Novembro de 2005
Aborto, jamais. Nenhuma circunstância o justifica
Entrevista

 

Aborto, jamais.
Nenhuma circunstância o justifica

 

Ainda que se alegue um fim bom –– por exemplo, a saúde da mãe ––, para alcançá-lo não se justifica o emprego de um meio mau; e nenhuma lei poderá tornar lícito um ato intrinsecamente ilícito, porque contrário à Lei de Deus.

Pe. Luiz Carlos Lodi, presidente da associação Pró-Vida de Anápolis (GO)
Conhecido por sua dedicação na luta contra o aborto, o atual presidente da associação Pró-Vida de Anápolis (GO) desde 1997, Padre Luiz Carlos Lodi da Cruz, é engenheiro eletrônico pela UFRJ em 1985, bacharel em Teologia pelo Institutum Sapientiae (Anápolis) em 1992, tendo sido ordenado sacerdote em 31 de maio de 1992, em Anápolis. É professor de Bioética na Faculdade de Filosofia São Miguel Arcanjo – Anápolis (FAFISMA) e acadêmico do 4° ano de Direito da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Atualmente o Pe. Lodi está no centro de uma polêmica, simplesmente por ter utilizado o adjetivo “abortista” para qualificar uma pessoa que defende o aborto. Por isso, foi condenado a pagar uma multa e proibido de adjetivar de “abortista” a qualquer um favorável ao aborto. A sentença condenatória, sem qualquer sustentação lógica e jurídica, consiste numa arbitrária perseguição aos católicos que defendem a vida, e visa silenciar aqueles que atuam para evitar a “matança de inocentes”.

Devido às perseguições que o Pe. Lodi vem sofrendo — a ele poderíamos aplicar as palavras de Nosso Senhor: “Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor à justiça” (Mt 5, 10)—, o correspondente de Catolicismo em Brasília, jornalista Nelson Ramos Barretto, esteve em Anápolis a fim de entrevistar esse valoroso sacerdote. Sobre tal polêmica e temas relacionados à questão do aborto, o Pe. Lodi esclarece pontos muito importantes.

* * *

Catolicismo — O caráter persecutório contra a Igreja Católica parece evidenciado na sentença condenando o Sr. e seu movimento Pró-Vida por ter simplesmente empregado a palavra “abortista” — referindo-se a alguém que defende o aborto. Como está esse processo? O Sr. recorreu da sentença que, além de ilógica, é absurda?

Pe. Lodi — No dia 16 de agosto de 2005, a 1ª Turma Recursal dos Juizados Cíveis do Distrito Federal, composta de três juízes, confirmou por unanimidade uma sentença de primeiro grau, em que o Pró-Vida de Anápolis foi condenado a pagar R$ 4.250,00 (quatro mil, duzentos e cinqüenta reais) a uma defensora do aborto, além de ser obrigado a retirar do site www.providaanapolis.org.br uma foto (e sua respectiva legenda) em que ela aparecia em um debate público comigo e com outras pessoas. O motivo do alegado “dano moral” sofrido por aquela senhora foi o uso da expressão “antropóloga abortista”, que figura na legenda da fotografia. Até a presente data (5-10-05), ainda não foi publicado o acórdão. Depois da publicação, poderemos interpor um recurso extraordinário junto ao Supremo Tribunal Federal.

 

Catolicismo — Se não se pode mais usar a palavra “abortista”, que palavra empregar? Se, por exemplo, posso usar a palavra divorcista para quem defende o divórcio; ecologista para quem defende a ecologia, etc., que termo usar para quem defende o aborto?!

Pe. Lodi — Essa é uma pergunta até agora não respondida pelos juízes que nos condenaram. Trata-se de uma simples e arbitrária proibição do uso de uma palavra da língua portuguesa, sem que haja outra, com igual sentido, que a possa substituir.

 

CatolicismoComo a Igreja reputa o aborto?

Pe. Lodi — Respondo com as palavras do saudoso Papa João Paulo II: “O aborto direto, isto é, querido como fim ou como meio, constitui sempre uma desordem moral grave, enquanto morte deliberada de um ser humano inocente” (Encíclica Evangelium Vitae, nº 62).

Em 1997, no Rio de Janeiro, durante o II Encontro Mundial com as Famílias, o Santo Padre qualificou o aborto de “crime abominável” e de “vergonha para a humanidade”.

De fato, ele difere dos outros tipos de homicídio pelas seguintes notas:

a) a vítima é totalmente inocente;

b) a vítima é totalmente indefesa;

c) quem pratica o homicídio é a mãe ou o pai da vítima, que mais deveriam amá-la; ou um médico, que fez o juramento de Hipócrates de sempre defender a vida;

d) a vítima morre sem poder ser batizada;

e) os meios utilizados para matá-la são horrendos: aspiração em pedaços (sucção), esquartejamento (curetagem), envenenamento em solução salina (que queima toda a pele do bebê), expulsão precoce do útero (a criança respira, chora, e é deixada para morrer à míngua);

f) a vítima não tem honras fúnebres. Seu cadáver é misturado aos detritos hospitalares (ou então utilizado para alimentar indústrias de cosméticos, que se aproveitam da gordura fetal).

Com razão dizia meu Bispo Emérito Dom Manoel Pestana Filho, fundador do Pró-Vida de Anápolis: “Uma nação que legaliza o aborto não merece subsistir”.

 

CatolicismoOs que defendem o aborto querem a morte dos inocentes dizendo que ela é justificável quando há risco de vida para a mãe, ou em caso de gravidez resultante de estupro. O que o Sr. acha dessa alegação?

Site da associação Pró-Vida de Anápolis
Pe. Lodi — Não se pode matar diretamente um inocente, nem sequer para salvar outro inocente. Não podemos matar a criança para salvar a vida da mãe, assim como não podemos matar a mãe para salvar a vida da criança. Vale lembrar o ensinamento perene do Papa Paulo VI, relativo à anticoncepção, mas que é perfeitamente aplicável ao aborto: “Nunca é lícito, nem sequer por razões gravíssimas, fazer o mal [por exemplo, matar a criança], para que daí provenha o bem [a saúde da mãe]” (Encíclica Humanae Vitae, nº 14). Em outras palavras, um fim bom, por mais sublime que seja, não justifica um meio mau.

Pergunta-se, porém: ocorre alguma situação em que a morte do bebê causaria a salvação da vida da gestante? Já em 1965 o médico legista Dr. Costa Júnior, professor catedrático da USP, respondia negativamente. Dizia ele ironicamente que o aborto praticado a pretexto de salvar a vida da gestante, ao invés de se chamar de “aborto necessário” ou “aborto terapêutico”, deveria ser chamado “aborto desnecessário” ou “aborto antiterapêutico” (Por quê, ainda, o aborto terapêutico? Revista da Faculdade de Direito da USP, São Paulo, volume IX, p. 312-330, 1965). Em 1996, a Academia de Medicina do Paraguai dizia textualmente: “En casos extremos, el aborto es un agravante y no una solución al problema” (Declaración aprobada por el Plenario Académico Extraordinario en su sesión de 4 de Julio de 1996). A conclusão semelhante chegaram médicos brasileiros de várias especialidades, autores do livro Aborto: o direito à vida (ALVES, João Evangelista dos Santos; BRANDÃO, Dernival da Silva. Rio de Janeiro: Agir, 1982), obra esta laureada pela Academia Nacional de Medicina.

Mas... e se tal caso existisse? Nada poderíamos fazer. Entre dois males morais, temos o dever de rejeitar os dois. Narra o historiador Flávio Josefo que, durante o cerco de Jerusalém pelos romanos, no ano 70 d.C., uma mulher, oprimida pela fome, matou seu próprio bebê e devorou-lhe a carne. Tinha ela o direito de fazer isso, para salvar a própria vida? Não. Nem sequer a necessidade autoriza-nos à prática de um homicídio direto.

Se a gravidez resulta de um estupro, o aborto é igualmente imoral. O estupro é, no caso, uma circunstância acidental que não muda a moralidade do ato. Do mesmo modo não se pode matar uma criança nascida de um adultério ou de um ato de prostituição. Vale lembrar novamente as palavras do Papa João Paulo II: “Nenhuma circunstância, nenhum fim, nenhuma lei no mundo poderá jamais tornar lícito um ato que é intrinsecamente ilícito, porque contrário à Lei de Deus, inscrita no coração de cada homem, reconhecível pela razão, e proclamada pela Igreja” (Encíclica Evangelium Vitae, nº 62). Aliás, que culpa tem a criança para merecer a morte? Transferir a pena do autor do estupro para a criança inocente é uma injustiça monstruosa. Mais monstruosa que o próprio estupro! Alguém mataria uma criança de três anos concebida em um estupro? Se não podemos matá-la após o nascimento, por que então será lícito matá-la no útero materno? Se admitirmos o aborto em caso de estupro, deveremos logicamente autorizar o assassinato de todos os adultos nascidos de um estupro (e eu conheço muitos deles). A repugnância contra o crime nunca pode converter-se em repugnância contra um inocente concebido neste crime. A vida é sempre um dom de Deus, ainda que gerada em circunstâncias pecaminosas.

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