Novembro de 2005
A imortalidade da Igreja
Discernindo, comentando, agindo

 

A imortalidade da Igreja

“A Igreja é bastante forte para nunca silenciar perante o erro, ainda mesmo quando, humanamente, ela se apresenta mais destituída de vigor. Sua força é Nosso Senhor Jesus Cristo”

  • Cid Alencastro

A 3 de outubro último transcorreu o décimo aniversário do falecimento de Plinio Corrêa de Oliveira. Providencialmente chegou-me às mãos um pequeno texto por ele escrito e publicado também em 3 de outubro, mas de 1937. Portanto, há 68 anos, quando o autor tinha apenas 28 anos de idade.

Impressiona o fato de que, nessa jovem idade, sua convicção sobre a força da Igreja no mundo moderno já estava formada. Instituição divina, fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, capaz de vencer quaisquer adversários que se lhe opuserem, por mais frágil que ela humanamente estiver — eis seu pensamento cheio de admirável fé. Corroborada, aliás, por dois milênios de vida da Igreja, em que esta enfrentou terríveis batalhas, em condições freqüentemente desfavoráveis, e saiu-se vitoriosa.

O texto de 1937

Mas vamos ao texto. Para compreendê-lo convém ter em vista as circunstâncias em que foi redigido. Estávamos a apenas dois anos da eclosão da segunda guerra mundial, quando já fermentavam os fatores que viriam a produzi-la. Na Itália, o fascismo pressionava o Papa: “Mussolini queria fechá-la [a Ação Católica], Pio XI não queria consentir. [...] Parecia certo aos espíritos prudentes, amantes da Itália católica e tradicional, que a Igreja deveria, a todo o custo, evitar a luta com o fascismo. Para eles, a Igreja era fraca demais para agir com independência”. Pio XI, porém, “atacou o fascismo muito de frente e muito de rijo”.

Aprovando essa atitude de Pio XI, Plinio Corrêa de Oliveira prossegue: “A Igreja é bastante forte para nunca silenciar perante o erro, ainda mesmo quando, humanamente, ela se apresenta mais destituída de vigor. Sua força não está, essencialmente, no fascismo, no exército ou até na própria Ação Católica. Sua força é Nosso Senhor Jesus Cristo, e só Ele. Ainda mesmo que Pio XI tivesse de enfrentar o fascismo e o comunismo simultaneamente, e ainda que estivesse tão desarmado quanto São Leão perante Átila, ele nada teria a recear” (“Legionário”, 3-10-1937).

Tal posição, ele a reafirmaria muito tempo depois, em 1959, na sua obra-mestra Revolução e Contra-Revolução. Referindo-se às vitoriosas batalhas da Santa Igreja, cita a poética passagem de Cícero (Familiares, 12,25,5): “‘Alios ego vidi ventos; alias prospexi animo procellas’ (Já vi outros ventos e contemplei outras tempestades), poderia ela dizer, ufana e tranqüila, em meio às tormentas por que passa hoje. A Igreja já lutou em outras terras, com adversários oriundos de outras gentes, e por certo enfrentará ainda, até o fim dos tempos, problemas e inimigos bem diversos dos de hoje”.

Para os nossos dias

Tais reflexões são muito importantes hoje em dia, quando a secularização dos costumes e das leis faz a mídia alardear uma diminuição do número de católicos e um enfraquecimento da influência da Igreja na sociedade. A insinuação é de que ela em breve morrerá.

Pior ainda. Muitos dos mais altos dirigentes da Igreja parecem ver no diálogo com o mundo uma tábua de salvação para a instituição divina, em lugar de afirmar os direitos de Jesus Cristo e da Igreja. Timidez ou cumplicidade, não entro no mérito. Mas a atitude é a de quem teme as conseqüências de uma posição firme e desassombrada.

Não se trata, evidentemente, de menosprezar os valores da diplomacia, que a Igreja sempre utilizou com tato requintado. Mas uma diplomacia católica que não tem atrás de si uma fé segura, uma convicção firme, e conforme o caso uma disposição de defendera todo preço princípios doutrinários imprescritíveis,  mais se assemelha à moleza, quando não ao entreguismo. É a lição que nos deixa Plinio Corrêa de Oliveira.