Maio de 2007
A Mensagem de Fátima e as perseguições à Igreja
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Perseguições anticatólicas nos séculos XX e XXI

Aldeia incendiada pelos muçulmanos, em Darfur (Sudão). A perseguição religiosa tem sido particularmente virulenta nesse país, diante da passividade das potências ocidentais.

No que concerne ao século XX, é inegável que as perseguições anunciadas em Fátima ocorreram exatamente como Nossa Senhora tinha anunciado. O escritor norte-americano Robert Royal, autor de um livro que faz referência à matéria, intitulado Os mártires católicos do século XX,(5) afirma que levará décadas para se poder determinar com exatidão o número desses mártires; mas que, de qualquer forma, a cifra deve ficar no mínimo nas centenas de milhares de vítimas. O crescimento exponencial do número de vítimas, afirma Royal, não se deve primordialmente ao crescimento da população, mas ao caráter ideológico-político das perseguições religiosas empreendidas pelo laicismo (México), pelo comunismo (Espanha, Rússia, China, Vietnã, Cuba, etc.) e pelo nazismo nos campos de concentração.

Qual a perspectiva para o século XXI? Não tendo havido a conversão dos corações nem a penitência solicitada por Nossa Senhora como meio de aplacar a cólera de Deus e de evitar as catástrofes anunciadas em Fátima, esse aspecto do castigo — a perseguição religiosa — não pode senão aumentar. De um lado, pelo aparecimento de novas perseguições. De fato, às perseguições nazistas e comunistas somaram-se, no fim da segunda metade do século passado, as perseguições empreendidas pelo fanatismo muçulmano nas regiões em que ele domina. Tais perseguições têm provocado centenas de vítimas no Oriente: Índia, Paquistão, Indonésia, Timor, Filipinas; no Oriente Médio: Iraque, Arábia Saudita, Turquia; mas sobretudo no continente africano: na fronteira religiosa que divide o norte muçulmano e o sul cristão e animista. Tais perseguições têm sido particularmente virulentas no Sudão, diante da passividade das potências ocidentais, e tendem a crescer, na medida em que as províncias muçulmanas desses países religiosamente mistos comecem a aplicar a “sharia” –– ou seja, a lei islâmica –– como lei do Estado.

A guerra no Iraque e os ataques contra os palestinos, efetuados pelo Estado de Israel, estão aumentando o ódio das populações muçulmanas contra os Estados Unidos e contra o Ocidente em geral. Com isso, as perseguições contra os cristãos em terras muçulmanas tendem a aumentar.

De outro lado, porém, a perspectiva de perseguição religiosa que se apresenta como a potencialmente mais feroz é aquela que está incubada nos próprios países ex-cristãos, que apostataram da fé de seus maiores e adotaram uma filosofia da vida inteiramente materialista e relativista, segundo a qual não existe nenhuma verdade absoluta, e a fortiori nenhuma verdade religiosa. Motivo pelo qual o homem pode manipular a realidade a seu bel-prazer, sem ter que dar satisfação a ninguém. Assim, tornar-se-ia realidade a promessa da serpente a Adão e Eva no Paraíso: “Sereis como deuses”; eco da própria revolta de Lúcifer: “Non serviam”.

É preciso não se deixar enganar pelas aparências “liberais” da sociedade contemporânea. Voltaire enunciou, numa famosa carta, o seguinte: “Eu não estou de acordo com tuas idéias, mas daria a vida para defender teu direito de divulgá-las”. Apenas alguns anos depois, um discípulo seu, Antoine de Saint-Just, deu a palavra de ordem que desencadearia as perseguições políticas e religiosas da Revolução Francesa: “Não há liberdade para os inimigos da liberdade”. A justo título, Saint-Just passou para a História como “o Arcanjo do Terror”.

Plinio Corrêa de Oliveira

A explicação para essa gritante contradição entre as promessas de liberdade sem limites e a coarctação dela na realidade, é apresentada, com sua habitual profundidade, pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Por causa do pecado original, diz o ilustre pensador, a sensualidade consentida produz no interior do homem uma subversão análoga à que o orgulho produz na ordem social: a tirania dos inferiores sobre os superiores, a tirania das paixões desenfreadas sobre a razão e a vontade, a tendência a ultrapassar todas as barreiras e a rebelar-se contra toda autoridade e toda lei. Conclui então: “Quando a Revolução proclama a liberdade absoluta como princípio metafísico, fá-lo unicamente para justificar o livre curso das piores paixões e dos erros mais funestos”, ou seja, “o direito de pensar, sentir e fazer tudo quanto as paixões desenfreadas exigem”.(6)

Não se trata da verdadeira liberdade descrita pelo presidente-mártir do Equador, Gabriel García Moreno, como “a liberdade para tudo e para todos, exceto para o mal e para os malfeitores”. O liberalismo é a liberdade para o mal e para os maus, o que implica em cercear a liberdade dos homens de bem quando querem, na vida social e na ordem legal, denunciar o mal e opor dificuldades à sua difusão. De onde a conclusão de Plinio Corrêa de Oliveira: “Nota-se que o liberalismo pouco se importa com a liberdade para o bem; só lhe interessa a liberdade para o mal”; de modo que, quando alcança o poder, o liberalismo “protege, favorece, prestigia de muitas maneiras a liberdade para ao mal”; e “facilmente e até alegremente tolhe ao bem a liberdade, em toda a medida do possível”.(7)

Sendo a Igreja Católica o baluarte da verdade e do bem, o liberalismo não aceita a tutela que Ela exerce sobre as sociedades cristãs e, sob pretexto de que a religião não deve interferir na política, tenta silenciá-la. Quando vê que a Igreja continua a interpelar as consciências, o liberalismo arranca a máscara e começa a perseguição, primeiro velada, depois abertamente. É o que está acontecendo atualmente, em maior ou menor grau, nos diferentes países do Ocidente. Infelizmente, quem abre a marcha nesse processo de apostasia, que está desembocando aos poucos na perseguição, é a Europa, ou seja, o próprio berço da Cristandade ocidental. A montagem da perseguição está se dando em quatro etapas lógicas, não necessariamente encadeadas no tempo de sua aplicação prática.

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