Novembro de 2005
Como devo proceder para jejuar, fazer penitência e mortificação com a finalidade de agradar a Deus, de louvá-Lo e de obter misericórdia na hora da morte
A Palavra do Sacerdote

Cônego José Luiz Villac
Pergunta Eu gostaria de saber, na minha ignorância de principiante no catolicismo, como devo proceder para jejuar, fazer penitência e mortificação com a finalidade de agradar a Deus, de louvá-Lo e de obter misericórdia na hora da morte. Eu me confesso freqüentemente, recebo a Eucaristia todo domingo e tenho procurado fazer alguns sacrifícios para agradar a Deus, para ajudar a salvar almas do inferno, para ser abençoada e viver na vida eterna. Acho extremamente maravilhoso viver nesta Terra podendo dedicar a vida a Deus. Obs.: estou longe de ser santa, muito longe... Por favor, reze por mim para que eu consiga viver minha vida inteira do lado de Deus. Obrigada pela atenção.

 

Resposta É grato e reconfortante para um sacerdote receber a presente carta, de uma alma que respira uma atmosfera primaveril de vida espiritual. De modo que a resposta poderia ser a simples frase: tenha ardentíssima devoção a Nossa Senhora e continue assim para alcançar a santidade e a vida eterna!

Porém, um sacerdote com alguma experiência na guia das almas sabe que o longo percurso que vai do início de nossa vida espiritual até o momento extremo da entrega da alma a Deus, no terrível transe da morte, está muito longe de ser tão simples assim. Aliás, nem é preciso ser sacerdote para saber disto, pois qualquer alma, por pouco que caminhe na vida espiritual, dá-se logo conta de que nossa trajetória nesta vida está cheia de percalços de toda ordem. Cabe então, em primeiro lugar, mostrar a beleza da atmosfera primaveril, e em seguida prevenir a alma sobre os obstáculos que, mais cedo ou mais tarde, se levantarão diante dela.

Deus e a salvação eterna, o centro de tudo

Pelo batismo fomos incorporados à Igreja militante, e pelo sacramento do Crisma fomos ungidos e armados cavaleiros para combater o inferno, o mundo e a natureza corrompida
A missivista considera extremamente maravilhoso viver nesta Terra podendo dedicar a vida a Deus” e manifesta seu desejo de viver sua vida inteira “do lado de Deus”. Ela escolheu o lado certo, o lado de Deus, em face de tantos outros –– a imensa maioria, neste mundo em que vivemos –– que assumiram posição contra Deus e a Santa Igreja.

É, portanto, do lado de Deus que devemos estar. E isto implica, desde logo, uma devoção entranhada a Nossa Senhora, que nos conduzirá seguramente a Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Implica também um embate com aqueles que se colocaram contra Deus, pois estes logo começam a não gostar de nossa posição religiosa, censurando as nossas devoções, os princípios da moral católica que praticamos, as vestes modestas que usamos, a nossa repulsa à imoralidade reinante em quase todos os ambientes, a nossa recusa em folhear as revistas imorais que penetram mesmo em casas de famílias que se dizem católicas, e também a nossa recusa em assistir os programas imorais de TV, Internet, etc.

Nestas condições, se estes embates não começaram para a feliz missivista, aproveite ela essa trégua que Deus permite em seu entorno, para consolidar a convicção de que é do lado de Deus que devemos estar em todos os dias de nossa vida, e assim alcançar a bem-aventurança eterna no Céu, para a qual nascemos, e evitar o inferno.

E aqui vai um primeiro conselho à missivista: sempre que estiver diante de pessoas aparentemente corretas, mas nas quais logo se percebe que, no seu horizonte mental, não ocupa o primeiríssimo lugar essa necessidade suprema de agradar a Deus e louvá-Lo, alcançar o Céu e evitar o fogo do inferno, tome cuidado, porque quando menos esperar, essas pessoas estarão tomando posições e dando conselhos que, na melhor das hipóteses, fazem caso omisso de Deus. É o "ateísmo prático". Ora, nem sempre o demônio nos arrasta diretamente para o pecado, mas muitas vezes apenas para uma posição não pecaminosa, porém da qual Deus está ausente. Quando uma pessoa se acostumou a prescindir de Deus, pouco falta para o demônio arrastá-la para o pecado direto e formal. De modo que o simples “esquecimento” de Deus já é uma infidelidade a Deus, uma falta moral, rampa para o pecado venial e depois para o pecado mortal.

Doenças e contratempos, insultos e vexames

Mas a vida nesta Terra não se situa apenas nesse patamar elevado dos princípios e lutas espirituais, que devemos enfrentar galhardamente. Pelo batismo fomos incorporados à Igreja –– militante –– e pelo sacramento do Crisma fomos ungidos e armados cavaleiros, para combater o inferno, o mundo e a natureza corrompida. Nesta vida, o homem está continuamente sujeito a sofrimentos e doenças no corpo, aborrecimentos e contratempos de toda ordem em sua vida material e social. As almas são muito diversas umas das outras, e mesmo entre pessoas virtuosas surgem divergências que nos fazem sofrer. Além disso, em conseqüência do pecado original, os nossos defeitos pessoais e os dos outros entram em choque, e causam desavenças que não raro dão origem a insultos e vexames, para não falarmos de desfechos mais graves, como crimes e tumultos. Os jornais estão cheios de acontecimentos trágicos de toda ordem, dos quais podemos ser vítimas quando menos o esperamos. Como fica, no meio disso tudo, a alma que, em sua generosidade inicial, não pensava senão em agradar a Deus e servi-Lo de todo o coração?

Como a agulha magnética está continuamente voltada para o norte magnético do planeta, assim também, quando abalados pelos percalços da vida, devemos nos esforçar por reconduzir a orientação de todas as nossas ações para o nosso pólo espiritual, que, como diz a própria missivista, é sempre Deus! E assim, qualquer que seja a doença ou contratempo, insulto ou vexame por que passemos, devemos dizer como sugere a Imitação de Cristo: “Sit nomen tuum, Domine, benedictum in saecula, quia voluisti hanc tentationem et tribulationem venire super me”, ou seja: “O teu nome, Senhor, seja bendito por todos os séculos, porque quiseste que esta tentação e tribulação se abatesse sobre mim” (Livro III, 29, 1). Este ato de conformidade com a vontade divina, nas circunstâncias mais adversas, reconduz a alma para o seu pólo supremo, que é e não pode ser outro senão Deus. A bondade e a proteção da Virgem Santíssima são-nos indispensáveis nessas horas.

Para que a alma não se abale jamais com as adversidades da vida, convém ter em vista, e quiçá repetir muitas vezes, as conhecidas aspirações de Santa Teresa de Jesus:

Nada te perturbe,

Nada te espante,

Tudo passa,

Só Deus não muda.

A paciência tudo alcança.

Quem tem a Deus,

Nada lhe falta,

Só Deus basta.

É mais um conselho, perfeitamente conforme aos melhores autores espirituais, para que a agulha magnética de nossa vida espiritual se volte continuamente para o seu pólo único e insubstituível que é Deus.

Apelo especial à santidade

Os autores espirituais mostram que o apelo de Deus à santidade é universal, isto é, dirigido a todos os homens. Porém, algumas almas são favorecidas por Deus com graças particulares que constituem um apelo especial a praticar a máxima evangélica: “Sede perfeitos, como vosso Pai celestial é perfeito” (Mt 8, 48).

A missivista pede que se reze por ela para alcançar essa santidade, da qual ela se sente ainda muito longe. Fá-lo-ei com gosto, pedindo também que ela faça o mesmo por mim e por todas as almas necessitadas de um conselho e de uma orientação.

E naturalmente pedirei por intermédio de Maria Santíssima, Medianeira de todas as graças, a Qual está sumamente voltada a nos unir, o máximo possível, a seu divino Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo.