Abril de 2003
A vítima expirou, o sacrifício foi consumado, opera-se a Redenção e o gênero humano foi salvo
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SEGUNDA-FEIRA SANTA

A Irmandade de Nazarenos de Nossa Senhora de Graça sai à noite. A túnica é azul; o chapéu, a estola e as luvas são brancos. O esplendor do passo, exclusivamente dedicado a Nossa Senhora, comove o povo.



“Isaías chamou Nosso Senhor de ‘Vir dolorum’ (Is. 53,3) o Varão das Dores. De Nossa Senhora, espelho da Sabedoria que reflete em Si tudo quanto é de Jesus Cristo,  pode-se dizer que é ‘Mulier dolorum’, a Dama das Dores.

Num oceano de sofrimentos, tudo n’Ela era equilibrado e raciocinado. O amor era incomparável, sem super-emoções, mas com uma infinitude de sentimento. Sem torcidas, sem pânicos, embora numa angústia quase estraçalhante.

Quando o Madeiro foi levantado, as dores de Nosso Senhor atingiram o insondável. Ela, então, ficou na alternativa: de um lado, queria que Ele morresse logo, para interromper os tormentos; de outro lado, desejava que Ele ainda vivesse, pois toda mãe quer alongar a vida de seu filho. Mas Nossa Senhora sabia que era melhor para os pecadores a imolação ir até o fim.

A grandeza de Nossa Senhora não está tanto na enormidade dos seus padecimentos, mas em ter desejado que seu Filho cumprisse esse sacrifício supremo por amor de nós. Deus amou-nos tanto, que desejou sacrificar o seu Filho Unigênito. Nossa Senhora teve tanta dileção por nós, que Ela aderiu a essa função sacrifical”.

TERÇA-FEIRA SANTA

Na calada da noite, a Confraria penitencial do Cristo da Noite Escura leva, em cortejo, imagem altamente expressiva do Crucificado. A túnica e o capuz são marrom carmelita, o escapulário e o cíngulo são brancos com uma cruz no peito. Na escuridão, resplandece Jesus cruelmente morto, enquanto ouvem-se hinos de reparação.



“Consumatum est (Jo 19,30), a vítima expirou, o sacrifício foi consumado, opera-se a Redenção e o gênero humano foi salvo.

Nosso Senhor Jesus Cristo já tinha morrido quando a lança de Longinus O perfurou. O furor dos algozes atravessou o Sagrado Coração, e então foi derramado o último sangue e a última água por nós. Ó extremo da misericórdia, de bondade e de condescendência!

Meu Deus, quem sabe se às vezes eu cravei no Coração de Jesus a lança de Longinus? Não é só o pecado mortal. É o velho hábito da tibieza: não se muda, não se progride nem se quer progredir, observa-se os outros progredirem, e o pecador não se incomoda.

Um pouco daquela água com sangue respingou no rosto de Longinus. Ele era catacego, adquiriu a vista, converteu-se e transformou-se, segundo a tradição, num santo. Quem sabe agora eu recebo também esta graça? Esta graça, meu Senhor, Vos peço pelos méritos de vossa Mãe Santíssima, na hora em que Vós expirastes”.

QUARTA-FEIRA SANTA

A Confraria Eucarística da Santa Ceia parte durante a noite trajando túnica cor marfim com galões dourados, manto bordô, chapéu e luvas brancas. A confraria carrega um dos andores mais tocantes: Cristo em pé, com uma das mãos no coração, abençoa o pão e o vinho para o sacrifício litúrgico. Enquanto os Apóstolos olham para Ele, Judas foge com o dinheiro da traição.



“Na Santa Ceia, Jesus Cristo instituiu o Santo Sacrifício da Missa. Era uma festividade, mas Ele estava profundamente triste porque um dos Apóstolos mais chegados O tinha traído: Judas Iscariotes.

O Sinédrio tramava apoderar-se de Cristo. Judas indicou o meio: ‘Eu sei onde, sou discípulo d’Ele, mas quero dinheiro pelas indicações!’ Era natural que os sinedristas dessem uma boa quantia. Mas eles eram gananciosos, e Judas conformou-se com pouco, porque queria dinheiro logo.

Quando Judas apareceu para prender Nosso Senhor e osculou-O, Jesus perguntou-lhe com afeto: ‘Judas, com um ósculo tu trais o Filho do Homem?’ (Lc 22,48). Judas não se incomodou. ‘Trinta dinheiros, o resto não importa!’ Conhecemos a resto da história, que terminou ignobilmente numa figueira.

Nosso Senhor sabia que ia ser vendido por esse preço. Zacarias havia profetizado: ‘Deram para o meu salário trinta moedas de prata’ (Zc 11,13). Tudo se passou assim, porque Ele consentiu. O Salvador não era um vencido amarrado e garroteado, mas o vencedor que divinamente quis deixar-Se prender para a salvação do gênero humano”.

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