Novembro de 2005
Nossa Senhora da Boa Libertação
Página Mariana

 

Nossa Senhora da Boa Libertação

Nas provações as mais terríveis, sempre há um refúgio seguro: a Virgem Maria. Basta que a Ela recorramos. É o que nos ensina a história da devoção à “Virgem Negra de Paris”.

Valdis Grinsteins

Poucas palavras francesas são mais delicadas para traduzir do que délivrance. Quer dizer entrega, libertação; ou, em termos médicos, parto, nascimento. Libertação não tem aqui o sentido profundamente anticatólico caro aos progressistas da Teologia da Libertação, ou seja, luta de classes e ódio entre irmãos por motivos econômicos. Trata-se de ser liberado de uma provação, de uma carga. Neste sentido, é também uma entrega: entregamos um problema e nos libertamos dele.

Nunca foi tão bem utilizado este vocábulo como no caso de São Francisco de Sales. Como bispo de Genebra, ele estava destinado pela Providência Divina a lutar contra os erros do calvinismo, que apresentava um Deus rígido, caprichoso, sem misericórdia, que condena ao inferno quase sem motivo. Segundo o herege Calvino, Deus dividiu os homens em uma ínfima minoria de eleitos, predestinados ao Céu, e os predestinados ao inferno, a grandíssima maioria da humanidade. Em resumo, um Deus injusto, amargo e nada paterno.

Uma tentação afastada

Justamente a São Francisco de Sales, chamado a lutar contra esses erros, veio a tentação de que ele estava predestinado ao inferno. Portanto, de nada adiantaria o que ele fizesse, seu destino tinha sido determinado independente das suas boas ou más obras. Terrível provação! Ele era então jovem e estudava num colégio em Paris. Perto havia um convento, no qual se encontrava uma imagem de Nossa Senhora em tamanho natural, de cor preta, chamada da Boa libertação (Bonne Délivrance, em francês). Aos pés dessa imagem ele costumava rezar com muito fervor: “Se devo ir ao inferno, que ao menos nesta vida eu ame a Deus de todo meu coração. Se eu devo ir ao inferno, que ao menos eu não blasfeme lá”. Uma oração, como se vê, de um autêntico filho da luz, pois não se revolta e procura sempre a maior glória de Deus.

Capela de São Tomás de Villanova, em Paris, onde se encontra a venerada imagem
Durava já algum tempo essa angustiante prova, e São Francisco voltou mais uma vez a rezar diante dessa imagem. Renovou o voto de castidade que ali tinha feito antes, e prometeu que, se fosse libertado de suas angústias, rezaria todos os dias o Rosário. Por fim, ao rezar a conhecida oração “Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria...”, a provação terminou. Nas suas próprias palavras, sentiu “uma crosta de lepra que se desprendia de mim”. Tinha sido libertado da provação.

Diversas provações

A história da imagem de Nossa Senhora da Bonne Délivrance começa nos séculos XIII-XIV. Para quem a vê pela primeira vez, parece de madeira preta, mas está talhada num bloco de pedra escuro de um metro e meio de altura. Originariamente a imagem estava numa capela lateral da igreja de Santo Estêvão des Grés, em Paris, bem próxima da famosa universidade da Sorbonne. Como na universidade ensinavam os padres dominicanos, não surpreende que entre os seus devotos estivessem os primeiros santos dessa Ordem, como São Domingos, Santo Tomás de Aquino, Santo Alberto Magno e o Bem-aventurado Jordão de Saxe.

No século XVI contagiou Paris o protestantismo, com todas as suas pragas. Para combatê-lo, foi organizada uma confraria em honra de Nossa Senhora da Bonne Délivrance. Era bem preciso libertar-se dessa doutrina, que custou à França três guerras civis com milhares de mortos. Em 1533, a confraria foi organizada pelo Pe. Jean Olivier. Chegou a ter 12.000 membros, entre eles vários reis, como Luís XIII e Luís XIV.

Toda obra boa tem inimigos, pois o demônio não tira férias. Ela foi atacada, e em meados do século XVIII fechada sob a alegação de “problemas legais”, que de fato escondiam o ódio anti-religioso. Esse ódio se manifestou pouco depois, com a Revolução Francesa: sacerdotes assassinados, conventos destruídos, perseguição geral contra os católicos. Entre outras medidas, todos os bens da Igreja foram postos à venda. Como injúria suprema, os revolucionários colocaram em leilão também a imagem da Bonne Délivrance. Mas uma senhora piedosa, Madame de Carignan, decidiu não tolerar isso. Arriscando a própria vida para evitar a profanação de uma venda pública, antecipou-se e foi ao vendedor, comprando-a por um alto preço. Guardou a imagem na sua casa, à espera de melhores dias.

Mas Deus, que escreve certo por linhas tortas, tinha outros planos. Permitiu que a piedosa senhora fosse encarcerada, por ser nobre e católica. Na prisão se encontravam várias freiras da Ordem Hospitalar de São Tomás de Villanova, iniciando-se uma amizade entre elas e a dama, que lhes contou a história da imagem e seus milagres. Decidiram pedir juntas a libertação da prisão, e foram ouvidas muito mais rápido do que pensavam. Mas os revolucionários colocaram em venda pública a casa das freiras, deixando-as na rua. Num gesto admirável, Madame de Carignan fez a promessa de ceder a imagem às religiosas, se esse perigo fosse afastado. As freiras começaram uma novena, e Madame de Carignan arriscou a vida outra vez. Dirigiu-se aos revolucionários do distrito, onde defendeu as freiras e seu trabalho desinteressado em favor dos doentes. Os cartazes de venda já tinham sido colados na parede do prédio, mas no dia do leilão foram arrancados, e ninguém apareceu para comprá-lo.

Santos devotos da imagem

A imagem está ainda hoje na capela das freiras de São Tomás de Villanova. Por ali passaram vários santos que a veneraram. Um deles é o conhecidíssimo São João Bosco, que na sua viagem a Paris, em 1883, celebrou missa diante dela. A capela estava repleta, tendo muitas pessoas assistido à missa do pátio, chegando até a rua. Outra alma devota era Santa Sofia Barat, que rezou muito diante da imagem durante a elaboração das constituições da Ordem que fundou.

Santa Sofia Barat, grande devota de Nossa Senhora da Boa Libertação
Não pensemos, no entanto, que Nossa Senhora atende sobretudo os santos. Ela atende especialmente aqueles que, em perigo de pecar ou de desesperar, pedem seu socorro. Foi o caso do sacerdote Claude Bernard, no século XVIII, que levava uma vida mundana e pouco santa. Durante uma peste num bairro de Paris, uma senhora amiga o avisou de que, por medo do contágio, iria passar uns dias na sua casa. Embora estivesse certo de que cairia na tentação que tal presença representava, não teve forças para recusar o pedido. Vendo o abismo de que se aproximava, correu para o local onde estava a imagem, pedindo ajuda. Após rezar, inteirou-se de que a senhora amiga tinha mudado de idéia. Isto bastou-lhe para sentir quanto Nossa Senhora cuidava dele, o que o levou a mudar de vida completamente. Tornou-se depois um virtuoso e exemplar sacerdote, chegando a ser chamado de pai dos pobres de Paris.

Estes exemplos nos mostram como podemos pedir a Nossa Senhora que nos livre de nossas misérias, sendo Ela a mãe que ou tira os problemas e afasta as tentações dos seus filhos, ou lhe dá forças para vencê-las.