Julho de 2006
Padre Eustáquio
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Destaque

Padre Eustáquio

Sacerdote holandês, missionário no Brasil por dezoito anos, onde se dedicou incansavelmente à saúde dos enfermos e à salvação das almas. Foi solenemente beatificado no dia 15 de junho último.

Hélio Viana

Uma das últimas fotos do Padre Eustáquio.

Fala-se tanto dos políticos sagazes de Minas Gerais, que por longos anos se alternaram no comando da Nação com os da hierática e dinâmica São Paulo, na famosa política do café com leite. Entretanto, cite-se porventura um que, em apenas poucos meses, se tenha alçado à máxima consideração de todos os seus conterrâneos!

Para isso não basta ser político; nem sequer mineiro; é preciso antes de tudo ser homem de Deus, que procura não a própria glória, mas a do Criador. Perguntado certa vez, no auge de sua glória, se não se sentia um outro Cristo, Napoleão replicou que não, em absoluto, pois para tal era preciso deixar-se crucificar e morrer pelos outros.

Foi o que, pelo exemplo de sua vida, fez o Pe. Eustáquio van Lieshout nos lugares por onde passou levando o bom odor de Jesus Cristo: impôs-se de tal modo à admiração de todos, grandes e pequenos, ricos e pobres, que não existe hoje, pelo menos em Minas, alguém mais popular do que ele. Admiração que se transformou em veneração no sentido mais estrito, neste momento em que a Santa Igreja acaba de elevá-lo à honra da bem-aventurança.

Ambiente familiar de autêntica catolicidade

Ele ainda criança na escola (no círculo).

Para se ter uma idéia do ambiente em que veio ao mundo o Pe. Eustáquio, nada melhor do que reproduzir os primeiros parágrafos do excelente livro Padre Eustáquio van Lieshout SS.CC., de autoria do Pe. Venâncio Hulselmans, pertencente à mesma Congregação:

“Numa aldeia do interior da pequenina Holanda, Aerle Rixtel, o velho fazendeiro Guilherme van Lieshout estava nas últimas.

“Todos os filhos, entre os quais um sacerdote e duas religiosas, rodeavam o leito do moribundo. Só não viera uma filha, religiosa também, em obediência às regras de sua Congregação, que não permitia a visita à casa paterna, nem mesmo em caso de morte. Este fato causou descontentamento entre os parentes:

— ‘Todos os filhos deviam despedir-se do pai, e as Congregações religiosas deviam compreender que os pais também têm os seus direitos’, opinava um irmão.

“ — ‘Se eu fosse a Maria, viria assim mesmo, nem que aquela Superiora me quisesse segurar’.

— ‘Também eu fugiria’, disseram as irmãs casadas.

“O moribundo, ouvindo esses comentários, sentou-se na cama e, com a característica de fazendeiro católico até à medula dos ossos, que professa sua fé, sublinhando cada palavra com o indicador levantado, disse:

–– ‘Pois eu, se a Maria viesse sem licença, a mandaria de volta na mesma hora. Ela prometeu obediência, e se viesse contra a ordem da sua Superiora, eu não a receberia’”.

Hauriu assim o Pe. Eustáquio excelsas virtudes do lado paterno, que porfiavam com as de sua mãe, Isabel van de Meulenhof, a qual “também vivia sua religião como somente as fazendeiras brabantinas a sabem viver”, acrescenta o Pe. Venâncio.

Nesse ambiente de piedade e de senso do dever, no dia 3 de novembro de 1890 nasceu Humberto van Lieshout, que adotaria mais tarde o nome religioso de Eustáquio.

A Providência destina ao Brasil o santo missionário

Ele a cavalo, em seus trabalhos apostólicos.

Desde pequeno, Humberto nutria o desejo de se tornar sacerdote. Enquanto cursava a escola latina de Gemert, uma das mais antigas da Europa Ocidental, caiu-lhe nas mãos a biografia do Pe. Damião de Veuster, da Congregação dos Sagrados Corações, apóstolo dos leprosos na distante ilha de Molokai, morto heroicamente devido ao contágio. Decidiu então ingressar nessa Congregação.

Tendo concluído os estudos de Filosofia e Teologia, foi ordenado sacerdote na capela conventual de Ginneken, em 10 de agosto de 1919. Foi enviado no ano seguinte a Maassluis, pequeno porto do Mar do Norte, próximo de Rotterdam, onde permaneceu durante quase dois anos, dando assistência a uma colônia de vidraceiros valões expulsos da Bélgica pelo invasor alemão.

Depois os superiores decidiram enviá-lo à América do Sul junto com dois companheiros, tendo-se cogitado inicialmente a Venezuela, a Bolívia e o Uruguai. Como era preciso aprenderem o idioma, mandaram-no então em 1924 a Miranda del Ebro, na Espanha, juntamente com os padres Gil van de Boogaart e Matias van Rooy.

Como as tratativas para o envio dos religiosos àqueles três países hispanos não deram certo, seus superiores decidiram mandá-los ao Brasil. Assim, no dia 12 de maio de 1925 eles aportavam no Rio de Janeiro.

Após passarem os padres Eustáquio e Matias vários dias como hóspedes dos Premonstratenses de Petrópolis, enquanto o Pe. Gil acompanhava o Provincial nas tratativas com D. Antonio Lustosa, Bispo de Uberaba, ficou finalmente assente que o destino deles seria aquela diocese mineira. Para lá rumaram, fixando-se no dia 15 de julho de 1925 no pequeno lugarejo de Água Suja, onde se erguia um santuário dedicado a Nossa Senhora d’Abadia.

Provações vencidas pelo intrépido sacerdote

Livro de orações do Bem-aventurado

Em seu livro, o Pe. Venâncio Hulselmans mostra como o ambiente de Água Suja e adjacências era desolador, formado em sua maioria por garimpeiros que tudo perdiam com a mesma facilidade com que ganhavam, e cuja vida atribulada — com freqüência miserável — provinha da irreligiosidade, da dissolução e do crime.

Água Suja surpreendeu os sacerdotes sob vários aspectos. Não se continham de estupefação ao ver como aquele povo, ao mesmo tempo que possuía uma devoção que chegava às raias do entusiasmo, em particular a Nossa Senhora d’Abadia, tinha uma conduta de vida diametralmente oposta àqueles sentimentos. Cumpria mudá-la.

Com a divisão das atribuições, os padres Gil e Matias partiram para Araguari a fim de fundarem um colégio, enquanto o Pe. Eustáquio ficava em Água Suja e seria ajudado por dois novos auxiliares.

A população foi aos poucos tomando gosto pela vida virtuosa. Infelizmente havia os que não se deixavam tocar pela bondade do sacerdote, chegando inclusive a proferir certas ameaças. Mas não sabiam com quem estavam lidando, pois Pe. Eustáquio não se intimidou; pelo contrário, tornou-se ainda mais vigoroso nos sermões, vituperando a corrupção ainda largamente reinante.

Certa vez morrera alguém, e dois cavaleiros armados dirigiram-se ao Pe. Eustáquio para pedir-lhe a encomendação do corpo, que aguardava em frente da matriz. Inquirindo-os de quem se tratava, obteve esta resposta: “O nome não tem importância; é um católico, e nós queremos a encomendação!”. Redargüiu então: “Sem saber quem é, não a faço!”. Obtida finalmente a informação de que era certo fazendeiro abastado de Marrecos, o fogoso vigário respondeu sem delongas: “Podem enterrá-lo como bem endenderem; não vou!”. Os cavaleiros então saíram e voltaram com uma comissão, também ela armada, que em meio às discussões passaram a ameaçar, dando tiros no ar. Mas Pe. Eustáquio não arredava o pé, repetindo inúmeras vezes: “Quem em vida não entra na igreja, também depois de morto não entrará!”. A notícia deste incidente correu, e se receava algo de grave.

O receio se transformou em apreensão quando, no domingo seguinte, a população viu descer do morro de Marrecos cerca de 60 a 70 cavaleiros. O suspense foi geral, e muitos fiéis chegaram a se oferecer para defender o vigário em caso de agressão. Chegados à praça da Matriz, qual não foi a surpresa ao vê-los tranqüilamente apear, amarrar os cavalos às árvores, e em seguida entrar na igreja para assistir à Missa... pois ninguém queria terminar os dias como aquele desditoso fazendeiro, sem a bênção da Igreja. O bondoso Pe. Eustáquio os domara pela sua fibra de leão.

Milagres operados em grande profusão

Uma das primeiras fotos do Bem-aventurado na Congregação dos Sagrados Corações.

Em 1935, após quase 10 anos de intensos combates, arrancara aquela população das garras do Maligno e dos piores vícios; praticara atos de heroísmo, tanto sob o aspecto do bom samaritano que se debruça sobre as dores e misérias alheias como no do leão que ruge quando necessário, ficando patente a sua santidade. Deixava o povo regenerado, à sombra da majestosa Basílica de Nossa Senhora, que edificou.

Era chegada a terrível hora de partir, pois a voz da obediência o chamava para outra seara. Em 15 de fevereiro de 1935, tomava posse como pároco de Poá (São Paulo), sob o patrocínio de Nossa Senhora de Lourdes, ali permanecendo até 13 de maio de 1941.

Ficou tão impressionado com a influência do espiritismo naquele lugar, que para combatê-lo — e também para fazer face à paganização do operariado, que trabalhava em indústrias da capital paulista — julgou oportuno incentivar a devoção a Nossa Senhora de Lourdes, bem como a construção de uma gruta na qual corresse água milagrosa trazida daquele famoso santuário europeu.

Aconteceu porém que Nossa Senhora não quis operar milagres com a água trazida de Lourdes, pois, apesar de o Pe. Eustáquio insistir em colocá-la, nada de extraordinário acontecia. Quando essa água escasseou, ele se viu na contingência de abençoar a água comum que havia na gruta. Aí começaram os milagres em quantidade! Essa água, bem como toda que ele depois abençoasse, sanava as mais diferentes enfermidades, fato comprovado até por médicos que foram objeto de milagres. Pe. Eustáquio atendia também horas a fio no confessionário, e dava bênçãos cujo valor de cura era ainda maior que o da água.

Sua fama de taumaturgo começou portanto a crescer, e com ela também o afluxo de peregrinos, que de todas as partes acorriam à minúscula Poá para receber os favores do Pe. Eustáquio. Os trens da Central do Brasil, por exemplo, chegavam literalmente abarrotados, conduzindo a maioria dos cerca de três a quatro mil peregrinos que para lá se dirigiam diariamente.

Com freqüência começou a imprensa paulistana a publicar manchetes dando conta dos sucessos de Poá, seguidas de um relato do que aconteceu com cada pessoa: O médico foi curado pelo Santo de Poá; O Comendador Pompeu, 13º tabelião de S. Paulo, curado milagrosamente pelo Padre Eustáquio; “Meu filho, jogue fora essas muletas!”.

O lugarejo entrou naturalmente em confusão, por falta de infra-estrutura, embora na população já houvesse um movimento para melhorá-la, visando adaptá-la às atuais necessidades. Pois, pensava-se, o bem espiritual que ali se operava era inestimável, e todo sacrifício para conservá-lo e incrementá-lo seria pouco.

Duras perplexidades, vencidas virtuosamente

Entretanto o Sr. Arcebispo de São Paulo, D. José Gaspar de Affonseca e Silva, acabou se curvando diante das instâncias do Interventor do Estado de São Paulo, que se dizia acossado por reclamações da classe médica — uma vez que muitos doentes procuravam mais o Pe. Eustáquio que aos médicos... Decidiu então removê-lo de lá, não lhe permitindo sequer residência fixa na Arquidiocese enquanto ele continuasse a atrair as multidões. Diante do martírio de alma que essa medida lhe importava, no sentido de ver coarctados determinados planos de Deus, enviou ao Arcebispo uma missiva, que assim concluía:

“[...] Eis aí a santa vocação que em mim sinto: aliviar as dores corporais para poder avivar a fé abalada de nossos tempos.

“Renova a fé, pelas obras da fé, sob a santa proteção de S. José, cuja intercessão se revela como poderosa e infalível por nossos tempos.

“E sinto o santo desejo de levantar um santuário a este glorioso Santo, pois estou convencido do grande bem que Deus deseja fazer, por ele, aos nossos tempos, e mais ainda ao nosso querido Brasil”.

Cabe aqui uma reflexão, para a qual encontraremos resposta só no Juízo Final. A Providência indicara esse caminho ao Pe. Eustáquio, ou seja, de grandes planos em relação à grandeza espiritual do Brasil. Diante da impossibilidade de ele o realizar nessa proporção, seria de estranhar se Deus lhe tenha então abreviado os dias, permitindo que o apóstolo e taumaturgo morresse prematuramente dois anos depois, aos 53 anos, vitimado por uma mordedura de carrapato?

Saiu de Poá sem destino certo, e havia se tornado um estranho diante de muitos colegas de sacerdócio, sem excetuar até mesmo alguns de sua Congregação que, conquanto o admirassem, não queriam compartilhar a sua cruz, por demais incômoda. A esta altura ele foi convidado por famílias da sociedade carioca a ir para o Rio de Janeiro, porém com esta condição, imposta pelo Cardeal Dom Sebastião Leme: “Que as bênçãos se processem discretamente, e sem publicidade de eventuais fatos extraordinários”. Estava, por exemplo, proibido de curar paralíticos. Assim, chegou ele à cidade maravilhosa em 1º de julho de 1941, ficando no convento de Santa Margarida Maria.

Recebido ali pelos confrades, estes lhe perguntaram se teriam o prazer de conservá-lo em seu meio por muito tempo. Pe. Eustáquio replicou: “Deus o sabe! Na minha vida atual, o Domingo de Ramos e a Sexta-feira da Paixão se sucedem continuamente, com esta diferença que o 'fora com ele!’ se segue, bem mais depressa, à entrada triunfal. Sou um segundo Ahasverus, um verdadeiro judeu errante, e só Deus sabe aonde vou parar ainda.”

E de fato assim se deu, pois a notícia da sua presença no Rio de tal modo correu, que a cidade quase em peso se lançou ao seu encalço. O que levou o Cardeal Leme, escoados apenas três dias, a exigir que se retirasse imediatamente, embora já fosse meia-noite. Pernoitou então na casa de uma família, e na tarde do dia seguinte foi conduzido pelo Dr. Lineu de Paula Machado à sua bela Fazenda São José, próxima de Rio Claro (SP), onde permaneceria durante 11 meses.

Usam-se máscara da Religião para enganar

Foi naquela fazenda que Nosso Senhor, no dia 25 de julho de 1941, lhe comunicou uma Mensagem, da qual transcrevemos um trecho:

“Eu vejo a minha religião ameaçada, caluniada e perseguida mais do que nunca. Não sai mais a voz, como no tempo medieval, do erro de uma só boca, está saindo de milhares de bocas; de bocas que não sabem o que dizem, não sabem o que falam; apenas empurradas por uma força que eles não conhecem, nem procuram conhecer, gritam contra Mim, blasfemam contra Mim; uns fogem da minha companhia; outros, como ramos secos, ficam se agarrando ao tronco antigo que é a religião Católica, Apostólica, Romana. “[...] E o falso poder que invade os corações, invade as almas, invade os lares, aumenta cada vez mais, penetra cada vez mais na intimidade da vida, até no templo em que habito.

“O poder infernal que se desencadeia nestes tempos, não em violências nem em martírios sangrentos, tal como nos tempos antigos, mas com as palavras de Deus e de Santos nos lábios, vem dar o beijo venenoso a todos quantos se apresentam na sua frente.

“Grita-se ‘Deus’, escreve-se ‘Deus’ e nada há de Deus no coração, senão peste e veneno que, sob a falsa máscara de fé e de religião, querem espalhar-se sobre a multidão cuja fé, embora fraca, não está totalmente apagada.

“É um horror como se revoltam contra Mim. E ainda falam como se fossem inspirados pelo Espírito Santo, enquanto sua inspiração não passa de uma sugestão do mau espírito, que é o demônio em pessoa.

“E sob este fingimento de santidade invadem muitas almas, muitos corações e muitos lares. E depois de o mau espírito haver tomado posse destes corações, vê-se logo o estrago e o veneno que por aí derramaram.

“Ó astúcia diabólica, que chegou a tal ponto que soube inclinar o ouvido do povo mais para o lado do mau espírito do que para o lado do próprio Deus.[...]

“E os médiuns, que tomam o lugar dos santos, falam, escutam e enganam o próximo. E aí se vai a fé, se vai a religião, se vai a amizade com Cristo. E chegam as multidões a obter confiança de quem não é de Cristo, e a perversidade torna-se o hábito natural destas pessoas”.[...]

“Vai, meu filho, com franqueza e liberdade, em combate a este grande mal. Sê o Moisés de hoje; que livres teu povo dessa péssima escravidão!

“Revoltar-se-ão contra ti, pois o dedo será posto na ferida. Mas as curas que em meu nome operares destruirão os fenômenos diabólicos com que obcecaram o meu bom povo”.

Glória: popularidade dos heróis e dos santos”

Exéquias do Padre Eustáquio, em 1943

Saído da solidão, e atendendo pedido do Arcebispo de Uberaba, Pe. Eustáquio serviu durante menos de 2 meses –– de 12 de fevereiro a 2 de abril de 1942 — como pároco na cidade mineira de Ibiá. A convite de outro Arcebispo, D. Antonio dos Santos Cabral, viajou para aquele que seria o último posto de sua jornada terrena, Belo Horizonte, aonde chegou a 7 de abril de 1942, falecendo em 30 de agosto de 1943.

Como os limites deste artigo não nos permitem estendermos mais sobre a admirável vida de Pe. Eustáquio, dizemos apenas que sua gloriosa, rápida e providencial passagem por Belo Horizonte –– cidade onde viveu e acaba de ser solenemente beatificado, no dia 15 de junho de 2006 –– pode ser aqui resumida numa paráfrase de Churchill: “Nunca tantos deveram tanto a um só, em tão pouco tempo!”

“A popularidade é a glória dos demagogos; a glória é a popularidade dos heróis e dos santos”. Com esta frase lapidar do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira — admirador e, em certa ocasião, confidente do Pe. Eustáquio — concluímos o presente artigo, rogando a especial intercessão do novo Bem-Aventurado para que possamos, como ele, perseverar até o fim no bom combate.

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