Fevereiro de 2006
É verdade que, quando buscamos mais a Deus, o demônio procura nos desviar através de tentações e tenta nos confundir?
A Palavra do Sacerdote

 

Pergunta — Tenho 41 anos, sou católico, rezo muito, vou à Missa sempre. Tenho passado por uma renovação espiritual profunda, na proporção em que me dedico cada vez mais às orações e a Deus. As coisas mudaram muito na minha vida e também se tornaram mais difíceis, mas sinto muito a presença de Deus e de Nossa Senhora. Gostaria de saber mais a respeito desse assunto: é verdade que, quando buscamos mais a Deus, o demônio procura nos desviar através de tentações e tenta nos confundir?

Resposta — Sim, é exatamente isso que se passa. O demônio não seria ele, se não se empenhasse em tentar mais intensamente aqueles que procuram levar uma vida mais virtuosa.

Mas, de outro lado, Deus ajuda muito especialmente os que são tentados, sobretudo quando estes recorrem à ajuda da Virgem Santíssima. A este propósito, nada melhor que citar um trecho do Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de São Luís Grignion de Montfort, cuja leitura recomendo muito ao missivista. O trecho é o seguinte:

Os medievais representaram com expressividade nas catedrais a ação tentadora do demônio em relação aos homens. Acima, Catedral de Notre Dame de Paris.
“Onde está Maria, não entra o espírito maligno; e um dos sinais mais infalíveis de que se está sendo conduzido pelo bom espírito é a circunstância de ser muito devoto de Maria, de pensar nela muitas vezes, e de falar-lhe freqüentemente. É esta a opinião de um santo [São Germano de Constantinopla], que acrescenta que, como a respiração é sinal inconfundível de que o corpo não está morto, o pensamento assíduo e a invocação amorosa de Maria é um sinal certo de que a alma não está morta pelo pecado” (op. cit., no 166).

O demônio, o que mais deseja — por ódio a Deus — é afastar as almas do caminho da salvação e, portanto, da união com Deus neste mundo e sobretudo na outra vida, e assim impedir a união com Deus por toda a eternidade.

Quando o demônio percebe um movimento bom numa alma — e ele pode conhecer isto pelos atos e sinais exteriores que a pessoa manifesta na própria fisionomia — ele ataca essa alma. E não só com formas grosseiras de atração ao pecado, mas também com formas sutis de tentação. Por exemplo, desviando-a insensivelmente para as vias tortuosas que desembocam no mal.

Os ardis do demônio são inumeráveis, pois, sendo ele de natureza angélica, muito superior à do homem, sabe nos atacar no ponto mais fraco de cada um de nós. E se não recorremos a Deus, por meio de Nossa Senhora — como o leitor fez muito bem de salientar em sua carta — facilmente poderemos sucumbir nesta batalha.

Se, como o leitor afirma, sente muito a presença de Deus e de Nossa Senhora, aproveite esse momento de graça que Deus lhe concede para manter esse colóquio assíduo e amoroso com Ela, com a simplicidade de um filho que conversa com sua mãe, pedindo-Lhe que desvende os ardis do demônio e o ajude nos momentos difíceis pelos quais todos os homens temos que passar. E se o aspecto sensível dessa graça não se fizer presente, não se incomode com isso. Toque para frente do mesmo modo, pois a virtude não depende do que sentimos, mas sim da união de nossa vontade com os Mandamentos de Deus.

Duas virtudes preciosas: pureza e humildade

Catedral de Chartres.
Os autores espirituais indicam os meios que a Santa Igreja nos oferece para combater as insídias do demônio, tais como o recurso freqüente aos Sacramentos da Confissão e Comunhão, a oração e a penitência, a devoção a Nossa Senhora, à qual já nos referimos, etc. Dentre esses meios, queremos destacar aqui a prática de duas virtudes que mais especialmente afugentam o demônio: a pureza e a humildade.

Com efeito, o pecado de Satanás foi essencialmente de soberba, tendo ele se recusado obstinadamente a obedecer e servir a Deus, sendo por isso precipitado no Inferno. Como conseqüência de sua revolta, ele é o ser irremediavelmente torto e sórdido, e o primeiro revolucionário que se compraz na desordem e na imundície, e não cogita senão em afastar as almas de Deus e arrastá-las para o mesmo infortúnio ao qual está condenado por toda a eternidade. Por isso, Nosso Senhor dirá aos condenados no Juízo Final: “Retirai-vos de mim, malditos. Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos” (Mt 25,41).

Como nós todos também pecamos em Adão (pecado original), de certa forma participamos desse pecado de revolta, que é o pecado de "Revolução". Pois o sacramento do Batismo, que nos perdoou o pecado original, não elimina todas as suas conseqüências. Assim, subsiste em nós, a ser vencido, um fundo de revolta, como conseqüência do pecado original.

Antes do pecado original, o homem era um ser todo ordenado, em que a vontade seguia as orientações da razão, e as faculdades sensitivas se subordinavam aos ditames da razão e da vontade. Depois do pecado de Adão e Eva, que se transmitiu a toda a humanidade, as faculdades sensitivas se revoltaram contra a razão e a vontade; e a vontade, por sua vez, não segue facilmente os ditames da razão. Nesta queda original, a própria razão ficou algum tanto obnubilada, não tendo mais a lucidez e a penetração que tinha antes do pecado de Adão.

Daí que as virtudes da humildade (submissão de nossa razão e da nossa vontade a Deus) e da pureza (sujeição das nossas faculdades sensitivas à razão) sejam particularmente dificultosas para o homem, sem o indispensável auxílio da graça. E daí também que a prática dessas virtudes, juntamente com a oração perseverante, seja especialmente benéfica para ordenar o homem todo e afugentar o demônio.

Posição batalhadora é condição para vencer

Mas isso exige de nós uma posição batalhadora, pois nossa tendência é ver em nós qualidades e virtudes que não temos, e exagerar o valor das que temos.

Não se trata absolutamente de falsear a verdade e alardear defeitos que não temos, nem diminuir as qualidades que efetivamente temos. Como dizia Santa Teresa de Jesus, a humildade é a verdade. Mas, posto que existe em nós esse olho vesgo que exagera as nossas virtudes, é preciso sempre desconfiar de nós mesmos e não nos atribuir qualidades que não temos. A regra de ouro nesse ponto é não ficar falando de nós mesmo, a não ser em caso de necessidade ou quando as circunstâncias claramente nos indiquem que, excepcionalmente, o nosso bom exemplo, lealmente exposto, pode estimular o próximo no caminho do bem.

Nesse sentido, pode até ser proveitoso para nós quando nos censuram injustamente e não replicamos (o que é lícito fazer, se o que nos atribuem não é motivo de escândalo para terceiros). Tal atitude de mansidão é, ademais, muito meritória diante de Deus.

Absolutamente fundamental é a oração constante e humilde. Ela é, segundo ensina Sto. Afonso Maria de Ligório, “o grande meio de salvação”.

São alguns conselhos esparsos mas benéficos, cuja autenticidade o consulente poderá constatar em alguns tratados de vida espiritual tradicionais, que abordam o assunto com muita lucidez e unção. Para citar um deles, a famosa “Filotéia” de São Francisco de Sales. E, ainda em tempo, não nos esqueçamos da arma invencível da Cruz, que é “o terror do demônio”, e do uso superabundante da “água benta”, poderosíssimo sacramental da Igreja para pôr em fuga o império infernal.