fato, começou a estabelecer-se uma confusão generalizada, em meio à qual Bispos reordenavam sacerdotes por medida de segurança. Três Concílios foram convocados, sem conseguir solucionar o problema em seus justos limites.

Para cortar o passo a tamanhos absurdos, São Pedro Damião redigiu uma obra intitulada Gratissimo, na qual defende a verdadeira doutrina católica sobre a matéria, demonstrando a tese de que o Sacramento da Ordem conferido por um Bispo, apesar de simoníaco, é valido. O autor ilustra sua tese apresentando exemplo de Santos sacerdotes, ordenados por Bispos simoníacos.

Normalmente a refutação de doutrinas errôneas é um processo longo, que suscita polêmicas. A mencionada obra de São Pedro Damião, contudo, de tal maneira esclarecia a questão, que sua simples leitura era suficiente para extinguir as controvérsias.

Assim, em pouco tempo os Bispos -- e o próprio Papa São Leão IX -- tomaram posição a respeito do tema, sendo a simonia condenada num Concílio efetuado em Roma no ano de 1049. Posteriormente, foi ela igualmente condenada em outros Concílios.

Entretanto, nosso Santo não ficou inativo após este grande triunfo. Combateu ainda a ignorância dos clérigos de seu tempo e fundou numerosos mosteiros.

Contra sua vontade, Cardeal e Bispo de Óstia

Após essas lutas em defesa da Igreja, desejava São Pedro Damião retirar-se novamente para uma vida solitária, própria à sua vocação de camaldulense, de monge contemplativo, na qual pudesse retemperar a alma.

A história desse Santo, porém, é um caso característico do tratamento que Deus reserva aos que mais ama: suscita na alma o desejo de um tipo de vida e obriga a seguir outro. A exemplo de São Bernardo, esse grande contemplativo foi compelido a uma vida ativa, repleta de viagens e polêmicas, oposta à solidão e ao silêncio de um claustro.

Após a morte do São Leão IX, foi eleito novo Papa, que morreu logo depois. Seu sucessor, Estêvão IX, desejou conceder o chapéu cardinalício ao incansável Abade do Mosteiro de Fonte Avellana como recompensa pelos grandes serviços prestados à Igreja. E nomeou-o também Bispo de sstia.

São Pedro Damião, entretanto, recusava com tal vigor o convite que foi necessário ameaçá-lo com a excomunhão, caso persistisse na recusa.

Após sua elevação ao cardinalato e sagração episcopal, não deixou de pedir várias vezes demissão daquela primeira dignidade, pois a considerava um obstáculo para sua união com Deus. Chegou ao ponto de, muitos anos após a morte de Estêvão IX, chamá-lo seu perseguidor, por lhe haver imposto o episcopado.

Missões delicadas e importantes

Conhecedores de suas virtudes, os Papas encarregaram-no de executar várias e complicadas missões, que exigiram dele viagens freqüentes.

A primeira delas foi a reforma do Clero da diocese de Milão, onde quase todos os sacerdotes eram simoníacos e grande número deles mantinha concubinas.

Tentativas anteriores, lideradas por Santo Arialdo -- o qual morreu mártir por essa razão -- haviam fracassado.

A intervenção paciente e caridosa de São Pedro Damião, porém, foi decisiva. O próprio Prelado de Milão escreveu Carta Pastoral condenando os vícios da simonia e a impureza reinantes em seu Clero. Em comovente cerimônia, todos os clérigos da diocese juraram abandonar estes dois vícios e aceitaram as penitências que lhes foram impostas.

Apenas concluída tal missão, o Santo participou ativamente da luta a favor do novo Papa Alexandre, contra o antipapa que havia sido suscitado na Alemanha. A esse respeito escreveu um livro denominado Disputa Sinodal, no qual expõe os princípios pelos quais um Papa, para subir ao Sólio Pontifício, não necessita aprovação do Imperador do Sacro Império Romano Alemão.

São Pedro Damião e São Gregório VII: profunda amizade com divergências

Um dos episódios mais interessantes da História da Igreja dessa época foi o relacionamento entre São Pedro Damião e o Arquidiácono Hildebrando, futuro Papa São Gregório VII.

Ambos Santos, animados de grande ardor pela reforma da Igreja, admiravam-se mutuamente, mas possuíam temperamentos muito diversos e divergiam no modo de conceber a reforma eclesiástica.

São Gregório VII era reservadíssimo, muito prudente, diplomático, discreto e um tanto frio. Hábil político e estrategista, não se movia sem traçar um plano que seguia rigorosamente, derrotando um inimigo após o outro.

São Pedro Damião era impetuoso e apaixonado, embora sabendo dominar-se quando necessário. Não elaborava planos e combatia o primeiro inimigo que divisava pela frente da melhor forma que podia. E nem prestava atenção nos golpes que recebia.

A maior divergência que surgiu entre eles era a atitude a ser tomada em face da reforma eclesiástica. São Gregório VII considerava um dever estar presente no meio da sociedade para reformá-la. São Pedro Damião, com vocação contemplativa, julgava mais eficaz retirar-se para a solidão do claustro, a fim de converter o mundo mediante a oração.

Dessa divergência surgiram disputas entre ambos, sempre sobre o tema do múnus episcopal, que para São Gregório VII era um dever e para São Pedro Damião um obstáculo. Assim, o Arquidiácono Hildebrando conseguia frustrar invariavelmente as tentativas de demissão do cargo por parte de São Pedro Damião junto ao Papa Alexandre II.

Como último recurso, resolveu o Santo enviar uma carta ao Sumo Pontífice e outra a Hildebrando, na qual o chama de seu Santo Satanás e o acusa de ter para com ele uma compaixão e piedade neroniana, além de tê-lo acariciado com garras de águia.

Não foi essa a única vez que qualificou o Arquidiácono de "Santo satanás", tendo repetido tal expressão em outras cartas. Contudo, sempre teve admiração e dedicou profunda amizade àquele amigo, sobre quem Deus tinha especiais desígnios, os quais, naquele momento, escapavam ao seu entendimento.

Últimas cruzes e morte antes de voltar à almejada contemplação

Além das numerosas viagens que teve de empreender, não faltaram a São Pedro Damião as mais diversas cruzes.

Ele próprio chegou a ser acusado de simoníaco pelo povo de Florença, pois tendo sido chamado a julgar uma causa entre o bispado e monges locais, constatou que a justiça estava do lado do Prelado. O povo da cidade, contudo, não gostou dessa decisão...

Acusavam-no também de credulidade excessiva, pois, para provar suas teses, utilizava com freqüência fatos sobrenaturais. O que não impediu, porém, que fosse declarado posteriormente Doutor da Igreja.

Ademais, é preciso ressaltar que durante toda sua vida teve que suportar uma saúde frágil, sofrendo especialmente de insônia e de dores de cabeça, motivo pelo qual é invocado contra tais males.

Com o fim do cisma provocado pela eleição do antipapa Honório II, tão atacado por ele, parecia ao Santo ser possível afinal retirar-se para seu tão almejado mosteiro.

Foi quando surgiu o caso do Imperador Henrique IV, que desejava divorciar-se de sua legítima esposa, tendo para isso convocado uma assembléia em Frankfurt. O mau exemplo de um Imperador poderia disseminar tal pecado por toda a Cristandade.

O Papa Alexandre II, por meio do Arquidiácono Hildebrando, enviou nosso Santo à Alemanha para resolver o problema. O que poderia um Cardeal contra o homem mais poderoso de sua época, na esfera temporal? São Pedro Damião todavia contava mais com os auxílios sobrenaturais do que com suas próprias forças ou influência. Por isso conseguiu impedir que o Imperador consumasse o escândalo. Sem nenhum temor ou respeito humano, ameaçou excomungá-lo ele próprio, naquela mesma assembléia e diante de todos seus súditos. O Imperador, apesar de ser muito soberbo e não querer dobrar a cabeça, compreendeu ser impossível enfrentar o Santo, preferindo reconciliar-se com sua mulher.

Após essa missão vitoriosa, foi encarregado ainda de outra, que seria a última de sua vida: a reconciliação de sua cidade natal, Ravena, com o Papa.

O Arcebispo dessa cidade tinha sido excomungado, morrendo sem ser absolvido, o que levou o povo a uma atitude de revolta contra Roma. Foi necessário o Santo empregar toda sua caridade e inteligência para tranqüilizar os ânimos e restabelecer a paz.

Obtida essa, estava São Pedro Damião a caminho de Faenza, quando a morte o colheu aos 65 anos, no Mosteiro de Santa Maria dos Anjos, onde foi sepultado. Era o dia 22 de fevereiro de 1072.

Seu corpo foi trasladado várias vezes de sepultura, e pelo menos até o ano de 1595 encontrava-se incorrupto.

Leão XIII concedeu-lhe o título de Doutor da Igreja.

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Fontes de referência:

Alfonso Capecelatro, Storia de S. Pier Damiano e del suo tempo, Desclée, Lefèvre e Cia., Roma, 1887.

Pe. João Leite, SJ, Santos de Cada Dia, Editorial A.O., Braga, vol. I, 3ª edição, 1994.

Pe. Campos Góes, Os Santos do Ano, Edições Cruzeiro, Rio de Janeiro, 1953.

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