Maio de 2007
A Mensagem de Fátima e as perseguições à Igreja
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Acordo da Igreja com a modernidade: ilusão

O fim da II Guerra Mundial e os acordos de Yalta trouxeram relativa paz no Ocidente e relações de bons ofícios entre os governos laicos e a Hierarquia da Igreja. Apenas pairava, nesse horizonte sorridente, a sombra das perseguições que continuava a sofrer a Igreja do Silêncio, não somente na URSS, mas também nos países que, após o conflito mundial, haviam ficado sob o jugo comunista, como Polônia, Hungria e Checoslováquia. As figuras dos cardeais Slipyj e Mindszenty –– um prisioneiro nas masmorras soviéticas, e o outro refugiado na embaixada norte-americana de Budapeste após vários anos de cárcere –– impediam que o silêncio da Igreja baixasse inteiramente sobre a Igreja do Silêncio.

Porém, foi num contexto de “Gáudio e Esperança” que se abriu, em 1962, o Concílio Vaticano II, destinado a selar uma nova era de colaboração entre a Igreja e o mundo moderno, representado pelas correntes progressistas de esquerda que iam assumindo os governos. O Papa Paulo VI, não sem otimismo, chegou a afirmar na última sessão da assembléia conciliar: “A religião do Deus que se fez homem encontrou-se com a religião (porque ela o é) do homem que se fez Deus. O que aconteceu? Um choque, uma luta, um anátema? Isso poderia ter acontecido, mas não aconteceu”.(1)

Porém, a coexistência pacífica da Igreja com a “modernidade” durou pouco tempo. A razão desse fracasso foi anunciada pelo Papa Bento XVI no discurso à Cúria Romana, por ocasião da apresentação dos votos natalinos, em 22 de dezembro de 2005: “Quem esperava que com este ‘sim’ fundamental à idade moderna todas as tensões se dissolvessem, e a ‘abertura ao mundo’ assim realizada transformasse tudo em pura harmonia, subestimou as tensões interiores e até as contradições da própria idade moderna: subestimou a perigosa fragilidade da natureza humana que, em todos os períodos da história e em toda configuração histórica, é uma ameaça para o caminho do homem”.

Pior ainda, dita coexistência favoreceu a penetração do relativismo liberal em largos setores dos meios católicos atuais, levando a um enfraquecimento das forças internas da Igreja, que deveriam apresentar-se coesas contra o mal. Compreendem-se nesse contexto as conhecidas afirmações de Paulo VI sobre um processo de “autodemolição” existente na Igreja, e sobre a penetração da “fumaça de Satanás”(2) no Templo de Deus. Também João Paulo II teve palavras duras a esse respeito, quando disse que “imersos no ‘relativismo’ intelectual e moral, e por conseguinte no permissivismo, os cristãos são tentados pelo ateísmo, pelo agnosticismo, pelo iluminismo vagamente moralista, por um cristianismo sociológico”.(3) E o Papa Bento XVI, poucos meses antes de ascender ao Sumo Pontificado, ainda como Cardeal Ratzinger, escreveu em 2005 uma Via Sacra para ser rezada no Coliseu, na qual afirma: “Não deveríamos pensar também em tudo quanto Cristo tem sofrido na sua própria Igreja? Quantas vezes se abusa do Santíssimo Sacramento, da sua presença, freqüentemente como está vazio e ruim o coração onde Ele entra! Tantas vezes celebramos apenas nós próprios, sem nos darmos conta sequer d’Ele! Quantas vezes se contorce e abusa da sua Palavra! Quão pouca fé existe em tantas teorias, quantas palavras vazias! Quanta sujeira há na Igreja, e precisamente entre aqueles que, no sacerdócio, deveriam pertencer completamente a Ele!”(4)

Apesar dessa penetração do espírito do mundo nos ambientes católicos, o choque com a modernidade, que Paulo VI quis evitar por meio da atitude de “mão estendida” adotada pela Hierarquia católica depois do Vaticano II, está recomeçando 40 anos depois.

E esse conflito não pode senão recrudescer, uma vez que o homem moderno, precisamente porque se crê Deus, julga-se no direito de inventar seus próprios valores e de dar-se a si mesmo uma lei moral que atenda às suas piores paixões. Assim, não aceita mais que a Igreja Católica queira influenciar no debate de questões das mais importantes da atualidade, tais como o aborto, a eutanásia, as pesquisas com embriões, o divórcio, as uniões conjugais livres, o pseudo-casamento homossexual, etc.

A Igreja Católica não pode mudar os ensinamentos que recebeu de seu divino Mestre como depósito da fé, e também não pode deixar de evangelizar o mundo sem trair sua missão. Ela não pode, portanto, evitar esse choque com as estruturas do poder político e social, nem com os conglomerados da mídia que ditam o “credo” ateu, individualista e hedonista imperante na sociedade contemporânea.

No passado, esse choque levou às perseguições e ao martírio milhões de cristãos, dos quais a Igreja Católica ressurgiu ainda mais reluzente e poderosa do que antes da provação que se abatera sobre Ela.

Acontecerá o mesmo neste umbral do terceiro milênio? Discernimos algum indício da Divina Providência nesse sentido, a fim de prepararmo-nos para uma prova semelhante?

Acreditamos que sim. Tais indícios existem e são muito claros. Eles nos foram apresentados nas advertências de Nossa Senhora em Fátima, das quais depreende-se inequivocamente o seguinte: ou os homens atenderiam ao seu apelo e se converteriam, ou então adviria um grande castigo, parte do qual seria uma imensa perseguição religiosa.

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