Maio de 2007
A bênção, a tragédia, a esperança
Esplendores da Cristandade

A bênção, a tragédia, a esperança

W. Gabriel da Silva

Aquarela (1835) de Emeric Essex Vidal – Museu Imperial / IPHAN / Ministério da Cultura

Os pintores de talento exprimem realidades que vão além do retrato puro e simples. É o caso das paisagens do Rio de Janeiro do tempo de Dom Pedro II, que ilustram este artigo.

Na primeira destaca-se a linda igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, então junto ao mar (o aterro do Flamengo é muito posterior). As pequenas embarcações, elegantes e evocativas da movediça faina dos pescadores, realçam a serena estabilidade das linhas elegantes da igrejinha e do sobrado à esquerda.

Parece ouvir-se o sussurro das águas a brincar com as pedras e com as brancas areias da orla coroada de exuberante vegetação tropical. A suavidade das cores da aquarela acentuam ainda mais a doçura da paisagem, onde a unção espiritual parece pôr em ordem a vida civil e a própria natureza.

O segundo quadro é uma vista do saco da Gamboa, onde se notam variantes dos mesmos elementos: os barcos, o casario acolhedor e ordenado, os morros. Destaca-se à direita a silhueta imponente do Corcovado, futuro pedestal do Cristo Redentor, símbolo da herança cristã da cidade e do próprio País.

A terceira cena, tomada da Ilha das Cobras, oferece um panorama da baía de Guanabara, abrangendo o conjunto da cidade. Em primeiro plano, escravos em folguedo cantam e dançam despreocupados, não longe da casa senhorial. Duas guaritas emolduram a cena, como sentinelas da ordem a velar sobre a baía e a urbe.

Nos três quadros domina a impressão de harmonia, calma e beleza. Elementos estes que defluem de uma ordem social que é fruto da boa ordem moral, católica.

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Óleo (c. 1840) de Abraham Louis Buvelot – Museu Imperial / IPHAN / Ministério da Cultura

Plinio Corrêa de Oliveira considerava o panorama da baía de Guanabara “uma síntese das belezas e da grandiosidade, ora imponentes, ora delicadas, de nosso País”. É o cenário natural para que nele se realizem os magníficos lances da vocação nacional. Assim, em cada recanto da baía um aspecto novo, um matiz diferente, falam de uma grande variedade sem romper a sua unidade. Os espaços brasileiros, que a baía de Guanabara a seu modo sintetiza, têm o tamanho das vastidões ali resumidas. E a alma brasileira, uma grandeza análoga. É o País que ali se espelha, concluía o grande pensador católico (Cf. Meditando sobre as grandezas do Brasil, in Catolicismo, outubro/1988).

Para Dr. Plinio a baía de Guanabara resume, antes de tudo, aspectos do extenso litoral brasileiro, desde o Oiapoque, ao norte do estuário do Amazonas, até o arroio Chuí, ao sul da lagoa dos Patos. Mas, por misteriosas reversibilidades do espírito humano, essa síntese abarca também o cenário tão diverso do interior do País, como a selva amazônica, o cerrado do planalto central, as caatingas do Nordeste, o pantanal matogrossense, as serranias que vão do Rio Grande do Sul ao Nordeste, caracterizando especialmente Minas Gerais.

Em sua juventude, o inspirador de Catolicismo já aludia a essa vocação providencial, discursando em 1942 a uma multidão que lotava o vale do Anhangabaú, em São Paulo, por ocasião do IV Congresso Eucarístico Nacional:

“Não há quem, viajando por nosso Brasil, não experimente a impressão de que Deus destinou para teatro de grandes feitos esse País, cujas montanhas trágicas e misteriosas penedias parecem convidar o homem às supremas afoitezas do heroísmo cristão; cujas verdejantes planícies parecem querer inspirar o surto de novas escolas artísticas e literárias, de novas formas e tipos de beleza; e na orla de cujo litoral os mares parecem cantar a glória futura de um dos maiores povos da Terra”.

Verdadeira profecia de um homem de fé, que tinha o dom de discernir os desígnios de Deus a respeito das almas e dos povos. Prevendo a decadência da Europa, destacava ele o papel da América, constituída de uma constelação de povos irmãos. “Nessa constelação, inútil é dizer que as dimensões materiais do Brasil não são senão uma figura da magnitude do seu papel providencial”.

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Gravura em metal (1833), de Newton Fielding – Museu Imperial / IPHAN / Ministério da Cultura

Compreende-se, nessa perspectiva, por que o Cristo Redentor fica tão bem no alto do Corcovado, dominando toda a paisagem carioca. Ele é o único sol capaz de dar vida, luz, felicidade ao povo que destinou a grandes feitos. Mas é preciso que esse povo siga os passos do Divino Mestre. Senão, ele errará pelos caminhos do crime, do horror, da pobreza, da humilhação, como o povo eleito errou durante simbólicos 40 anos pelo deserto.

Não será essa a explicação para os horrores que hoje nos assaltam, no Rio de Janeiro como em todo o País? Os atentados à integridade física e moral de vítimas indefesas, a ousadia e violência dos bandidos, os crimes hediondos, a corrupção triunfante e o desleixo (para dizer só isso) do poder público, tudo isso é resultado da descristianização operada sistematicamente por forças ideológicas que têm como fim a destruição de uma Nação católica.

No momento em que nosso País é devastado pela demagogia, pela injustiça, pela imoralidade, pelo crime, a Vós erguemos nossos olhos como nossa grande esperança, ó Maria, que habitais no Céu. Vós bem sabeis que o Brasil só realizará sua grandeza nas trilhas da Civilização Cristã!