Julho de 2006
Mozart, gênio universal da música
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Arte Musical

Mozart, gênio universal da música

Neste ano, o mundo inteiro comemora os 250 anos do nascimento de um dos maiores gênios musicais de todos os tempos. Suas melodias ecoam pelos séculos.

Carlos Eduardo Schaffer
Correspondente - Áustria


Wolfgang Amadeus Mozart nasceu em Salzburg a 27 de janeiro de 1756 e faleceu em Viena a 5 de dezembro de 1791. É um dos compositores mais conhecidos no mundo. Durante todo este ano está sendo festejado na Áustria com intensos programas o 250° aniversário de seu nascimento. É ocasião oportuna para muitas de suas obras, até mesmo as menos conhecidas, serem apresentadas não somente em sua terra natal, mas em todos os quadrantes da Terra.

Caminhando por Viena, em toda parte se vêem cartazes anunciando ora concertos, ora exposições de objetos relacionados com sua vida e época, ou ainda alguma conferência sobre o tema. No dia 27 de janeiro, dia de seu nascimento, nas salas mais importantes de ópera ou de música do mundo inteiro foram reproduzidas obras suas.

Um novo estilo musical?

Wolfgang Amadeus bem jovem

Em Salzburg, sua cidade natal, foram apresentadas todas as suas obras cênicas, entre as quais algumas já quase esquecidas, como La Finta Giardinera. Já desde o fim do ano passado, foi imenso o número de gravações novas ou antigas de suas composições lançadas no mercado.

Poder-se-ia perguntar se todo esse entusiasmo em torno da obra musical de Mozart se justifica, ou se há nisto algum exagero provocado pelo desejo das gravadoras e direções das salas de concerto ou óperas, de aumentar seu faturamento.

Sem negar que possa haver também interesse comercial, analiso a obra de Mozart como eu a vejo em seu contexto histórico.

Quando da morte de Johann Sebastian Bach (1685-1750), encontrava-se de certa maneira em seu auge a música chamada barroca, a qual começara aproximadamente no início do século XVII com Cláudio Monteverdi.


Depois de Bach, parecia necessário encontrar um novo rumo musical, caso não se quisesse permanecer em formas que já haviam alcançado sua máxima expressão, e portanto não podiam mais trazer algo de fundamentalmente novo. Era preciso, portanto, criar um novo estilo. Em sua forma inicial, este novo estilo, que chegou à Alemanha vindo da França, foi denominado “estilo galante”. Entretanto, a França não entregou ao mundo musical um estilo inteiramente desenvolvido. Coube essa tarefa à “Escola de Mannheim”, cujo nome se deve ao fato de os seus músicos e sua orquestra estarem a serviço da corte do príncipe Karl Theodor, soberano do Palatinado, cuja capital era Mannheim. Por esta corte passaram numerosos compositores e intérpretes famosos, como Stamitz, Cannabich, Holzbauer e outros mais, que levaram o "estilo galante" à sua perfeição.

Mozart ainda criança toca o órgão da Igreja de São Francisco, em Ybbs, na Áustria

Wolfgang Amadeus Mozart, em uma de suas inúmeras viagens, passou por Mannheim e conheceu de perto essa escola, que foi uma das suas principais fontes de inspiração. Foi também influenciado por um dos filhos de Bach, Johann Christian, famoso hoje sobretudo por suas sinfonias, e que desenvolveu um “estilo galante” ligeiro e melódico.

É interessante notar que, enquanto Mozart foi influenciado por Johann Christian Bach, Joseph Haydn se inspirou em Carl Philipp Emmanuel Bach, outro filho do grande Bach, que compôs num estilo barroco muito mais próximo do de seu pai. Isto explica em parte por que a música de Haydn, se comparada à de Mozart, parece mais séria, mais grave. Mozart desenvolveu, em geral, aspectos mais galantes e alegres da produção musical.



Um estilo muito próprio

Apresentação de Mozart menino na corte da Imperatriz Maria Teresa da Áustria

Reconhecido desde cedo como gênio musical, Mozart viajou muito desde a sua juventude, apresentando-se para tocar num sem número de cortes européias. Ao mesmo tempo, ouviu todos os compositores importantes de sua época. Ele possuía uma memória musical impressionante e uma grande capacidade de captar intuitivamente o espírito das peças musicais. Tinha grande senso melódico, e seu ouvido era absoluto. Com tais dotes, captou em suas viagens o melhor do espírito musical de seu tempo. Devido à sua genialidade, não é de surpreender que tenha conduzido a música de então a um auge de perfeição, criando um estilo que realmente merece ser chamado de clássico, por seu valor estético universal. E também, convém ressaltar, seu estilo apresenta uma nítida e louvável nota aristocrática

Quadro representando Mozart entre sua irmã e seu pai. Na parede, uma pintura de sua mãe.

Mozart foi compositor na corte do bispo-príncipe de Salzburg, que era ao mesmo tempo bispo e senhor temporal do principado de Salzburg, território soberano até a dissolução do Sacro Império. Permaneceu em Salzburg até os 25 anos, quando, por causa de desentendimentos com seu empresário, mudou-se para Viena, embora contra a vontade de seu pai. Em Viena, não foi servir no palácio imperial ou em algum dos muitos palácios da alta nobreza ali existentes. Preferiu ser compositor independente, vivendo, por assim dizer, da venda das obras que compunha. Esta independência –– que mais tarde, com Beethoven, passou a ser a norma –– nos dias de Mozart era inusitada.

Cartazes como o de cima, divulgaram a comemoração dos 250 anos do nascimento de Mozart

Se bem que tenha composto no estilo de sua época, Mozart criou um estilo muito próprio. Apresenta uma individualidade característica, que o diferencia da grande maioria dos autores seus contemporâneos. Sua música tem, por assim dizer, sua “assinatura”. Por isso, mesmo pessoas que não ouvem habitualmente música clássica são capazes de identificar Mozart, quando se toca uma música de sua autoria.



Comparações entre estilos


A London Mozart Orchestra se apresenta com vestes da época do famoso músico austríaco

Estritamente falando, se discute se foi com Mozart que se chegou ao fim do período clássico da música. Se é verdade que Beethoven, bem no início de sua produção artística, seguiu os cânones clássicos, inspirando-se de modo particupar em Haydn, é preciso reconhecer que, especialmente a partir de sua terceira sinfonia, rompeu com as normas do período clássico. E passou a adotar um estilo caracterizado pelo sentimentalismo romântico. Em quase todas as composições de Mozart notam-se, ao contrário da segunda fase da produção musical de Beethoven, muitas das características do ocaso do

A nova era que viria pode ser denominada de “pós-Revolução Francesa”. Nela, tanto nas óperas como na música instrumental, está presente a idéia de um novo humanismo, de triunfo do racionalismo sobre a mentalidade antiga.

Cartazes como o de cima, divulgaram a comemoração dos 250 anos do nascimento de Mozart

Para quem tenha a possibilidade de ouvir as inúmeras obras de Mozart, recomendamos comparar entre si algumas que tenham sido compostas com uma certa distância no tempo. O ouvinte perceberá não somente uma diferença na capacidade de composição — as obras vão se tornando mais complexas, mais interessantes do ponto de vista analítico, mas também vão mudando de estado de espírito, de intenção filosófica, de visão do mundo subjacente.




No mundo todo as homenagens a Mozart se expressam mediante CDs com as gravações de suas músicas...

Tal mudança é mais fácil de perceber nas óperas, pelo fato de que, além de serem obras musicais, o são também teatrais. Para se perceber em que medida as obras de Mozart se situam numa fase de transição entre o Ancien Régime e o período “pós-Revolução Francesa”, convém comparar as suas primeiras óperas – bastante desconhecidas, difíceis de se encontrar em gravações de boa qualidade –– com aquelas compostas mais tarde. Mas também observar, dentro de uma mesma obra, como até mesmo do ponto de vista musical alguns personagens se opõem a outros. Assim, por exemplo, comparar na Flauta Mágica a “Rainha da Noite” com Zarastro, ou ainda Tamino e Pamina com as damas da “Rainha da Noite”.




...chocolates

Em “Don Giovanni”, comparar os camponeses Zerline e Mazzareto com os nobres Don Giovanni e Dona Elvira, e assim por diante. Mozart apresenta nestas obras não somente diferentes classes sociais ou gerações, mas opõe nova mentalidade revolucionária à do Ancien Régime, o que se reflete nos diálogos e na caracterização dos personagens, mas claramente também na música que interpretam.









...e bonecos

Muito mais ainda se poderia dizer de Mozart. Espero, entretanto, que este breve artigo, em que procuro apresentar uma análise rápida do autor, possa incentivar os leitores de Catolicismo a aprofundar seu conhecimento sobre a prodigiosa obra desse genial compositor.

Mozart visto por Plinio Corrêa de Oliveira


Alguns comentários esparsos do insigne pensador católico sobre a música de Mozart

1 – Há três aspectos louváveis na música de Mozart: a) uma nota aristocrática; um tanto frívola, é verdade, mas indiscutivelmente aristocrática; b) uma certa lógica, que é inerente ao aristocrático de Mozart; c) é preciso reconhecer um terceiro valor naquela música –– certa castidade: a música de Mozart é casta, ao contrário da música de Beethoven, que já é besuntada de sentimentalismo (Palestra em 27-3-1973).

2 – Há certas músicas de Mozart que convidam tanto a não ser corrupto quanto a um estado de espírito que é oposto à corrupção (Palestra em 16-3-1971).

3 – Um minueto de Mozart reflete toda a felicidade daquela calma, daquela tranqüilidade, daquela racionalidade, expressas nessa peça musical. Comparem o minueto com a valsa, em que se dançava aos pares, num verdadeiro turbilhão (Palestra em 7-5-1971).

4 – A meu ver, Viena se exprime ainda muito melhor em Mozart do que em Schubert ou em Strauss. Propriamente a Viena anterior à decadência é a Viena de Mozart. E de fato aquela doçura mozartiana –– que nós, por causa dos traços franceses de nossa cultura, somos habituados a ver ligados à douceur de vivre francesa –– viu a luz em Viena. Mozart é fruto daquela atmosfera que de Viena se irradiava para toda a Áustria. E creio que é bem em Mozart que essa douceur de vivre se faz sentir (Palestra em 10-7-1970).

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