Maio de 2011
“Mas quem terá escrito coisas tão belas sobre a Mãe de Deus?”
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“DOÇURA NOSSA, SALVE”

“Aquele que é amigo o é em todo tempo; e nos transes apertados conhece-se o irmão” (Prov. 17, 17). Os amigos verdadeiros e os verdadeiros parentes não se conhecem no tempo de prosperidades, mas sim no das angústias e das desventuras. Os amigos do mundo não deixam o amigo, enquanto ele está na prosperidade. Mas o abandonam imediatamente, se lhe acontece uma desgraça ou dele se avizinha a morte. Tal não é o procedimento de Maria para com seus devotos. Nas suas angústias e especialmente nas da morte, que de todas são as piores, essa boa Senhora e Mãe não abandona seus fiéis servos. [...]

Quando uma alma está para sair desta vida, diz Isaías, o inferno todo se conturba e manda os demônios mais terríveis a tentá-la antes de sair do corpo para depois acusá-la, quando se apresentar ao tribunal de Jesus Cristo. “O inferno lá embaixo se agita para receber-te à tua chegada e diante de ti levanta gigantes” (Is 14, 9). Mas Ricardo diz que os demônios, em se tratando de uma alma patrocinada por Maria, não terão atrevimento, nem mesmo para acusá-la. Pois sabem muito bem que o Juiz nunca condenou, nem condenará jamais uma alma patrocinada por sua grande Mãe.

Bem-aventurado, diz Maria, quem ouve meus conselhos e permanece constantemente à porta de minha misericórdia, invocando minha intercessão e meu auxílio.

“ESPERANÇA NOSSA, SALVE”

Não suportam os hereges que saudemos e chamemos a Maria nossa esperança. Dizem que só Deus é nossa esperança, e que Ele amaldiçoa quem põe sua confiança na criatura. “Maldito o homem que confia no homem” (Jer 17, 5). Maria é criatura, objetam eles; como, pois, uma criatura há de ser a nossa esperança? Isto dizem os hereges. Entretanto a Santa Igreja quer que cada dia todos os eclesiásticos e todos os religiosos em voz alta, e em nome de todos os fiéis, invoquem e chamem a Maria com este nome de esperança nossa.

De dois modos — diz o angélico Santo Tomás — podemos pôr nossa esperança numa pessoa: como causa principal ou como causa mediata. Quem deseja obter do rei uma graça, espera alcançá-la dele como soberano senhor, e espera obtê-la do seu ministro ou válido, como intercessor. No último caso a graça concedida veio do rei, mas por intermédio do seu válido. Portanto, quem pretende a graça, com razão chama aquele seu intercessor de sua esperança. Por ser de infinita bondade, o Rei do Céu deseja sumamente nos enriquecer com as suas graças. Mas porque para isso é necessária da nossa parte a confiança, para aumentá-la deu-nos o Senhor sua própria Mãe por advogada e intercessora, e concedeu-lhe plenos poderes a fim de nos valer. Por esta razão quer também que nela coloquemos a esperança de nossa salvação e de todo nosso bem. Sem dúvida são amaldiçoados pelo Senhor — como diz Jeremias — aqueles que põem sua confiança unicamente na criatura.

Tal é o procedimento dos pecadores que, em troca da amizade e dos préstimos de um homem, não se incomodam de ofender a Deus. São abençoados pelo Senhor e lhe são agradáveis, porém, os que esperam em Maria, tão poderosa como Mãe de Deus, para impetrar-lhe as graças e a vida eterna. Pois assim Deus quer ver aquela excelsa criatura honrada, Ela que neste mundo o amou e honrou mais do que todos os anjos e homens juntos.

É, portanto, com muita razão que chamamos a Virgem de esperança nossa, porque, como diz o Cardeal São Roberto Belarmino, “esperamos pela sua intercessão obter o que não alcançaríamos só com nossas orações”. Invocamo-la, observa Suárez, “para que a dignidade da intercessora supra a nossa falta de méritos”. De modo que, continua ele, “invocar a Virgem com tal esperança não é desconfiar da misericórdia de Deus, senão temer pela própria indignidade”. [...]

“A VÓS BRADAMOS, DEGREDADOS FILHOS DE EVA”

Como pobres filhos da infortunada Eva, somos réus da mesma culpa e condenados à mesma pena. Andamos errando por este vale de lágrimas, exilados de nossa pátria, chorando por tantas dores que nos afligem no corpo e no espírito. Feliz, porém, aquele que entre tais misérias se dirige muitas vezes à consoladora do mundo, ao refúgio dos pecadores, à grande Mãe de Deus. Feliz quem a invoca e implora com devoção! Bem-aventurado o homem que me ouve e que “vela todos os dias à entrada de minha casa” (Prov. 8, 34). Bem-aventurado, diz Maria, quem ouve meus conselhos e permanece constantemente à porta de minha misericórdia, invocando minha intercessão e meu auxílio. [...]

Nem mesmo a multidão de nossos pecados deve diminuir a confiança, quando nos prostramos aos pés de Maria. Ela é a Mãe de misericórdia, mas a misericórdia não tem razão de ser onde não há misérias para aliviar. Uma boa mãe não hesita em tratar de um filho coberto de chagas repugnantes, ainda que lhe custe abnegações e trabalhos — observa Ricardo de São Lourenço. Da mesma forma também não sabe nossa boa Mãe abandonar-nos, quando por Ela chamamos, por mais horripilantes que sejam os pecados dos que precisa nos curar. E justamente isto quis Maria significar quando apareceu a Santa Gertrudes, estendendo o seu manto para cobrir com ele todos os que a Ela recorriam. Ao mesmo tempo entendeu a santa que todos os anjos têm empenho em defender os devotos de Maria contra os assaltos do inferno. [...]

E se alguém duvidar de ser socorrido de Maria ao invocá-la, ouça a repreensão de Inocêncio III: “Quem é aquele que pediu socorro a esta doce Soberana e Ela não o atendeu?” Aqui exclama o Beato Eutiquiano: “Ó Virgem Santa, que podeis ajudar todo miserável, salvar os maiores pecadores, quem alguma vez solicitou vosso poderoso patrocínio e por vós foi desamparado?” Tal caso nunca se deu e nunca se há de dar.

“Concordo, diz São Bernardo, que nunca mais exalte vossa misericórdia, ó Virgem Maria, aquele que, tendo invocado vosso auxílio em suas necessidades, se recorde de ter sido abandonado por vós”. [...]

Digam, pois, todos com grande confiança, invocando esta Mãe de Misericórdia, o que lhe dizia o Pseudo-Agostinho: “Lembrai-vos, ó piedosíssima Senhora, que não se tem ouvido, desde que o mundo é mundo, que alguém fosse de vós desamparado. E por isso, perdoai-me se vos digo que não quero ser o primeiro infeliz, que, recorrendo a vós, não consiga o vosso amparo”. [...]

Não só do Céu e dos santos é Maria Santíssima Rainha, senão também do inferno e dos demônios, porque os venceu valorosamente com suas virtudes. Já desde o princípio do mundo tinha Deus predito à serpente infernal a vitória e o império que sobre ela obteria nossa Rainha. “Eu porei inimizade entre ti e a mulher; Ela te esmagará a cabeça” (Gn 3, 15).

P elos merecimentos de Jesus Cristo foi concedida a Maria a grande autoridade de ser Medianeira da nossa salvação.

“A VÓS SUSPIRAMOS, GEMENDO E CHORANDO NESTE VALE DE LÁGRIMAS”

A invocação e veneração dos santos, particularmente a de Maria, Rainha dos bem-aventurados, é uma prática não só lícita, senão útil e santa. Pois procuramos por meio dela obter a graça divina. Esta verdade é de fé, estabelecida pelos concílios contra os hereges que a condenam como injúria feita a Jesus Cristo, nosso único Medianeiro. Mas se, depois da morte, um Jeremias reza por Jerusalém; se os anciãos do Apocalipse apresentam a Deus as orações dos santos; se um São Paulo promete a seus discípulos lembrar-se deles depois da morte; se Santo Estêvão intercede por seus perseguidores e um São Paulo, por seus companheiros; se, em suma, podem os santos rogar por nós, por que não poderíamos nós, por nossa vez, rogar-lhes para que intercedam por nós? Às orações de seus discípulos recomenda-se São Paulo: “Irmãos, rezai por nós” (1 Tess. 5, 25). São Tiago exorta-nos a “rogarmos uns pelos outros” (5, 16). Podemos, por conseguinte, fazer o mesmo.

Que Jesus Cristo seja o único Mediador de justiça a reconciliar-nos com Deus pelos seus merecimentos, quem o nega? Não obstante isto, Deus se compraz em conceder-nos suas graças pela intercessão dos santos e especialmente de Maria, sua Mãe, a quem tanto deseja Jesus ver amada e honrada.

Seria impiedade negar semelhante verdade. Quem ignora que a honra prestada às mães redunda em glória para os filhos? Os pais são as glórias dos filhos, lemos no livro dos Provérbios (17, 6). Quem muito enaltece a mãe, não precisa ter receio de obscurecer a glória do filho. Pois quanto mais se honra a Mãe, tanto mais se louva o Filho, diz São Bernardo. E observa Santo Ildefonso: “É tributada ao Filho e ao Rei toda a honra que se presta à Mãe e à Rainha”. Ao mesmo tempo está fora de dúvida que pelos merecimentos de Jesus Cristo foi concedida a Maria a grande autoridade de ser Medianeira da nossa salvação, não de justiça, mas de graça e intercessão, como bem lhe chamou Conrado de Saxônia com o título de "fidelíssima medianeira de nossa salvação". E São Lourenço Justiniano pergunta: “Como não ser toda cheia de graça, aquela que se tornou a escada do paraíso, a porta do Céu e a verdadeira Medianeira entre Deus e os homens?”

A intercessão de Maria provém da sua cooperação na Redenção

Uma sentença de São Bernardo diz: “Cooperaram para nossa ruína um homem e uma mulher. Convinha, pois, que outro homem e outra mulher cooperassem para a nossa reparação. E estes foram Jesus e Maria, sua Mãe. Não há duvida, Jesus Cristo, só, foi suficientíssimo para remir-nos, mas conveniente era, entretanto, que para a nossa reparação servissem ambos os sexos, assim como haviam cooperado ambos para a nossa ruína”. Pelo que Santo Alberto chamou Maria “a cooperadora da nossa Redenção”. A própria Virgem revelou a Santa Brígida que assim como Adão e Eva por um pomo venderam o mundo, assim também Ela e seu Filho com um Coração o resgataram. “Do nada pôde Deus criar o mundo, observa Santo Anselmo, mas não quis repará-lo sem a cooperação de Maria”. [...]

As súplicas de Maria são eficacíssimas para obterem tudo quanto Ela pode. Pois os seus rogos são sempre rogos de Mãe.

“EIA, POIS, ADVOGADA NOSSA”

Tão grande é o prestígio de uma mãe, que nunca pode tornar-se súdita de seu filho, ainda que ele seja monarca e tenha domínio sobre todas as pessoas do seu reino. É verdade que, sentado agora no Céu à direita de Deus Pai, reina Jesus com supremo domínio sobre todas as criaturas e também sobre Maria. E o tem mesmo como homem, diz Santo Tomás, por causa da união hipostática com a pessoa do Verbo. Todavia, também é certo que quando vivia na Terra, nosso Redentor quis humilhar-se a ponto de ser submisso a Maria. “E lhes estava sujeito” (Lc 2, 51). “Sim, desde que Jesus Cristo se dignou escolher Maria por Mãe, estava como Filho realmente obrigado a obedecer-lhe”, diz Santo Ambrósio. “Os outros santos — reflete Ricardo de São Lourenço — estavam unidos à vontade de Deus; contudo teve Maria maior ventura. Pois não só foi submissa à vontade de Deus, mas também o Senhor se submeteu à sua vontade”. Das outras virgens diz-se que “seguem o Cordeiro por toda parte”. Porém de Maria, pode-se dizer que o Cordeirinho de Deus a seguia, porque lhe foi submisso.

Daí concluímos que ainda que não possa dar ordens a seu Filho no Céu, as súplicas de Maria são eficacíssimas para obterem tudo quanto Ela pode. Pois os seus rogos são sempre rogos de Mãe. [...]

É certo, em suma, que não há criatura alguma que nos possa obter tantas misericórdias como esta boa advogada. Não só Deus a honra como sua serva dileta, mas sobretudo como verdadeira Mãe. Diz Guilherme de Paris: “Uma só palavra de seus lábios é quanto basta para o Filho atendê-la”. [...]

Maria cuida de cada um de nós

São Boaventura anima os pecadores nestes termos: “Que deves fazer se, por causa de teus pecados, temes a vingança de Deus? Vai, recorre a Maria, que é a esperança dos pecadores. Estás, porém, receoso de que Ela não queira tomar tua defesa? Pois então fica sabendo que é impossível tal repulsa; pois o próprio Deus encarregou-a de ser o refúgio dos pecadores”.

“É lícito a um pecador desesperar de sua salvação, quando a própria Mãe do Juiz se lhe oferece por mãe e advogada?” – pergunta o abade Adão de Perseigne. E continua: “Vós, ó Maria, que sois Mãe de Misericórdia, recusaríeis interceder junto ao vosso Filho que é Juiz por um filho vosso que é pecador? Em favor de uma alma recusaríeis falar ao Redentor, que morreu na cruz para salvar os pecadores? Não; não podeis fazê-lo; pelo contrário, de coração vos empenhais por todos os que vos invocam”.

“ESSES VOSSOS OLHOS MISERICORDIOSOS A NÓS VOLVEI”

“Durante sua vida na Terra, tinha a Virgem um coração cheio de piedade e ternura para com os homens”, observa São Jerônimo; mas tinha-o de tal forma que ninguém pode sentir tão vivamente suas próprias aflições, como Maria sentia as alheias. Bem o mostrou nas bodas de Caná. Na falta de vinho, diz São Bernardino de Siena, “a Senhora assumiu espontaneamente o ofício de compassiva consoladora. Compadecida da aflição dos noivos, empenhou-se junto ao Filho e obteve o milagre que fez abundar o vinho nas talhas de água”.

Dirige-se São Pedro Damião a pergunta: “Porventura vos esquecestes de nós, miseráveis, agora que estais exaltada à dignidade de Rainha do Céu? Longe de nós tal pensamento! É incompatível com a grande piedade do vosso coração o olvido de uma tão grande miséria como a nossa”.

 “As honras mudam os costumes”, afirma um conhecido adágio. Mas ele não é aplicável a Maria. Vale para os homens no mundo, que se ensoberbecem e esquecem os antigos amigos pobres, logo que se vêem elevados a alguma dignidade. Maria Santíssima não procede assim. Justamente para melhor ajudar aos miseráveis é que se rejubila com sua grandeza. [...]

Quando se dizem devotamente à Santíssima Virgem estas palavras: “Eia, pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei”, não pode Maria deixar de volver os olhos para quem a invoca. Assim foi revelado a Santa Brígida. [...]

Se, por causa de nossos pecados, a desconfiança nos invadir, digamos com Guilherme de Paris: “Ó Senhora minha, não me lanceis em rosto meus pecados, porque lhes oporei vossa grande misericórdia. Jamais se diga que minhas culpas puderam contrabalançar no juízo a vossa misericórdia. Pois esta é muito mais eficaz para obter-me o perdão, que todos os meus pecados para valerem-me a condenação”.

"É impossível salvar-se quem não é devoto de Maria e não vive sob sua proteção", diz Santo Anselmo.

“E DEPOIS DESTE DESTERRO, MOSTRAI-NOS JESUS, BENDITO FRUTO DO VOSSO VENTRE”

É impossível que se perca um devoto de Maria, que fielmente a serve e a Ela se encomenda. À primeira vista talvez pareça um tanto ousada esta proposição. Antes, porém, que seja rejeitada peço se leia o que a respeito eu vou apresentar. Afirmo que é impossível perder-se um devoto da Mãe de Deus. Não me refiro àqueles que abusam dessa devoção para pecarem com menos temor. Desaprovam alguns que muito se celebrem as misericórdias de Maria para com os pecadores, dizendo que estes dela abusam para mais pecarem. Mas injustamente o desaprovam. Pois esses presunçosos, por esta sua temerária confiança, merecem castigo e não misericórdia. Falo tão somente daqueles devotos de Maria que, ao desejo de emenda, unem a perseverança em obsequiá-la.

Quanto a estes, repito, é moralmente impossível que se percam. O mesmo afirma o Padre Crasset em seu livro A verdadeira devoção à Virgem Maria. E antes já o afirmaram Vega na sua Teologia Mariana, Mendoza e outros teólogos. Que eles não falaram irrefletidamente, vê-lo-emos pelas afirmações dos Doutores e dos santos. Ninguém se admire à vista de tantas sentenças uniformes dos autores. Quis referi-las todas, a fim de provar o acordo geral dos escritores sobre este ponto.

“É impossível salvar-se quem não é devoto de Maria e não vive sob sua proteção”, diz Santo Anselmo, e também é impossível que se condene quem se encomenda à Virgem e por Ela é olhado com amor. [...]

No salmo 99 de seu Saltério Mariano chega até a dizer que não só não se salvará, mas que nem esperança de salvação terá aquele do qual Maria aparta o seu rosto. Até o protestante Ecolampádio tinha por indício certo de reprovação a pouca devoção à Mãe de Deus. [...]

Por isso o demônio trabalha para que os pecadores, depois de perderem a graça de Deus, percam também a devoção de Maria. Eis as belas palavras de São João Damasceno, reanimando a sua e a nossa esperança: “Ó Mãe de Deus, se em vós puser minha confiança, serei salvo. Se estiver sob vossa proteção, nada tenho a recear porque a devoção para convosco é uma segura arma de salvação, concedida por Deus só aos que deseja salvar”. Por isso até Erasmo assim saudava a Santíssima Virgem: “Deus vos salve, ó terror do inferno, ó esperança dos cristãos; a confiança em vós assegura a salvação”. [...]

Estes e outros exemplos, entretanto, não devem servir para autorizar a temeridade dos que vivem em pecado, confiados de que Maria os haja de livrar do inferno, ainda que morram impenitentes. Rematada loucura fora, certamente, lançar-se alguém para dentro de um poço, na esperança de ver-se livre da morte, porque Maria em caso semelhante já preservou a outros. Muito maior loucura seria, entretanto, arriscar-se alguém a morrer no pecado, presumindo que a Santíssima Virgem o preservará do inferno.

Maria socorre seus devotos no Purgatório

São João acrescenta que Maria tem entranhas de tanta misericórdia, que merece ser chamada não de misericordiosa, mas a própria misericórdia.

Muito felizes são os devotos desta piedosíssima Mãe. Pois Ela não só os socorre neste mundo, mas também no Purgatório são assistidos e consolados com a sua proteção. Por terem essas almas maior precisão de socorro, empenha-se a Mãe de Misericórdia com zelo ainda mais intenso em auxiliá-las. Elas muito padecem e nada podem fazer por si mesmas. Diz São Bernardino de Siena que Maria Santíssima tem nesse cárcere certo domínio e pleno poder, tanto para aliviá-las como também para livrá-las completamente daquelas penas. [...]

Refere São Pedro Damião que certa mulher chamada Marózia apareceu depois de morta a uma sua comadre, e lhe disse que no dia da Assunção de Maria havia sido libertada do Purgatório. Que juntamente com ela saíra um tão considerável número de almas, que excedia o da população de Roma. A respeito das festividades do Natal e da Ressurreição do Senhor, assevera Dionísio Cartusiano o mesmo privilégio. Diz que em tais dias desce Maria ao Purgatório, acompanhada por muitos anjos, e livra uma quantidade de almas daquelas penas. E Novarino inclina-se a crer que o mesmo sucede em todas as festas solenes da Santa Igreja.

Conhecidíssima é a promessa que Maria fez ao Papa João XXII. Apareceu-lhe certo dia e ordenou-lhe fizesse saber a todos aqueles que trouxessem o escapulário do Carmo, que seriam livres do Purgatório no primeiro sábado depois da morte. Fê-lo o Papa por uma Bula que publicou, e que foi depois confirmada por Alexandre VII, Pio V, Gregório XIII e Paulo V. [...]

“Ó CLEMENTE, Ó PIEDOSA”

São João acrescenta que Maria tem entranhas de tanta misericórdia, que merece ser chamada não só misericordiosa, mas a própria misericórdia. Por causa dos infelizes foi Maria constituída Mãe de Deus e colocada para lhes dispensar misericórdia, ensina-nos São Boaventura. Considera em seguida a imensa solicitude que Ela tem para com todos os miseráveis, bem como a sua grande bondade, que acima de tudo consiste em socorrer os necessitados. Essa consideração leva o santo a dizer: “Quando olho para vós, ó Maria, parece-me não ver mais a divina justiça, mas a divina misericórdia somente, da qual estais cheia”. Em suma, tanta lhe é a piedade que, como diz o abade Guerrico, “seu amoroso coração não pode cessar um momento de ser misericordioso conosco”.

“E que outra coisa pode jorrar de uma fonte de piedade, senão piedade?” – pergunta São Bernardo. Por isso, Maria foi chamada “uma bela oliveira no campo” (Ecli. 24, 19). Como da oliveira só sai o óleo, símbolo da misericórdia, também só graças e misericórdias destilam as mãos de Maria. [...]

Do imperador romano Tito, conta Suetônio, que tinha muito prazer em conceder as graças que se lhe pediam. No dia em que não tinha ocasião de conceder alguma, lastimava-se, dizendo: “Hoje foi um dia perdido para mim”. Tito assim falava, provavelmente mais por vaidade ou por ambição de ser estimado que por verdadeira caridade. Nossa Rainha, porém, se possível lhe fosse passar um dia sem dispensar algum favor, julgá-lo-ia perdido, tão grande é sua caridade, seu desejo de espalhar benefícios. E até afirma o Bem-aventurado Bernardino de Busti: “Ela tem mais ânsia de nos fazer favores, do que nós temos desejo de os receber. Por isso, sempre que a invocamos, a encontramos com as mãos cheias de misericórdia e liberalidade”. [...]

Concluamos com a elegante e terna exclamação de São Boaventura: “Ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria! Ó Maria, sois clemente para com os miseráveis, compassiva para com os que vos invocam, doce para com os que vos amam; sois clemente para com os penitentes, compassiva para com os justos, doce para com os perfeitos. Mostrai vossa clemência, livrando-nos dos castigos; vossa piedade, dispensando-nos as graças; vossa doçura, dando-nos a quem vos procura”.

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