Maio de 2000
Há 25 anos...
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Memória

Há 25 anos...          = INÉDITO =

Falecia o Cardeal Mindszenty, o bom Pastor que deu a vida por suas ovelhas, não aceitando a menor colaboração com os tiranos comunistas que dominaram a Hungria. Seu corpo, exumado em 1991, foi encontrado incorrupto.

O indômito Cardeal Josef Mindszenty, Arcebispo de Esztergom e Primaz da Hungria, em 6 de maio de 1975 entregava sua alma a Deus. Ele foi, para o povo húngaro e para o mundo, o modelo da resistência católica ao regime comunista que dominou sua nação por mais de quatro décadas. Mesmo preso, cruelmente torturado e obrigado a ausentar-se de seu povo, jamais dobrou os joelhos diante da tirania vermelha.

Neste 25º aniversário de sua morte, Catolicismo, pesquisando seus arquivos em busca de material referente a esse herói da Fé, encontrou algo inédito...

Durante muitos anos, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira colaborou semanalmente para a "Folha de S. Paulo". Um desses artigos ele o escrevera para ser publicado no domingo, 10 de novembro de 1974, comentando as corajosas atitudes assumidas naqueles dias por dois grandes Purpurados que haviam resistido heroicamente às perseguições comunistas: o Cardeal Josyf Slipyi, Arcebispo-Mor do rito ucraniano, e o Cardeal Mindszenty, acima mencionado.

Por algum problema circunstancial, o artigo não foi publicado na data aprazada. E dada a conjuntura política do momento, o insigne pensador católico resolveu escrever a respeito de outro tema de atualidade para o domingo seguinte. Assim, o artigo sobre esses dois Purpurados foi arquivado e passou, então, 26 anos “dormindo” numa gaveta. Agora, temos a alegria de trazê-lo a lume, numa homenagem aos dois insignes Confessores da Fé.

A resistência impertérrita dos Cardeais Slipyi e Mindszenty ao genocídio físico e espiritual de seus respectivos povos ganhou novo relevo com a recente publicação da tradução do Livro negro sobre o comunismo no Brasil – objeto da matéria de capa de nossa edição de fevereiro/2000 – que descreve de forma documentada o caráter intrinsecamente criminoso da doutrina e da prática comunistas.

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Sim, ajoelhemo-nos leitor

                                                                                                         Plinio Corrêa de Oliveira

O Cardeal Mindszenty concede entrevista à imprensa, após ser libertado da prisão durante o levante popular anticomunista, em 1956
Q
uando faleceu De Gaulle [1970], vários órgãos da imprensa mundial afirmaram que com ele se encerrava a era dos demiurgos. Daqui por diante, num mundo cada vez mais socializado, os grandes homens de outrora seriam substituídos pelas grandes equipes ou grandes organizações. Não há dúvida que a previsão está dentro da lógica do socialismo. Pois, segundo este, as pessoas devem ser absorvidas pelos grupos, e os grupos pelas grandes multidões despersonalizadas, anorgânicas e anônimas, valor máximo do mundo futuro.

Esta perspectiva importa, para cada um de nós, na diluição do próprio eu no magma confuso das multidões. Não consigo compreender, pois, como com ela possa rejubilar-se qualquer pessoa de espírito arejado e bem constituído.

Aliás, este desideratum socialista é falso. É possível que o rolo compressor do igualitarismo socialista consiga achatar milhões de personalidades. Mas da humanidade assim metida à força em moldes absolutamente antinaturais se exalará, por certo, um gemido surdo e universal. Como sempre acontece com os grandes gemidos dos povos opressos, também o do eventual mundo socializado encontrará almas de escol que o formulem em termos de pensamento, de literatura, de arte ou de ação. Esses serão os grandes homens do dia de amanhã. Suas figuras impressionantes formar-se-ão nas sombras das prisões, altear-se-ão no isolamento trágico que rodeia os inconformados, e se imolarão no devotamento e na luta. As massas não os conhecerão, talvez. Pouco importa. Tais homens serão verdadeiramente grandes. E no dia do Juízo Supremo, o Justo Juiz saberá dar-lhes o prêmio devido. Assim, é o próprio socialismo quem terá feito nascer os grandes homens, cujo surgimento quisera evitar.

*    *    *

Sobretudo estou certo de que continuará a haver grandes homens no futuro, porque "o Espírito sopra onde quer" (S. João III, 8) e ninguém O impedirá de efetuar nos homens sua obra santificadora. Ora, santificar importa em formar personalidades inteiramente definidas, características inquebrantáveis, que nenhum sistema de massificação conseguirá diluir. O Santo é precisamente o contrário do homem massificado. Ele é o contrário do homem-formiga, autômato vivo das imensas babéis socializadas. O Santo é como o fermento na massa (S. Mateus XIII, 33): ele comunica aos outros sua força de personalidade, e quebra assim a inércia das multidões estagnadas. Ele é como o sal (S. Mateus V, 13): dá sabor ao que é insípido, dá pois vitalidade às personalidades insípidas, medíocres ou até vulgares.

E entendo aqui por "Santo" não só os gigantes do heroísmo cristão, mas cada homem que vive na graça de Deus.

Assim, enquanto durar o mundo, a Igreja continuará a produzir homens de fibra e até grandes homens: "o Espírito sopra onde quer"...

*    *    *

Visão parcial da primeira congregação do Sínodo de 1974, presidida por Paulo VI, durante o qual o Cardeal Slipyi proferiu o discurso aludido neste artigo. Na primeir fileira, pode-se ver o Arcebispo-Mor de Lvov e Metropolita dos ucranianos
Dois fatos recentes o confirmam. As cinzas do solitário de Colombey [De Gaulle] ainda não acabaram de esfriar na tumba, e o mundo já pode contemplar a plena fulguração de duas grandes personalidades, aureoladas com uma glória que nem Churchill, nem Adenauer, nem De Gaulle possuíram. Uma glória perto da qual toda grandeza meramente humana não é senão pó, cinza, e nada. Uma glória que excede em esplendor, força e doçura todas as glórias. Seu nome é bem-aventurança. "Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor à justiça, porque deles é o Reino do Céu" (S. Mateus V, 10). Isto não foi proclamado por nenhuma comissão de doutos, nem por qualquer ato da UNESCO. Foi simplesmente enunciado no alto de um pequeno monte de província por Alguém que, sendo verdadeiramente homem, não era somente homem. Era o Homem-Deus. E por isto tal bem-aventurança transcende toda grandeza humana.

Esses dois bem-aventurados foram dois Cardeais. "Meus ossos humilhados estremeçam de alegria" (Salmo L, 10): a frase de Davi me sobe do coração aos lábios, no momento em que me é dada a felicidade de proclamar as grandezas autênticas de dois Cardeais da Santa Igreja!

Só à Igreja cabe decretar canonizações, e Ela muito prudentemente não canoniza ninguém em vida.

Não quero preceder a Igreja. Limito-me a dizer que, no momento em que os dois Cardeais se apresentam ao mundo associando-se à causa dos perseguidos por amor à Fé, são bem-aventurados.

*    *    *

As nuvens plúmbeas toldam o horizonte baixo. A poluição espiritual afetou extensas zonas da própria atmosfera interior da Igreja Santa. O comunismo internacional a todo custo quer induzi-la a um acordo. Acordo ambíguo e entreguista, oferecido ora por diplomatas maquiavélicos, ora por prelados cavilosos, como Pimen, o "patriarca" fac-totum dos ateus de Moscou. Muitos crêem, e outros fingem crer na sinceridade dessas manobras pacifistas.

Neste último problema não entrou o Arcebispo-Mor do rito ucraniano, Cardeal Josyf Slipyi, e expondo-se embora a todos os riscos, arrancou a máscara dos blandiciosos ateus. De pé, na assembléia do Sínodo [dos Bispos, realizado em Roma de 27 de setembro a 26 de outubro de 1974], em presença de Paulo VI, proclamou ele [no dia 3 de outubro] grandes verdades que reduzem a pó – ou antes a lama – a política de Brezhnev. No mundo comunista as perseguições não cessaram. Os católicos ucranianos continuam sofrendo as piores perseguições. E, exclama Slipyi, ninguém há pela vastidão da Terra que os proteja. Pimen (a cuja posse no "patriarcado" de Moscou, assistiu uma delegação Vaticana presidida por um Cardeal, e que recebeu recentemente a visita do Pe. Arrupe, Geral dos jesuítas) qualificou a perseguição dos ucranianos de uma das ações mais memoráveis de nosso século.

A denúncia do Cardeal se alongava, espoucando no ar as verdades incômodas e dramáticas. Os sinais luminosos indicavam que se calasse, pois seu tempo regulamentar tinha passado. Mas ele continuava a falar. Enquanto não o arrancassem materialmente da tribuna, não pararia sem ter dito tudo. Enquanto ele falava, nada havia que fazer. Quando ele se calou, nada havia que dizer.

No dia seguinte, o noticiário dos jornais mostrava ao universo a estatura moral inteira de um grande homem...

*    *    *

O Cardeal Mindszenty concede audiência ao Sr. Martim Afonso Xavier da Silveira - portador de mensagem de admiração e homenagem da TFP - na capital austríaca, em março de 1974
Passemos ao Cardeal Mindszenty. Todo o mundo lhe tem contemplado, fremente de admiração ou hirto de ódio, as três sucessivas "crucifixões": nas masmorras nazistas, nos cárceres comunistas e na solidão trágica da embaixada americana. Resistiu até aqui. Finalmente, o que nenhuma força humana conseguira dele, obteve-o o que se lhe afigurava um dever de obediência! Deixou a Hungria contra a vontade, e foi para Roma, onde o esperava um tépido e honroso fim de vida.

Hora difícil esta, para todos os heróis. A hora de calçar os chinelos, de sentar na cadeira de balanço e acender o cachimbo. Hora em que o herói corre o risco de amolecer. Os chinelos fazem fenecer facilmente os louros...

– Teria o Cardeal Mindszenty consentido em não lutar mais, em não ser mais um entrave, uma recriminação viva, uma ameaça moral irredutível, para os tiranos comunistas de Budapeste?

Houve um momento em que um suspense se formou a este respeito. Nenhum sintoma de resistência, nenhum sinal de vida partiu, durante alguns dias, da Torre de São João, o alojamento cercado de silêncio e de mistério em que Paulo VI hospedara o Purpurado ancião.

Não se sabe exatamente como. Nem a que horas nem de que jeito. Mas o fato é que, em certo momento, o cardeal Mindszenty fendeu a cortina de mistério e de silêncio. Cortou as distâncias, atravessou a fronteira austríaca e apareceu em Viena. Aos que lhe perguntaram a razão porque ele ali se fixava, respondeu com uma singeleza, a um tempo sublime e encantadora: "Assim estarei mais perto de meu povo".

A frase é um novo programa de devotamento, já em fim de vida. Ela lembra a frase de São João sobre o Redentor: “Como amasse os seus, amou-os até o fim” (S. João XIII, 1).

Ao que consta, prometeu ele a Viena não intervir em política. O que, aliás, não significa a cessação da luta. Pois durante toda a sua vida protestou jamais ter feito tal coisa, uma vez que não é política cumprir o dever de Pastor.

O Cardeal Josyf Slipyi é recebido pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira na Sede da TFP, em São Paulo, no mês de setembro de 1968
Nestes dias torvos em que tantas almas acomodatícias e sem ideal pregam o fim do anticomunismo e a quebra das barreiras ideológicas, a figura do Cardeal Mindszenty, de pé, a pequena distancia do território húngaro, com a fronte e o peito voltados para os ventos frios e pestíferos que de lá sopram, é o próprio símbolo da coerência heróica, uma barreira ideológica viva firmada na Fé e na graça, e por isto mesmo superior a qualquer pressão humana.

Outro bem-aventurado mostrou assim ao mundo a grandeza de sua envergadura de herói.

*    *    *

Há certas grandezas que tornam pálido qualquer elogio.

Elas não se contemplam de pé, mas de joelhos. De joelhos diante de Deus, glorificando-O pelo que opera em seus eleitos. E pedindo-Lhe que os preserve da humana debilidade até a hora extrema.

Assim, de joelhos, peçamos a Deus, por Maria, Medianeira de todas as graças, para esses dois grandes lutadores, o prêmio dos prêmios, que é a posse do Reino do Céu.

Sim, ajoelhemo-nos Leitor.

*    *    *

Anos marcantes na  vida do
Cardeal Josef Mindszenty
(1892 – 1975)

1915 – Ordenado sacerdote.

1944 – Nomeado Bispo de Veszprém. Neste mesmo ano é feito prisioneiro pelos nazistas.

1945 – Nomeado Arcebispo de Esztergom por Pio XII.

1946 – Nomeado Cardeal pelo mesmo Papa, que, ao entregar-lhe o chapéu cardinalício, prognosticou: “Serás o primeiro a sofrer o martírio, simbolizado por esta cor vermelha”.

1948 – Seqüestrado de seu Palácio arquiepiscopal, pelos comunistas, é, em seguida, despido e jogado  numa minúscula prisão. Durante 39 dias é submetido a torturas físicas e psíquicas: sujeito a contínuos interrogatórios – mesmo às noites, a fim de impedi-lo de dormir –, ouve falsas acusações e é espancado com cassetetes. Tentam  fazê-lo confessar crimes que não cometeu. Ficando alquebrado, treme dos pés à cabeça com a lembrança das torturas. Depois, é lançado de masmorra em masmorra, num período de oito anos.

1956 – Devido ao levante popular contra o comunismo na Hungria, o martirizado Purpurado é liberto. Esse levante, porém,  durou poucos dias, pois é esmagado sob as botas soviéticas, obrigando o Cardeal Mindszenty a pedir asilo na Embaixada dos Estados Unidos em Budapeste. Nesse local permanece por 15 longos anos, confinado e proibido de exercer qualquer ação, para não desagradar o governo marxista...

1964 – É visitado em seu exílio por Mons. Agostinho Casaroli, que propõe ao Cardeal Mindszenty um plano para abandonar a Hungria, pois sua simples presença intranqüiliza os governantes comunistas. Ele rejeita a proposta, uma vez que desejava permanecer junto a seu rebanho, dando-lhe exemplo de resistência anticomunista.

1971 – O destemido Pastor é obrigado a deixar seu país, por resolução direta de Paulo VI, que ofereceu-lhe como residência a Torre de São João, na cidade do Vatica­no.

1974 – Convidado pela Santa Sé a renunciar a seu cargo de Arcebispo de Esztergom e à sua dignidade de Primaz da Hungria. Diante de sua negativa, é destituído do cargo e da dignidade.

O Cardeal Mindszenty abandona a torre em que residia,  no Vaticano, e aparece em Viena. Desejava ficar próximo a seu povo, zelar por milhares de húngaros que escaparam de seu país e viviam na Áustria, bem como denunciar o regime marxista que escravizava sua pátria.

1975 – O sacrifício chega ao fim. Aos 83 anos, o Pastor-mártir, tendo se sacrificado heroicamente por suas ovelhas, entrega sua alma a Deus. Foi aberto processo para sua beatificação.

1991 – Seu corpo é exumado e encontrado incorrupto, após 16 anos de sua morte.

 

 

 

 

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