Junho de 2001
Samuel: Sacerdote, Profeta e último Juiz de Israel
Grandes Personagens

Samuel: Sacerdote, Profeta e último Juiz de Israel

Criado no Templo desde seus primeiros anos, esse grande Profeta governou o povo eleito como juiz — espécie de líder político, militar e religioso — até sua velhice, no século X a.C., quando instituiu a monarquia entre os israelitas a pedido destes. Homem superior, increpou o povo hebreu e seus governantes por suas defecções

José Maria dos Santos

O menino dormia junto à tenda do Tabernáculo e acordou com uma voz que o chamava: “Samuel, Samuel” — New York, Biblioteca Pierpont Morgan

Elcana, homem do país de Efraim, na antiga Palestina, naquele tempo em que a poligamia era tolerada, tinha duas mulheres: Fenena e Ana. A primeira dera-lhe vários filhos, a segunda era estéril. Como soía acontecer nesses casos, a primeira desprezava e ridicularizava a segunda. Um dia esta, acabrunhada de dor, só chorava e não comia. O marido animou-a, dizendo: “Por que se aflige teu coração? Porventura não sou eu melhor para ti do que dez filhos?”. Não. Pois, para a mulher, a plenitude natural reside na maternidade. E para os israelitas daquele tempo a esterilidade era considerada um opróbrio, pois impedia que de sua descendência nascesse o Prometido das Nações, o Messias.

Por isso Ana prostrava-se diante do Senhor, pedindo o fim daquele opróbrio, prometendo que o fruto de suas entranhas seria inteiramente consagrado a Deus.

E foram ouvidas suas preces, pois ela deu à luz Samuel, que pouco depois de seu nascimento foi levado ao Templo, ficando sob a custódia do Sumo Sacerdote Heli.

Lamentável figura a desse Heli, que se tornou um símbolo da perniciosa tolerância paterna em relação à má conduta dos filhos. Os filhos de Heli praticavam no Templo toda sorte de desordens, abominações e sacrilégios. O pai, já velho, alertado por um homem de Deus, limitou-se a repreendê-los com palavras brandas e estéreis. Portanto, inúteis. Enquanto isso, o povo de Israel entregava-se freqüentemente ao culto dos ídolos, abandonando assim as práticas religiosas que Deus lhe ensinara.

“Entretanto, o menino Samuel crescia e era agradável tanto ao Senhor como aos homens” (I Sam. 2, 26).

Desde a infância, Deus prepara o futuro juiz

Samuel dormia junto à tenda do Tabernáculo, pois era seu dever guardar, durante a noite, a lâmpada acesa ­dian­te da Arca do Senhor.

Certa noite, o menino acordou com uma voz que o chamava pelo nome: “Samuel, Samuel”. Obediente, levantou-se imediatamente e foi ter com o Sumo Sacerdote, dizendo-lhe: “Eis-me aqui, pois tu chamaste-me”. “Não, não te chamei; volta e dorme”, respondeu Heli. E o menino foi dormir. Mas uma segunda e uma terceira vez sucedeu o mesmo. Então Heli, percebendo naquilo uma ação sobrenatural, recomendou ao menino que, quando ouvisse a voz, respondesse: “Fala, Senhor, porque o teu servo ouve” (Id. 3-9).

E assim sucedeu. E Deus revelou a Samuel o castigo que preparava para os filhos de Heli por sua conduta indigna, e também para este, porque, sabendo disso, não os corrigia.

Na manhã seguinte, o Sumo Sacerdote exigiu de Samuel, sob obediência, que lhe dissesse tudo o que o Senhor lhe havia comunicado. Diante da narrativa, qual foi sua reação? Em vez de prosternar-se diante de Deus pedindo misericórdia, e depois procurar os filhos e increpá-los duramente e expulsá-los do Templo, o velho sacerdote tomou uma atitude espantosa. Disse somente: “Ele é o Senhor; faça o que for agradável aos seus olhos” (Id. 3,18). E continuou na sua passividade... Ora, se Deus fazia-o saber de antemão o que aconteceria, era certamente para dar-lhe ocasião de se corrigir.

Quanto tempo decorreu entre a ameaça da punição e sua execução? A Sagrada Escritura não o diz. Mas acrescenta logo em seguida que, entrementes, “Samuel crescia e o Senhor era com ele, e nenhuma das suas palavras caiu no chão. Todo o Israel ... conheceu que Samuel era um fiel profeta do Senhor. O Senhor continuou a aparecer em Silo, porque em Silo é que o Senhor se manifestava a Samuel, segundo a palavra do Senhor. E a palavra de Samuel chegou a todo o Israel” (Id. 3,19-21).

Perda da Arca da Aliança: punição de Israel e seus dirigentes

“Aconteceu naqueles dias” que os inimigos dos israelitas, os filisteus, prepararam-se para combatê-los. “Travada, porém, a batalha, Israel voltou as costas aos filisteus”. E naquele combate Israel perdeu quatro mil homens. Os vencidos resolveram implorar então o auxílio do Senhor Deus dos Exércitos, fazendo vir a Arca da Aliança para o campo de batalha. “E os dois filhos de Heli, Ofni e Finéias, estavam com a Arca da Aliança do Senhor”. (Id. 4,1-4)

Com grande ímpeto, travou-se nova batalha. “Combateram, pois, os filisteus, e Israel foi derrotado e fugiu cada um para sua tenda. A derrota foi sobremaneira grande, e foram mortos de Israel trinta mil homens. A Arca de Deus foi tomada, e também os dois filhos de Heli, Ofni e Finéias, foram mortos” (Id. 4, 10-11).

Assim cumpria-se parte do castigo predito por Deus para os filhos de Heli. Quando um mensageiro trouxe a nova a Silo, houve grande alvoroço popular. Heli, tendo já noventa e oito anos, estava praticamente cego. Perguntou então ao mensageiro sobre seus filhos. Respondeu-lhe este que tinham sido mortos, e que a Arca da Aliança tinha caído nas mãos dos filisteus. Ao ouvir isto, Heli, que estava sentado, “caiu da cadeira para trás junto da porta, e quebrando o pescoço, expirou” (Id. 4,18).

Samuel leva o povo à conversão e à vitória

Samuel foi então reconhecido como verdadeiro juiz de Israel, ou seja, seu guia tanto espiritual quanto político e militar. Recuperada milagrosamente a Arca da Aliança, “Samuel falou a toda a casa de Israel dizendo: ‘Se vos tornais de todo o vosso coração para o Senhor, tirai do meio de vós os deuses estranhos, as imagens de Baal e Astarot, preparai vossos corações para o Senhor, servi a ele só, e ele vos livrará das mãos dos filisteus’”. Os israelitas então lançaram fora todos os ídolos que sacrilegamente guardavam, purificaram-se e jejuaram, e disseram: ‘Pecamos contra o Senhor’” (Id. 7, 3-6).

Assim estavam prontos para a vitória. E a obtiveram com o auxílio do Céu.

“Samuel julgou Israel durante todos os dias da sua vida” (Id. 7,15). “Ora, aconteceu que tendo Samuel envelhecido, constituiu os seus filhos juízes de Israel. ... Porém seus filhos não seguiram suas pegadas, mas deixaram-se arrastar pela avareza, receberam presentes e perverteram a justiça” (Id. 8,1-3).

Instituição da realeza e rejeição da Teocracia

Ora, o governo dos juízes era teocrático, ou seja, inspirado diretamente por Deus. Mas os israelitas queriam ser governados como os povos pagãos que os rodeavam e que tinham seus reis.

Então, tendo-se reunido os anciãos de Israel, foram ter com Samuel e pediram para apontar-lhes um rei, “como têm todas as nações”. Samuel dirigiu-se ao Senhor e este lhe respondeu: “Não é a ti que eles rejeitaram, mas a mim, para eu não reinar sobre eles. É assim que eles têm feito desde o dia que os tirei do Egito até hoje. .... Ouve, pois, a sua voz, mas faze-os compreender bem e declara-lhes o direito do rei de governar sobre eles” (Id. 8,5-9). Isto fez Samuel de uma maneira vivíssima, “mas o povo não quis dar ouvidos a Samuel”, porque queria ter um rei como as outras nações tinham, em vez de serem dirigidos diretamente por Deus mediante um governo teocrático. Ora, devido à vocação especial do povo eleito, para este a teocracia era o regime político que lhe convinha, e não a monarquia.

A escolha do Senhor, para Rei, recaiu sobre um descendente da tribo de Benjamim, Saul. Era de grande estatura: “Não havia entre os israelitas quem o ultrapassasse; do ombro para cima sobressaia a todos” (Id. 9, 2).

Samuel “tomou um pequeno vaso de óleo, derramou-o sobre a cabeça de Saul, beijou-o e disse: ‘Eis que o Senhor te ungiu por príncipe sobre a sua herança, e tu livrarás o seu povo das mãos dos seus inimigos, que o cercam” (Id., 10, 1).



Samuel, ainda menino, servia diante do Senhor trajando um efó, feito de linho — Florença, Biblioteca Nacional

Abdicação do ofício de juiz e unção do novo rei

Enquanto Saul governava vitoriosamente Israel, Samuel, sentindo-se velho, chamou todo o povo e abdicou sua função de juiz. Disse-lhes: “O Senhor é testemunha hoje contra vós, e também o seu ungido é hoje testemunha de que vós não encontrastes na minha mão coisa alguma ... Agora, pois, apresentai-vos para eu vos acusar diante do Senhor, de (tão mal que tendes correspondido a) todas as misericórdias que o Senhor, que vos fez a vós e a vossos pais” (Id. 12,5-7).

Mas estava escrito que Samuel não descansaria tão cedo. Depois de um feliz reinado, Saul desobedeceu ao Senhor e foi por Ele rejeitado. E cabia a Samuel ir ter com ele e dizer-lho. Depois do que, Samuel não viu mais Saul. Mas chorava ainda Saul pela amizade que com ele tivera, e por ele ter sido ungido.

Cabia-lhe agora ungir um novo rei. E foi Davi, conforme já relatado no artigo publicado em setembro de 1999, o novo escolhido de Deus.

Então, Samuel podia descansar em paz no Senhor.

Samuel esteve aparentemente alheio a todas as vicissitudes que ocorreram entre Saul e Davi. Embora participando de algum modo da perseguição que o novo rei sofria, sempre conservou uma grande influência nos negócios públicos de Israel.

“Entretanto morreu Samuel, e todo o Israel se juntou a chorá-lo, e sepultaram-no na sua casa em Ramata” (Id. 25, 1). Com essas simples palavras, a Sagrada Escritura narra o fim do grande juiz e profeta Samuel, que teve sua alma sempre aberta para o que vinha de Deus.