Fevereiro de 2006
Crises no Brasil em 2005 e perspectivas para 2006
Entrevista

Crises no Brasil em 2005 e perspectivas para 2006

A professora, jornalista e socióloga Maria Lúcia Victor Barbosa faz penetrante análise da situação atual do País, formulando prognósticos para o presente ano eleitoral

A entrevistada graduou-se em cursos de Sociologia e Política e em Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Exerceu o magistério na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC/MG), em Belo Horizonte; na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Maringá/PR; no Centro de Estudos Superiores de Londrina – CESULON (atual UNIFIL); na Universidade Estadual de Londrina (UEL); e na Universidade Norte do Paraná (UNOPAR), também em Londrina/PR.

Como editora de pesquisa, colaborou no Jornal Panorama, de Londrina.

Proferiu inúmeras palestras, tendo participado de diversos simpósios e congressos no Brasil e no exterior.

Publicou também vários artigos em revistas culturais e científicas, nacionais e internacionais. Tem colaborações estampadas em numerosos jornais brasileiros, entre os quais destacamos: “Jornal da Tarde” (SP), “O Globo” (RJ), “Jornal do Brasil" (RJ), “Gazeta Mercantil” (SP), “O Estado do Paraná” (Curitiba), “Valor Econômico” (SP) e “Folha de Londrina”. Seus artigos são também publicados em muitos jornais eletrônicos.

É membro da Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina.

É autora de diversos livros, dentre os quais ressaltamos: O Voto da Pobreza e a Pobreza do Voto – a Ética da Malandragem, (Zahar, Rio, 1988); América Latina – em Busca do Paraíso Perdido (Saraiva, SP, 1995); A Colheita da Vida – Resgate Histórico da Sociedade Rural do Paraná (Editora Midiograf, Londrina, 2000).

Arguta observadora política, a Profa. Maria Lúcia Victor Barbosa concedeu entrevista exclusiva para Catolicismo, por meio de nosso colaborador Paulo Henrique Américo de Araújo.

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CatolicismoQual seu parecer sobre a crise política ocorrida no Brasil em 2005?

Profa. Maria LúciaEm 2005 tivemos o ápice de um processo no qual se acumularam no governo petista a corrupção, a incompetência e a ganância desmesurada. Naturalmente, sempre existiu corrupção no Brasil e no mundo, mas o partido ora no poder se colocou durante muitos anos como dono do monopólio da ética e prometeu que viria para mudar. O resultado causou vergonha e frustração aos brasileiros que mantêm a capacidade de se indignar e cultivam ainda valores que foram se banalizando ou mesmo desaparecendo na atual sociedade.

CatolicismoQue evolução tal crise poderá ter no decurso de 2006?

Profa. Maria Lúcia Em 2006 teremos eleições, inclusive presidenciais, e o desfecho da crise política e moral pela qual estamos passando terá seu teste nas urnas. As eleições mostrarão se o eleitor brasileiro como um todo amadureceu.

CatolicismoO atual presidente terá condições de enfrentar a próxima eleição presidencial, apesar dos escândalos e casos de corrupção envolvendo o PT?

Profa. Maria LúciaCenários políticos mudam rapidamente. Se recordarmos a euforia popular que havia quando da posse do atual presidente da República, chega a ser impressionante o que se observa agora. O prestígio deste caiu pela metade, e onde quer que vá, depara com manifestações de desagrado ao seu governo. Até os movimentos assim chamados sociais, que sempre apoiaram Lula e muito esperavam do PT, estão desiludidos e o partido perdeu um terço de seus militantes no ano que passou. Recursos retidos durante três anos, e que deveriam ter beneficiado áreas importantes, serão agora utilizados com fins eleitoreiros. Por isso o governo ainda tem seus trunfos. Tudo depende dos opositores que o presidente enfrentará. O governo não sabe governar, e as chamadas oposições não sabem se opor. Mesmo assim, cada vez mais diminui o que antes era certeza no tocante à reeleição. O PT está desmoralizado, e o presidente cada vez menos convincente. Em março já teremos um quadro mais definido em torno de outras candidaturas e poderemos avaliar melhor as tendências eleitorais. No momento, só o presidente Lula faz campanha. Mesmo assim, parece que até ele está percebendo que dificilmente será reeleito.

CatolicismoQuais as possibilidades de atuação que terá o PT na vida política do País, após a estrondosa crise de 2005?

Profa. Maria Lúcia Os escândalos em que se envolveram altos dirigentes petistas tornaram muito difícil uma atuação marcante do partido na vida nacional, pelo menos a médio prazo. Desde as últimas eleições municipais já se verificava o enfraquecimento da sigla. A reeleição da prefeita de São Paulo era dada como certa, e Marta perdeu. Perdeu o PT seu “feudo” de 16 anos em Porto Alegre. Na maioria dos Estados o Partido dos Trabalhadores foi superado por outras siglas. O número de 800 prefeituras a serem ganhas, conforme intentou o então presidente nacional do PT, José Genoino, não se concretizou nem em termos da metade desse número. Certamente a tendência é piorar a performance eleitoral dos petistas em 2006, em que pese o esforço prometido pelo deputado cassado José Dirceu e por outros altos dirigentes petistas, no sentido de resgatar a credibilidade profundamente abalada do PT.

CatolicismoCertos órgãos de imprensa afirmaram que o Governo Federal havia perdido o rumo. Qual sua opinião a respeito?

Profa. Maria LúciaO PT, ao chegar finalmente ao poder no plano federal na quarta tentativa, nunca teve rumo, ou seja, nunca teve um projeto de governo. Além do mais, abandonada a retórica esquerdista (pelo menos no tocante à macro-economia) e tendo-se tornado situação, o PT insistiu em fazer apenas o que sabia: oposição. Para camuflar sua incompetência administrativa, os novos donos do poder passaram a pôr a culpa de seus pesados erros na “herança maldita” (que o ministério da Fazenda copiou do governo FHC, de forma mais ortodoxa), em Pedro Álvares Cabral..., em Bush..., num nebuloso neoliberalismo que ninguém sabe o que é. Esse eterno comportamento oposicionista tem sido estratégia de defesa, para isentar o presidente e o governo de qualquer responsabilidade sobre o “espetáculo” da corrupção. E tal comportamento funcionou até começar a esbarrar na realidade, quer dizer, na percepção um tanto tardia de muitos brasileiros, antes anestesiados pela propaganda. Sem projeto de governo, assolado pela crise moral produzida pelo próprio partido e por membros do mais alto escalão governamental, o PT no poder se mostrou sem rumo, tendo como objetivo apenas manter-se no poder, o que tentará a qualquer custo através de seu único candidato Lula.

CatolicismoOutro tema que alcançou muito realce em 2005 foi o referendo sobre a proibição do comércio de armas e munição no País. Quais os fatores que, em sua opinião, causaram a esmagadora vitória do NÃO e a fragorosa derrota da proposta defendida pelo governo?

Profa. Maria LúciaA vitória do NÃO foi a demonstração cabal da insatisfação popular com o governo petista. Nesse referendo os eleitores não se deixaram enganar, mesmo porque o Estado tem falhado estrondosamente naquilo que deveria ser uma de suas prioridades: a segurança dos cidadãos. Alguns analistas tentam explicar o fenômeno de várias maneiras, entre elas a propaganda não bem feita ou pouco clara do referendo. Acredito, porém, que aquele NÃO significou um estrondoso NÃO ao governo Lula, dado conscientemente pelos brasileiros.

Catolicismo Fala-se que há uma crise no agronegócio. Quais as conseqüências que tal crise poderia causar na economia e na política do Brasil?

Profa. Maria LúciaEm que pese o tom eufórico do presidente da República quando se refere à economia, ou melhor, à macro-economia, fomos um dos países emergentes que menos cresceu, apesar da calmaria internacional que favoreceu o crescimento mundial. Nesse ano ficamos, com nossos pífios 2,5%, apenas à frente do miserável Haiti, que cresceu 1,5%. A produtividade está crescendo devagar, e o agronegócio, maior sustentáculo de nossa balança comercial, sofreu abalos no ano passado por questões climáticas e também com o problema da febre aftosa, ainda mal explicado no Paraná. Existem ainda as invasões do MST, que devem ser analisadas como focos de desestabilização do agronegócio. Esses fatores, sem dúvida, vão repercutir neste ano, apesar de o presidente ter assegurado um “espetáculo de crescimento” de 5%, o que será difícil. Como a economia e a política são áreas interligadas, o fracasso econômico sempre conduz ao fracasso político.

CatolicismoQuais seriam, em seu parecer, as perspectivas gerais para nosso País neste ano que se inicia?

Profa. Maria LúciaÉ temerário fazer previsões em política, mas com base nos dados e fatos atuais penso que, do ponto de vista econômico, continuaremos a crescer aquém de outros países, inclusive da América Latina. Na política interna teremos uma eleição violenta. Na política externa, se continuarmos como estamos, não iremos liderar, mas estaremos a reboque de Hugo Chávez, Néstor Kirchner e outros caudilhos de esquerda que estão reinstalando na América do Sul um novo ciclo do atraso. Com isso perderemos a oportunidade de nos tornarmos um grande país e continuaremos sendo apenas um país grande. Resta ao próprio povo brasileiro, através de sua escolha nas urnas, permanecer na contra-mão da História ou progredir.

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