Julho de 2006
Revolução Cultural corroendo a América Latina
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Internacional

Revolução Cultural
corroendo a América Latina

A meta que o comunismo nunca conseguiu atingir através de bombas ou das urnas, seus sequazes estão obtendo indiretamente por meio da degradação moral da sociedade. A principal vítima: a família. Ela reagirá?

Alfredo Mac Hale
Alejandro Ezcurra Naón

As eleições presidenciais na Bolívia, no Chile, na Colômbia e no Peru ensejam uma análise de conjunto. Não para tratar da posição de seus respectivos governantes em matéria sócio-econômica — da extrema-esquerda de Evo Morales a certas atitudes conservadoras (embora com notórias e crescentes incoerências) de Álvaro Uribe, e do respeito (em franca diminuição) de Michelle Bachelet pela economia de mercado, passando pelo jactancioso populismo socialista de Néstor Kirchner —, mas para denunciar o avanço da Revolução Cultural nesses países e no continente.

* * *



Família latinoamericana em perigo

Em nível internacional, o debate se degradou até cair em extremos inéditos, com o insulto soez, a intervenção prepotente e a violação de regras diplomáticas, como o fizeram repetidas vezes o presidente venezuelano Hugo Chávez, seu êmulo boliviano Evo Morales e o folclórico chefe de Estado argentino Néstor Kirchner, pisoteando regras básicas do convívio civilizado.

No âmbito nacional de vários países onde se celebraram recentemente eleições, reinou como nunca a confusão dentro de uma desoladora pobreza temática, de modo tal que assuntos episódicos e subalternos tomaram a dianteira face a matérias atinentes ao Estado.

Confirmando o temor manifestado em numerosos estudos de opinião, as campanhas eleitorais deixaram claro a existência na população de um crescente desencanto com o mundo político, e muitos acham que os diversos partidos se distanciam, mais ou menos por igual, de tudo quanto é relacionado com o bem comum, afetando assim a própria autenticidade democrática dos regimes vigentes.

Ausência de autênticos líderes, drama da América Latina

Álvaro Uribe da Colômbia

Nesse contexto de falta de líderes e de seriedade se entende o caudal de votos obtidos por alguns candidatos de esquerda, mas erraria quem supusesse que esta avançou, pois em vários casos as eleições — destituídas aliás de substrato ideológico — deixaram pulverizada a esquerda explícita.

O voto desse amplo eleitorado descontente constituiu a expressão de um estado de espírito mais do que o de uma ideologia; e revelou a sua frustração pela indiferença dos governos, não só em relação às necessidades da população, como também pelas aspirações de realização regional, ou seja, por um progresso que dê vazão às características próprias e orgânicas.

O maior problema é que o centralismo absorvente, o socialismo e em certos casos o terrorismo arrasaram as elites locais, destruindo os canais de interlocução natural com o poder central. Além do mais, a migração dos líderes de todos os níveis deixou acéfalas as populações, ficando estas à mercê de políticos adventícios tão ambiciosos como ineptos, o que contribuiu para imergi-las em uma crise de identidade.

É claro que os demagogos se aproveitam das frustrações assim acumuladas para converter esses descontentes — sobretudo os mais incultos — em “companheiros de viagem” das aventuras revolucionárias, como se vê hoje na Bolívia e na Venezuela. Contudo, a exploração do descontentamento em prol das utopias da esquerda — agora de caráter neotribal e anárquico — está sendo tentada em toda a América Latina.

Revolução Cultural neomarxista, a nova ameaça

Hugo Chávez da Venezuela

Mas não é este o único perigo que espreita o continente. As tendências anarquizantes também nos ameaçam em outra frente — a de uma imensa degradação moral, com efeitos demolidores na instituição básica da sociedade que é a família. Se nas matérias sócio-econômicas as diferenças entre os chefes de Estado são muitas, neste aspecto elas são poucas, pois a família — e com ela toda a sociedade civilizada — está sendo corroída na América Latina pelas mesmas forças revolucionárias mundiais que outrora tentaram impor-lhe a utopia marxista no campo político.

As classes dirigentes parecem não ter-se dado conta de que as correntes de esquerda, substituindo a revolução proletária pela cultural, ao invés de se terem tornado moderadas, na realidade se radicalizaram, pois esta última implica a corrupção em grande escala dos costumes e forma parte da visão mais atualizada, perversa e extrema do próprio comunismo.

Seria por demais extenso indicar todos os autores comunistas e socialistas que promovem essa neo-revolução, toda ela de caráter psicológico e tendencial. Para compreendê-la cabalmente, importa mostrar a lógica que a inspira: 1) para implantar o chamado comunismo total — a anarquia — é preciso derrubar a sociedade “capitalista”, centrada na família “burguesa”; 2) e para desmantelar esta, deve-se dar livre curso ao sexo e à completa libertinagem.

Marxismo e abolição da instituição familiar

Alan García do Peru

Já no Manifesto Comunista de 1848, Marx e Engels lançaram a sinistra proclamação: “Abolir a família!” (“Aufheburg der Familie!”), lema assumido e desenvolvido depois por todos os seus sequazes, entre eles Antonio Gramsci, fundador e mais tarde secretário-geral do Partido Comunista Italiano (PCI), considerado o maior ideólogo marxista do Ocidente.

Por volta de 1930 Gramsci elaborou sua estratégia de que, para estabelecer duravelmente o regime comunista, cumpria em primeiro lugar alterar o sistema vigente de convicções, tradições e costumes regionais;(1) e a esta mudança ele denominou Revolução Cultural.




Para estabelecer duravelmente o regime comunista, cumpre em primeiro lugar alterar o sistema vigente de convicções, tradições e costumes regionais. A esta mudança Gramsci (foto ao lado) denominou Revolução Cultural.

Depois de Gramsci, muitos ideólogos marxistas adotaram essa estratégia. Herbert Marcuse, por exemplo, denominou-a “marxismo cultural” e precisou seu objetivo: derrubar “a moral da sociedade existente”, com vistas a anular as resistências às reformas anarquizantes marxistas. E não deixou dúvidas ao dizer: “Acabaram-se a idéia tradicional de revolução e a estratégia tradicional de revolução[...]. O que devemos empreender é uma espécie de desintegração difusa e dispersa do sistema”.(2)

Essa desintegração está hoje em marcha acelerada. Desde os anos 70 ela faz parte dos programas das esquerdas políticas da Europa e da América, e em particular dos partidos socialistas europeus. Estes apontam para uma “revolução total”, definida como “uma revolução nas formas de sentir, de atuar e de pensar, uma revolução nas formas de vida coletiva e individual, em suma, uma revolução da civilização”.(3) É também chamada de revolução psicossexual, porque sua “força decisiva”, como explica um ideólogo francês, é a “sexualidade expansiva” (leia-se: sem freios), a qual “deve acompanhar o curso da revolução econômica, social e política”.(4)

Por efeito desse fenômeno, a agenda política de perversão dos costumes (divórcio, aborto, concubinato e união homossexual, a caminho do amor livre; igualdade entre esposa e concubina, assim como entre filhos legítimos e naturais; recusa progressiva da influência da Igreja na educação e na cultura), que no início do século XX só era apoiada pelos partidos nitidamente marxistas, hoje é tolerada por grande parte dos partidos, inclusive por muitos que se crêem e se dizem de centro ou de direita. E naturalmente essa agenda se vai impondo nas leis e na vida quotidiana.

Multiforme ofensiva neopagã e desintegradora

Evo Morales da Bolívia

Nossos países são desse modo alvo de uma ofensiva neopagã e desintegradora, cuja investida se faz sentir a todo momento: pela inundação da pornografia dura na imprensa popular, ou branda na imprensa “séria”; nas torrentes de telelixo que as emissoras de televisão lançam diariamente nos lares; nas modas sempre mais vulgares, procazes e tendentes ao nudismo; na indução ao permissivismo crescente; nos programas de educação sexual que conduzem à libertinagem e nos planos de “saúde sexual e reprodutiva” que os amparam; no aborto legalizado ou clandestino, abertamente tolerado; nas diversões cada vez mais frenéticas e desvairadas oferecidas a adolescentes e jovens; no gigantesco esforço midiático em derrubar as barreiras da homossexualidade, etc. Em suma, na obsessão sexopática que satura o ambiente publicitário e cultural, empurrando os países para uma decadência moral e social sem precedentes.

O governo de Rodríguez Zapatero na Espanha não só confere status jurídico aos pseudo-casamentos sodomitas, como também aos “direitos sexuais”, cada vez mais extremados

A Espanha dá triste exemplo de até onde chega esse extremismo revolucionário, ao exibir os mais altos índices europeus de dependência às drogas e licenciosidade nos costumes. Seguindo a agenda socialista, o governo de Rodríguez Zapatero não só confere status jurídico aos pseudo-casamentos sodomitas, como também aos “direitos sexuais”, cada vez mais extremados. E essa mesma agenda é acompanhada, um pouco mais atrás, pela presidente Bachelet no Chile ou por Kirchner na Argentina — e o que dizer do Brasil? ... — assim como por todos os partidos filiados à Internacional Socialista.





Incompreensível omissão, triste paradoxo

Michelle Bachelet do Chile

O anteriormente visto permite compreender que a nova estratégia revolucionária visa acabar com a família pela introdução da anarquia sexual, ante-sala da anarquia total. Aqueles que não tiverem isso claro, simplesmente não entendem quase nada do que ocorre, nem do que poderá ocorrer em nossos dias. Diante da Revolução Cultural em curso, farão o triste papel –– sobretudo se de dirigentes se tratar –– do “cego que guia outros cegos” (cfr. Mat. 15, 14).

Como isso é generalizado, a família verdadeira quase não encontra líderes políticos que a defendam; o que é inaudito, à vista do papel vital que ela tem para o presente e o futuro, e da assiduidade com que é combatida. Eis um tema sempre ausente de todas as campanhas eleitorais, em grande parte porque a esquerda deseja o quanto possível demolir inadvertidamente a família, e também porque os demais partidos são coniventes com esse programa.

A agenda política de perversão dos costumes (divórcio, aborto, concubinato e união homossexual, a caminho do amor livre, etc.) tem como meta o desaparecimento da família tradicional

Numerosas nações vivem assim um triste paradoxo. Enquanto as eleições confirmam a recusa do eleitorado à esquerda radical, a Revolução Cultural empurra os países, de forma gradual, para a meta mais extrema perseguida por ela. E o que o comunismo nunca conseguiu diretamente através de bombas ou das urnas, seus sequazes estão conquistando indiretamente por essa via.

Nessas circunstâncias, os líderes de inspiração cristã deveriam assumir a defesa da família ameaçada, enfrentando com inteligência, constância e destemor a ofensiva dos lobbies ideológicos internacionais que promovem a sua desintegração através do crime do aborto, da perversão homossexual e da libertinagem, e não como vem ocorrendo, quando o fazem raras vezes e mediocremente.

Cumprirão as classes dirigentes seu dever de resistir?

Néstor Kirchner da Argentina

As calamidades sócio-econômicas causadas desde os anos 60 pelo socialismo se deveram, em grande medida, à indolência das classes dirigentes, que não souberam prevê-las nem enfrentá-las. Até o momento, parece que essas mesmas classes repetirão essa atitude em face da devastadora Revolução Cultural, da qual seus próprios membros infelizmente foram, e tantas vezes ainda são, cúmplices por ação ou omissão.

A tais elementos aplica-se a advertência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em sua consagrada obra Revolução e Contra-Revolução: “Uma autoridade social que se degrada é, também ela, comparável ao sal que não salga. Só serve para ser jogado na rua, para que sobre ele pisem os transeuntes (cfr. Mt. 5, 13). Assim o farão, na maioria dos casos, as multidões cheias de desprezo”.(5)


Outro tanto cabe dizer do conjunto da Hierarquia Eclesiástica que, o mais das vezes, parece ter preferido nos últimos tempos evitar conflitos com o poder temporal, a defender os princípios atacados. Sem notar que dificilmente voltará atrás a deterioração dos costumes que se produz; e caso volte, não se sabe por que preço.

Não obstante, se alguns representantes das classes dirigentes, e a fortiori do clero, derem exemplo de verdadeiro zelo pelo bem moral das nações, assumindo com intrepidez o dever que lhes corresponde, poderão ainda reverter a situação, pois em muitos ambientes há almas — dispersas e isoladas, mas também indignadas com a corrupção que avança — que poderão aglutinar em torno de si incontáveis pessoas perplexas, à espera de uma voz autorizada convocando-as a resistir. E, muito mais importante, a essas almas a Divina Providência certamente dará, no momento-chave, ajuda, luzes e forças inéditas para conduzi-las à vitória.

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Notas:

1. Cfr. P. Alfredo Sáenz, Antonio Gramsci y la Revolución Cultural, Ed. Gladius, Buenos Aires, 1997.

2. Herbert Marcuse, La Sociedad Carnívora, Editorial Galerna, Buenos Aires, 2ª ed., 1969, p. 45.

3. Pierre Fougeyrollas, Marx, Freud et la révolution totale, Anthropos, Paris, 1972, p. 390.

4. Idem, p. 367.

5. Plinio Corrêa de Oliveira, Revolución y Contra-Revolución, Ed. Tradición y Acción, Lima, 2005, Parte II, Cap. XI, 1, A.

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