Julho de 2006
Socialismo há dois mil anos. História de um fracasso
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Informativo Rural

Socialismo há dois mil anos.
História de um fracasso

No império chinês do início de nossa era, uma tentativa de Reforma Agrária levou o povo à mais negra miséria e produziu revoltas. “Nada de novo sob o Sol”, já dizia Salomão, o Rei Profeta de Israel.

Mapa do território imperial

“Histoire de la Chine”,(*) um livro do historiador René Grousset, membro da Academia Francesa de Letras, narra fatos que fazem lembrar muita coisa dos dias atuais.

Desde o ano de 202 antes de Cristo, o império chinês era governado pela dinastia de Han, que tinha marcado suas fronteiras definitivas, adotado uma administração centralizada e uma escrita única. Ela se apoiava também sobre uma aristocracia militar, que ajudava a manter a ordem interna e defender as fronteiras contra as incursões dos hunos, nômades turco-mongóis que vagueavam pelas estepes da Ásia Central ao norte da China.

Um dos imperadores da dinastia Han

Faziam oposição a essa aristocracia os “letrados” confucianos, pacifistas que, com o tempo, difamariam e tornariam totalmente desprestigiada a profissão das armas. Esses “letrados”, que poderiam ser comparados aos nossos “intelectuais de esquerda”, também alimentavam utopias sociais e dariam origem à classe dos mandarins.

No ano 9 de nossa era, o aventureiro Wang Mang assassinou, dando-lhe a beber uma taça de veneno, o imperador da China, da dinastia Han –– um menino de nove anos de idade, de quem tinha a tutela ––, e proclamou a si mesmo “Filho do Sol”.

Reforma Agrária de Wang

Wang Mang fez sucessivas refundições do numerário...

Deixemos a palavra a René Grousset:

“O reinado desse usurpador [Wang Mang — de 9 a 22 depois de Cristo] assinalou o triunfo do partido dos letrados. Ele estava impregnado de seus ensinamentos e compartilhava suas teorias sobre o governo patriarcal, o pretenso governo dos soberanos místicos e dos primeiros Tcheou, o qual tinha por lá um pouco o papel de uma Salerne ideal, ou então do estado de natureza caro ao nosso Rousseau. Segundo esse espírito, Wang Mang decretou uma série de reformas [...].

“Desde o advento do cesarismo chinês os latifúndios tinham crescido e a classe dos pequenos proprietários tinha diminuído em proporção, para aumentar o número dos clientes e dos escravos”. [Wang Mang resolveu então] trazer de volta ‘o tempo em que todo homem possuía cem acres de terra e pagava como imposto ao Estado o dízimo dos produtos de sua propriedade’. Desde então –– acrescentava ele, colocando o ferro na chaga –– os poderosos adquiriram propriedades imensas, enquanto os pobres não têm mais nem uma polegada de terreno. [...]

“Em conseqüência disso, Wang Mang, no ano 9 de nossa era, retomando uma velha utopia do filosofo Mencius, concedeu a cada família de oito pessoas uma propriedade de cinco hectares, e ao mesmo tempo obrigou os donos de áreas mais vastas a distribuir o excedente a seus parentes ou a seus vizinhos. Para impedir a reconstituição das grandes fazendas, declarou que, em princípio, o Estado era o único proprietário do solo; proibiu toda e qualquer modificação desse estatuto, portanto qualquer compra ou venda de terras; vetou qualquer tráfico de escravos, só o Estado tendo o direito de os possuir”.

O Estado totalitário

...donde a quantidade surpreendente de moedas que são encontradas portando seu nome

“No ano seguinte [ano 10 de nossa era], Wang Mang instituiu uma série de funcionários encarregados de regulamentar a economia, vigiando os mercados para determinar a cada trimestre o preço máximo de cada produto. Agiam como ‘equalizadores de preços’, para comprar no preço corrente as mercadorias (grãos, sedas e tecidos de linho) trazidas ao mercado, e que não tinham encontrado compradores. Esses agentes guardavam em armazéns o estoque não adquirido e o revendiam quando a falta de um produto ameaçava fazer subir os preços. Banqueiros oficiais emprestavam a juros (bem altos) de 3 % ao mês.

“Ao lado disso o imposto se baseou sobre o dízimo do lucro. Excluindo os agricultores, para os quais o cálculo era fácil a cada colheita, exigiu-se uma declaração de profissão das diversas atividades — caçadores e pescadores, criadores de gado ou de bichos da seda, fiadores e tecelões, operários em metal, mercadores, médicos, adivinhos e feiticeiros —, todos devendo declarar suas receitas e pagar o dízimo ao Estado.

“Wang Mang fez também sucessivas refundições do numerário (donde a quantidade surpreendente de moedas que são encontradas portando seu nome), ao longo das quais não cessou de diminuir seu valor real. Para isso, decretou o monopólio do ouro e pôs o embargo sobre o cobre. [...]

Socialismo, fome e resistências

...ao longo das sucessivas refundições não cessou de diminuir o valor real das moedas

“Seu estatismo minucioso e suspicaz não tardou a provocar uma resistência generalizada. O monopólio do ouro tinha arruinado a nobreza; o valor rebaixado das novas moedas, acrescido à obrigação de trocar com o Estado pelo mesmo preço as antigas, de melhor teor, arruinava o comércio. Por fim, o monopólio do Estado sobre o corte das florestas e sobre a pesca lesava gravemente os camponeses.

“A economia estando desorganizada, logo que surgiram más colheitas a fome devastou as províncias. Revoltas espocaram, notadamente no Chan-tong, região superpovoada cuja fertilidade natural não resiste a alguns meses de seca ou de inundações, e que por isso sempre serviu de foco às agitações sociais e às seitas de iluminados taoístas. [...]

“No ano 11 de nossa era o rio Amarelo rompeu seus diques, inundando as planícies do Chan-tong e do Ho-pei; em 14 a fome foi tal que os camponeses se tornavam antropófagos. Um chefe de bando reuniu os revoltosos em grupos organizados, dando-lhes como sinal de reconhecimento o pintar as sobrancelhas de vermelho. Os "sobrancelhas vermelhas", apoiados pela simpatia das populações, derrotaram as tropas regulares e se tornaram pouco depois senhores da bacia do Houang-ho [Ano 18 de nossa era].

“No ano 22 os legítimos príncipes da família de Han, que tinham conservado muitos partidários, reconquistaram o poder e o conservaram até o século III. Sob seu cetro — sempre segundo René Grousset — o país alcançou um tal grau de prosperidade e de esplendor de civilização e cultura, que até meados do século XX os chineses gostavam de se dizer ‘Filhos de Han’”.

O socialismo agrário fracassa em qualquer época, em qualquer país, pois é contrário à natureza humana.

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(*)René Grousset, Histoire de la Chine – Edições Fayard, Paris, 1976, pp. 76 a 79.

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