Maio de 2007
Vôo no vazio
Internacional

Vôo no vazio

A julgar pelos chefes de governo dos 27 países membros da União Européia, reunidos em Berlim no 50° aniversário desse organismo, a UE continua a voar, mas em meio a um vazio criado pelos próprios europeus.

Luis Dufaur

Posto de controle abandonado, em Schreckling

Bandeirolas azuis com coroa de estrelas amarelas enfeitavam o centro de Berlim. Perguntei aos passantes o que comemoravam. Alguém que vira na TV referência a um aniversário explicou que a “coisa” começou há 50 anos.

Li nos jornais longas matérias sobre a “coisa”. Tratava-se do 50° aniversário da fundação da União Européia (UE). É difícil encontrar páginas tão insípidas na imprensa, já de si tão decadente.

Teimosamente insisti com meus conhecidos alemães: queria saber o que julgava sobre a “coisa” o homem comum da rua. Afinal, um deles, distinto e inteligente, mencionou o imenso vazio que dominou o evento. As sonoras promessas oficiais de tirar a UE do desinteresse e da entalada, com amplos anúncios de novas iniciativas comunitárias, não eliminaram o vazio dominante. Pelo contrário, acentuaram a sensação de impotência da cúpula comunitária. Meu amigo contou-me ter acompanhado os festejos pela TV. Os filmadores procuraram o público pelas ruas e, afinal, acharam um grupo de turistas japoneses aplaudindo, não se sabe bem o quê. A emissora difundiu essa cena como amostra do “júbilo” popular com o aniversário, mas tomando o cuidado de cortar o som durante a transmissão.

Dicotomia entre o discurso oficial e a Europa profunda


Retornei à França por Schreckling, povoado fronteiriço na região de Moselle. Ali, um abandonado posto de controle, caindo aos pedaços junto à estrada, passa a mensagem da UE: as pátrias, bem delimitadas pelas suas fronteiras apodrecidas, desaparecem (foto abaixo). Em seu lugar, equipes de hiper-burocratas erguem a babel utópica da República Universal, sem fronteiras, visceralmente igualitária.

Do lado alemão, a cruz de ferro da Wehrmacht coroa um memorial de pedra dedicado aos alemães falecidos nas duas últimas guerras mundiais. Do lado francês, um cartaz convida a visitar Moselle, “troféu” nacional. Outra sinalização turística apresenta, colados por cima, cartazes que comemoram a ascensão da extrema-direita, contrária à unificação em curso.

Ambos os lados da fronteira são geográfica e arquitetonicamente parecidos, mas vivem em dois mundos diversos. Inútil tentar falar francês do lado alemão: praticamente ninguém o conhece. E do lado francês, em virtude de longínquas razões históricas, o alemão se impôs na vida quotidiana, rivalizado apenas por um dialeto local de raízes germânicas. Em ambos os lados, vive-se mais em função da história. A quimera da União Européia positivamente não conquistou o fundo das almas.

A inconformidade grassa no velho continente

A imigração desordenada serve de porta de entrada ao Islã extremista e alimenta o terrorismo, a insegurança e a criminalidade

Sem dúvida, os europeus usufruem certos benefícios ganhos no último meio século. Mas a toda hora deploram os frutos amargos da utopia. O euro diminuiu o poder aquisitivo e o emprego; a imigração desordenada serve de porta de entrada ao Islã extremista e alimenta o terrorismo, a insegurança e a criminalidade; os impostos devoradores e os regulamentos invasores; a obscuridade envolve a administração comunitária da UE em Bruxelas.

Numa distinta loja de Paris, a proprietária anciã nem esperou que lhe dissesse ser eu estrangeiro para me recitar o coro universal das queixas e me confiar a sua esperança profunda na extrema-direita! Uma coisa me pareceu certa: pela voz dela exprimiam-se milhares de pequenos comerciantes e proprietários que pendem para uma solução extrema, face ao Leviatã que a UE vem instalando no velho continente.

Desagrado presente na campanha presidencial da França

Nicolas Sarkozy, candidato gaullista, tentou explorar o 50° aniversário em seu favor, com um discurso ambíguo entremeado de restrições ao futuro da UE

Em Paris, aguardavam-me também os jornais empilhados. Em meio aos chavões utopistas do establishment, eles deixavam transparecer o imenso vazio que se tem feito em relação à UE. Exemplo protuberante disso é o tratamento que a UE vem recebendo no decorrer da campanha eleitoral pela presidência da França. Escrevo no período entre o primeiro e o segundo turno das eleições.

A campanha é o momento de os candidatos fazerem bonito papel, e sobretudo ganharem votos. O candidato que saiu à frente no primeiro turno, o gaullista Nicolas Sarkozy (31,11% dos votos), tentou explorar o 50° aniversário em seu favor, com um discurso ambíguo entremeado de restrições ao futuro da UE. Choveram as críticas. A candidata socialista Ségolène Royal (25,83% dos votos no primeiro turno) e seu partido, o Partido Socialista, que já fora porta-estandarte da unificação européia, ignoraram acintosamente a data. Na realidade o PS está tão rachado sobre o assunto, que qualquer pronunciamento — pró, contra, mais ou menos — o teria feito explodir.

Para outro tenor do europeísmo, o candidato democrata-cristão François Bayrou (embora eliminado da disputa no primeiro turno, obteve o terceiro lugar com 18,55%), a UE será relançada “quando os franceses se reconciliem”. Eis o problema insolúvel desde o nefasto 1789 — ano I da Revolução Francesa! Se essa é a condição prévia para resolver os problemas da UE, o organismo está perdido. A candidata comunista Marie-George Buffet (apenas 1,94%, o que mostra um fracasso total do comunismo na França) teve pelo menos o mérito da clareza: postula que a França se retire de vez do Tratado de Roma!

Por fim, a extrema direita de Jean-Marie Le Pen (quarto colocado, com 10,51%) e Philippe de Villiers (2,24%) fustigou “os europeístas reunidos em Berlim, que tentam construir a Europa contra a vontade dos povos”. Isto não é de pouca monta: o tronitruar da extrema-direita do dia de ontem foi assumido pelos grandes partidos e está entre as questões centrais que alimentam o fogo da disputa política e social da França.

Apenas uma curiosidade colateral ao tema. O candidato José Bové, o mesmo que andou aqui pelo Brasil de mãos dadas com o MST, invadindo propriedades, obteve apenas 1,32% dos votos. A exemplo do MST, seus aliados não são bem servidos em matéria de apoio popular!

A confiança na União Européia se deteriora

Também no programa de radionavegação por satélite GALILEO, que procura rivalizar com o GPS americano, há profundas desavenças entre os vários países europeus

Na festa, a chanceler alemã e também presidente rotativa da UE, Angela Merkel, destacou-se com uma reflexão de dona de casa: “Construir a confiança leva tempo, destruí-la leva um instante”. Ela omitiu o fato de que esse instante fatal já ocorreu quando os povos francês e holandês disseram “NÃO”, em referendo sobre a Constituição Européia.

O primeiro-ministro francês Dominique de Villepin verberou o “patriotismo econômico”, que põe em xeque os projetos comuns na área. De fato, ele pensava na empresa Airbus, que passa por um dédalo de lutas intestinas, demissões em massa e greves, por desavenças insanáveis entre as equipes francesa e alemã que trabalham dentro dela.

O “Le Monde”, no 50° aniversário, preferiu destacar a ameaça de naufrágio que pesa sobre um dos emblemas técnico-econômicos da UE: o programa de radionavegação por satélite GALILEO, que procura rivalizar com o GPS americano. As discórdias entre empresas e governos por razões industriais, financeiras e políticas estragaram a Parceria Público-Privada que está no coração do projeto.

Um avião em que pilotos e passageiros não se entendem

A empresa Airbus, passa por um dédalo de lutas intestinas, demissões em massa e greves, reflexo da crise européia

Os satélites tecnicamente vão bem, a briga é na torre de comando. O mesmo acontece no cockpit da Airbus. Mas a imensa máquina da UE continua a voar, a julgar pelos propósitos dos chefes de governo dos 27 países-membros na festa do 50° aniversário da UE, celebrada em Berlim. Continua a voar sim, mas a anos-luz do que sente, pensa e deseja a parte mais autêntica e decisiva dos europeus.

A UE assemelha-se a um avião que chacoalha as asas, e não se sabe se é por contentamento ou devido às disputas entre pilotos e passageiros. Embaixo, alguns até torcem secretamente para que ele caia logo: outros, para que caia aos poucos. Mas em camadas insondáveis reina o maior desinteresse pelo drama. Como conseqüência, o vazio reina.

Até quando o avião conseguirá se manter nessa inquietante e ameaçadora ausência de substrato para prosseguir voando?