Fevereiro de 2003
Reflexoes sobre o pavão
Ambientes, Costumes e Civilizações

Reflexões sobre o pavão

Sem o equilíbrio da doutrina católica, problemas do universo ficam insolúveis

§         Plinio Corrêa de Oliveira



Vendo os dois pavões que se encontram na Sede do Reino de Maria (sede do Conselho Nacional da TFP, na capital paulista), eu pensava o seguinte: essas aves, tão superiores ao homem por algum lado, mas tão inferiores por todos os lados, sugerem entretanto essa comparação. Isto porque há poucos seres humanos elegantes como elas, não resta dúvida.

Se Nosso Senhor Jesus Cristo disse que Salomão, em toda sua glória, não se vestiu como os lírios dos campos, podemos dizer que ninguém, no auge de sua glória, se vestiu como um pavão. Nesse sentido, Luís XIV, em todo seu esplendor, não se compara a um pavão.

Daí uma impressão de misteriosa superioridade desse ente tão inferior. Não são só as penas, mas as atitudes. Dir-se-ia que cada pavão é um Arquiduque da Casa d’Áustria. Ele tem olhares, tem estilo, tem um modo de se mostrar indiferente em relação às coisas e de passar por cima de tudo; tem arrogâncias, tem insolências e tem naturalidade dentro da distinção, que são coisas soberbas.

Mas, por outro lado, prestando-se atenção no seu olhar, nota-se que ele é perfeitamente estúpido, não coordenando nada, não percebendo nada. São animais perfeitamente idiotas, que repetem de geração em geração, instintivamente, as mesmas coisas; e, ao pé da letra, não enxergam dois dedos à frente do nariz!

Entretanto, todos os atos deles são proporcionados à sua natureza. Não fazem nada que não seja conforme à lei natural à qual estão sujeitos. Quer dizer, são perfeitamente organizados e não precisam de ascese, porque lhes apetece o que convém à natureza deles. De maneira que não precisam dominar-se, não precisam de exames de consciência, de mortificação dos olhares, de penitência. Eles só têm vontade de fazer o que devem fazer. Funcionam na perfeição.

 

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Assim, é natural que um homem que tenha um pouquinho do senso de reflexão se pergunte o seguinte: neste universo tão desordenado, como é que eu, ser inteligente, participando da espécie humana, acabo ficando meio acachapado diante do exemplo desse pavão? Por causa de minha desordem interior, eu apeteço coisas que minha natureza proíbe, rejeito coisas que minha natureza exige; minha razão me indica uma conduta e minha sensibilidade caminha, como um furacão, em sentido oposto. Sou obrigado a uma luta titânica, além de precisar do auxílio sobrenatural, para  ter a conduta que devo ter. Em contraposição, eis aí a boa organização intrínseca desse pavão. Como se pode explicar uma coisa dessas? 

Essa é uma reflexão que se impõe. E esta conduz, naturalmente, à seguinte alternativa: Na primeira, eu me sujeito a aceitar toda a doutrina católica a respeito do pecado original, ficando então tudo perfeitamente explicado. O homem era, ao ser criado por Deus, muito mais formoso do que o pavão. Ele mandava nas feras e nos pavões do mundo todo, completamente. Todas as suas apetências corriam na linha da sua razão, etc., etc. Houve, porém, uma catástrofe — pecado de Adão e Eva — que deu no que já se sabe. Nesse caso, vem a obrigação da luta; e vem a humilhação, para muitos, de terem de aceitar o seu próprio fracasso: “Eu pequei, fiz o que não devia, andei mal, não valho nada... agora bato no peito”.

Na segunda alternativa, nega-se isto, e fica-se diante do inexplicável. E se a pessoa resolve não aceitar a doutrina católica — e, em conseqüência, ficar com ódio do pavão — terá ódio muito maior do homem virtuoso, que faz o sacrifício que ela não quer fazer!

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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para sócios e cooperadores da TFP em 5 de agosto de 1974. Sem revisão do autor.