Maio de 2007
Brasil: o que fizeste do teu chamado?
Destaque

Brasil: o que fizeste do teu chamado?

Eis uma pergunta-chave a ser feita, a propósito da próxima viagem de Bento XVI ao nosso País

Bruno de Santa Maria

S.S. o Papa Bento XVI

Quando se usa a palavra vocação, bom número de pessoas pensa imediatamente em vocação religiosa, ou em seminário ou convento. Quem assim age incorre numa grande simplificação. Porque “vocare”, em latim, significa chamar, e o substantivo derivado — vocação — significa chamado. Ora, todos os homens são chamados por Deus para realizar algo na vida: e, a par das vocações religiosas, existem também a vocação militar, a médica, a acadêmica, a de juiz, etc.

Aliás, a maior vocação da História não foi um chamado à reclusão num claustro ou à vida sacerdotal. Foi a Anunciação do anjo a Nossa Senhora, convidando-a a ser mãe, e Mãe de Deus, o que A unia de modo misterioso à Santíssima Trindade e à missão de seu Filho. Porém, o chamado imediato era para ser simplesmente mãe: gerar em seu seio o Salvador, amamentá-Lo, vesti-Lo, protegê-Lo da fúria assassina de um Herodes, dar-Lhe os rudimentos da primeira educação. Ou seja, em grau sublime, a mesma vocação que, em grau comum, tem até a mais humilde das mães.

O mesmo pode dizer-se de São José, que não foi nem sacerdote nem religioso, mas pai adotivo do Menino Jesus e esposo de Maria Santíssima. Ele devia ocupar-se da manutenção da Sagrada Família, com seu ofício de carpinteiro, e exercer junto aos seus a autoridade que todo pai tem em seu lar.

Por isso, a vida da Igreja está cheia de santos e santas que não foram nem sacerdotes nem freiras, mas que se santificaram na vida civil, realizando os mais diversos ofícios. E, como não se pode pensar que atingiram a perfeição fazendo o contrário do que Deus queria deles, é necessário concluir que eles receberam da Divina Providência a vocação específica de se santificarem nos afazeres do mundo.

De fato, nos planos de Deus, como numa magnífica peça de teatro, cada um de nós tem um papel a desempenhar. Uns têm um papel mais central, outros mais apagado. Mas todos temos de contribuir, cada um em seu lugar, para o esplendor dessa imensa peça que é a História da humanidade, o conjunto da qual deve espelhar a grandeza de seu Autor.

O grande teatro da História

Aliás, Deus não é apenas o Autor dessa grande representação da História. Ele é sobretudo o principal Ator. O centro da História foi a Vida, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. O nascimento do Divino Redentor a dividiu, e é por isso que atualmente estamos no ano de 2007 depois de Cristo. Tampouco essa presença de nosso Salvador na História interrompeu-se com sua gloriosa Ascensão aos Céus. Mas continuou através da Igreja Católica — o Corpo Místico do qual Ele é a Cabeça —, que prolonga sua ação salvífica em meio dos homens.

A Igreja Católica é, pois, a principal personagem no atual desenrolar do grande teatro da História, abrindo para os fiéis o caudal imenso das graças sobrenaturais de que Ela é depositária, e que distribui abundantemente através dos sacramentos.

Mas Deus deseja que os benefícios da Redenção não sejam apenas sobrenaturais. Ao santificar os homens com sua graça, a Divina Providência incita-os a desenvolver todas as suas capacidades humanas, intelectuais, morais e artísticas, gerando uma civilização terrena que, por suas obras, cante as grandezas de Deus, do mesmo modo que a natureza manifesta as glórias do Criador.

E cada um de nós tem que contribuir com algo na construção dessa Cidade de Deus descrita por Santo Agostinho, e para a qual deve tender a sociedade dos homens. Nossa vocação individual é precisamente aquela contribuição única que cada um de nós deve dar à vida coletiva, e sem a qual ela não produziria o mesmo efeito de conjunto, como numa peça de teatro na qual faltasse um ator.

Ora, isso que se diz dos indivíduos, diz-se também das nações. Ao lado das vocações individuais — por cujo cumprimento ou não cumprimento cada um de nós será julgado — há os chamados dos povos.

Alguém disse que, quando Deus quer realizar uma grande obra religiosa, suscita um santo e uma ordem religiosa. Mas, quando quer realizar uma grande obra temporal, suscita todo um povo. Para se ter uma noção da veracidade desse comentário, basta pensar no que representaram Grécia e Roma para a civilização ocidental, desde a Antiguidade pagã até hoje; ou então no papel que desempenharam Carlos Magno e o povo franco para a construção da Idade Média; e, mais próximo de nós, no papel de Portugal e Espanha para o descobrimento e a evangelização do Novo Mundo.

Pergunta-se então: como é que um povo discerne qual é esse apelo de Deus para desenvolver uma missão histórica?

Excepcionalmente Deus chama uma pessoa diretamente, de forma audível inequívoca, como fez com Samuel, chamando-o enquanto dormia no Templo em Jerusalém. Ou como fez com São Paulo em sua conversão. O mais das vezes, porém, Ele chama uma pessoa pelas circunstâncias de sua própria vida, à qual soma-se uma discreta voz interior, expressa por anseios inexplícitos de seguir determinada senda. Particularmente na juventude, esses anseios podem chegar a constituir um verdadeiro “sonho”.

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