Maio de 2007
Tatuagens: Qual a posição da Santa Igreja sobre isso?
A Palavra do Sacerdote

Cônego José Luiz Villac

Pergunta — Sou agrônomo e catequista, e recentemente tive o dissabor de ver em uma pessoa próxima à minha família duas grandes tatuagens, como se marca gado. A primeira, de uma ave nativa do cerrado; e outra, pior, de uma mandala. Esta era uma figura de um círculo representando uma das dezenas de mandalas, cujo significado a imprudente jovem sequer conhecia. Quando soube, já estava feito. Desde já, quero me prevenir de tal improbidade com relação a meus filhos. Portanto, pergunto: 1. Qual a posição da Santa Igreja sobre esse tipo de atitude? 2. Qual a conseqüência de se ter marcas no corpo, especificamente este tipo de representação budista?

Resposta — O missivista, procedendo de modo muito lógico, desdobra sua pergunta em dois pontos, mas na realidade toca de passagem em várias outras questões de muita importância e atualidade, que procuraremos abordar em nossa resposta.

Tatuagens: retrocesso da civilização


Quando, nos bancos escolares, estudamos a situação de nossos índios no estágio primitivo de sua barbárie, concluíamos com razão que os missionários católicos, que aqui vieram catequizá-los chamando-os para o dom supremo da fé, prestavam ao mesmo tempo o inestimável serviço de civilizá-los.

Hoje, as escolas influenciadas por certa ideologia “progressista” vêem nos índios um padrão de civilização “ecologicamente correto”, que devemos manter e até imitar. Assim, em vez de civilizar os índios, segundo tal ideologia devemos preservar sua “cultura” — seus costumes, suas tradições, sua religião, sua “sabedoria” milenar, sua pajelança, etc. — e, de forma alguma, incutir-lhes os princípios e costumes da nossa civilização de tipo europeu. Sobretudo não devemos evangelizá-los, nem atraí-los à fé e à pertencença à Santa Igreja.

Assim, em vez de civilizarmos os índios, eles é que devem “civilizar-nos”!

O leitor encontrará uma substanciosa descrição desse estranhíssimo fenômeno cultural no livro Tribalismo indígena, ideal comuno-missionário para o Brasil no século XXI, de autoria do consagrado líder católico brasileiro Prof. Plinio Corrêa de Oliveira (Editora Vera Cruz, São Paulo, 1977 — ou no site www.pliniocorreadeoliveira.info/livros.asp ).

Não admira, pois, que aquilo que antes víamos como sintoma de barbárie seja hoje considerado sinal de “progresso” por muitos, como as tatuagens de que fala nosso missivista.

Assim, as tatuagens, tão em voga entre os índios, e que tanto horrorizavam as pessoas anos atrás, estão agora em alta, a ponto de o próprio missivista sentir que, se fizesse qualquer observação contra elas, a jovem provavelmente não lhe daria ouvidos. O que não impede, aliás, que a pudesse ter feito, de um modo firme mas cordato, pois pelo menos incutiria nela a noção de que seus modos foram rejeitados. Isto trabalharia no fundo da consciência dela para que, num momento futuro, bafejada pela graça, ela pudesse dar-se conta do ato desordenado que praticou.


O fenômeno se apresenta hoje de modo tão avassalador, no conjunto da sociedade, que o presente deslizar em direção ao estado primitivo indígena parece não ter retorno. Dir-se-ia que, sem uma intervenção extraordinária da Providência — que nunca abandona aqueles que Lhe são fiéis — esta batalha está humanamente perdida de momento, pelos que amam a Civilização Cristã. Entretanto, Nossa Senhora anunciou precisamente em Fátima que, após provações apocalípticas, a Providência cortaria o passo ao desvario do mundo moderno.

Deixando de lado, portanto, os aspectos médicos das tatuagens, que comportam riscos mais ou menos evidentes, mas que escapam à nossa formação e missão sacerdotal, atraímos a atenção do leitor para o aspecto cultural, que está mais no campo de atuação da Igreja. E a constatação é realmente pasmosa: estamos diante de um recuo civilizador simplesmente fenomenal!

Recuo, aliás, que não se dá apenas no tema das tatuagens, mas também no das modas e costumes em geral. E assim assistimos a uma marcha batida em direção ao nudismo — outra característica dos indígenas, outrora objeto de nossa condenação. Dos trajes nas ruas, não há o que comentar, pois estão à vista de todos. Não é, porém, sem estarrecimento que verificamos que, nas homilias das Missas, sacerdotes não ousam dizer nenhuma palavra de advertência para as pessoas que se apresentam desse modo, indigno até para adentrar a Igreja, quanto mais para receber a sagrada Comunhão!

O estranho culto sugerido pelas tatuagens

O missivista se alarmou, com razão, em relação ao fato de que as tatuagens não são anódinas, do ponto de vista ideológico e religioso, mas podem ser interpretadas como culto a divindades pagãs. O que é especialmente grave quando se tem em vista, como diz o livro dos Salmos, que “omnes dii gentium daemonia” (todos os deuses dos gentios são demônios — Ps 95, 5).

Também com razão, o leitor observa que o “significado [da mandala] a imprudente jovem sequer conhecia”. É verdade. Mas, como sempre se entendeu nos meios católicos, se alguém alega não acreditar nos demônios, mas faz uma tatuagem de uma representação deles no seu braço ou nas suas costas, por achar engraçado ou por qualquer outra razão, de alguma forma confere ao demônio algum poder de atuar sobre ele. Como também, a contrario sensu, quem tem o hábito de portar no pescoço uma Medalha Milagrosa atrai a proteção de Nossa Senhora sobre si, ainda que, andando distraidamente, não pense na Mãe de Deus!

Assim, ao mandar tatuar no corpo o desenho de uma mandala — um diagrama composto de círculos e quadrados concêntricos que, no tantrismo, representam o mundo — quem o faz está prestando um ato de vassalagem, mesmo que não o saiba, a essa religião sincrética derivada do hinduísmo, do budismo e outros cultos populares pagãos, caracterizada pela magia e ocultismo, associado à adoração dos ídolos e da prática iogue. Portanto, a tudo quanto um católico não pode de forma alguma se associar.

O missivista faz bem de não querer essa “improbidade” para seus filhos. Que Nossa Senhora o ajude nesse justo desígnio, e para tal é muito recomendável a Medalha Milagrosa, da qual há pouco falamos, que representa Nossa Senhora Imaculada esmagando com seus pés a serpente infernal.