Maio de 2007
A Mensagem de Fátima e as perseguições à Igreja
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A Mensagem de Fátima e as perseguições à Igreja

Por ocasião do 90º aniversário das aparições de Nossa Senhora na Cova da Iria, sua mensagem constitui poderoso escudo para os católicos atuais, vítimas de insidiosa perseguição religiosa

José Antonio Ureta

Papa São Pio X

Para incentivar o ensino da Religião às crianças, o Papa São Pio X ministrava pessoalmente aos domingos aulas de catecismo para os meninos de Roma. Fiel ao sistema tradicional de exigir que os alunos aprendessem de cor as respostas, o santo interrogava as crianças para verificar se tinham aprendido.

Numa dessas aulas, ele perguntou a seus alunos sobre as notas distintivas da Igreja Católica, que comprovam sua origem divina. Com a vivacidade dos italianos meridionais, vários alunos levantaram a mão para dar a resposta. À medida que iam sendo indicados pelo Pontífice, davam a resposta que constava no catecismo: Una!; Santa!; Católica; Apostólica!.

O Papa, com tom aprovador, disse: “Está bem. Mas quem é capaz de apresentar ainda mais uma nota distintiva da Igreja?”. Os meninos se olharam perplexos, porque no catecismo só figuravam aquelas quatro. Depois de uma pausa, com a voz embargada, o santo sussurrou: Mártir!.

De fato, naqueles dias, a Santa Sé estava enfrentando a fúria anticlerical do governo francês, o qual, sob pretexto de estabelecer a separação entre a Igreja e o Estado, havia espoliado a Igreja na França de todos seus bens, exilado para o exterior os religiosos de clausura, expulso os sacerdotes e as religiosas das escolas públicas e retirado dos edifícios públicos todo e qualquer sinal religioso.

Com a lucidez dos santos, o Sumo Pontífice percebia bem que aquelas iniciativas não eram senão o começo da exclusão da Religião Católica da vida pública, não somente na França, mas também nos demais países da Europa. Na própria Itália, a Santa Sé tinha sido espoliada dos Estados Pontifícios, e o Papa tornara-se como que prisioneiro no seu palácio do Vaticano. Diante dessa perspectiva de perseguição –– aberta ou velada, dependendo da ferocidade anticlerical dos governos dos diversos países –– São Pio X decidira conclamar os católicos para a defesa dos direitos da Igreja e o combate às leis anticlericais. O preço eventualmente a pagar seria o recrudescimento da perseguição... e o martírio de muitos. Daí o seu desabafo diante dos meninos do catecismo.

O conflito religioso que despontava foi, porém, interrompido pelo estrondo dos canhões e o estrépito das metralhadoras durante a I Guerra Mundial. Com a volta da paz, o exemplo de heroísmo dado pelos católicos nas trincheiras, e especialmente pelo clero, tornou impossível a retomada das hostilidades contra a Igreja por parte dos governos.

Na Itália, firmou-se o Tratado de Latrão, que reconheceu a Cidade do Vaticano como Estado soberano governado pelo Papa. Na França, chegou-se a um acordo diplomático concedendo à Igreja o uso das catedrais e das igrejas roubadas pelo Estado, que se obrigava a mantê-las às suas custas. Nos outros países a separação entre a Igreja e o poder civil deu-se de modo menos conflitante, abrindo-se no Ocidente um período de relativa tranqüilidade nos assuntos religiosos.

No México a Igreja foi martirizada durante a gloriosa guerra cristeira. O padre Pro, jesuíta, reza antes de ser fuzilado

Nesse período de calma, houve porém duas exceções de monta: a) no México, a aberta perseguição à Igreja pelo governo de Elías Calles resultou na chamada “guerra dos Cristeros” — nome dos combatentes católicos que morriam fuzilados, bradando “Viva Cristo Rei!” —, a qual terminou com o massacre dos líderes católicos após um acordo de paz entre o governo e o episcopado; b) na Espanha, o governo republicano-comunista deu rédea solta a seu ateísmo, e durante a Guerra Civil de 1936-39 causou dezenas de milhares de vítimas, particularmente nas fileiras do clero e das ordens religiosas.

Enquanto isso, na Europa Oriental, a sanha anti-religiosa de Stalin conduziu à morte ou aos campos de concentração na Sibéria milhões de russos, ucranianos, lituanos e cidadãos de outros países anexados pela URSS, e que se opunham ao programa ateu do comunismo bolchevique.

A falsa reação ao comunismo, representada pelo neopaganismo nazista de Hitler, abriu o passo a uma perseguição religiosa, que levou para os campos de concentração e de extermínio não somente os cidadãos de raça judaica, mas também milhares de católicos, o mais conhecido dos quais é São Maximiliano Kolbe.

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