Setembro de 2005
O que o jejum, a maceração corporal, a oração e a comunhão freqüente fazem na alma?
A Palavra do Sacerdote

Cônego José Luiz Villac
Pergunta
— O que o jejum, a maceração corporal, a oração e a comunhão freqüente fazem na alma? Quando sabemos que as reparações são aceitas? Desculpe, sei que minha pergunta parece tola, mas sempre me pergunto por que fazê-las [as obras acima mencionadas], e sempre respondo porque Deus o quer. O sr. poderia, por favor, dar uma breve explicação?

Resposta — A muitos leitores a pergunta acima parecerá irrelevante, e a própria consulente pondera que sua pergunta parece tola. Entretanto, ela aborda um ponto central da vida espiritual do católico, e portanto é da mais alta importância compreender bem o seu significado.

Quem lê os Evangelhos com o coração reto não pode deixar de perceber que eles situam o leitor num patamar elevadíssimo, de onde se descortina a vida eterna bem-aventurada, para a qual Deus chama todo homem.

E desde logo fica claro, pela leitura dos Evangelhos e pelo que a Igreja nos ensina, que só poderá entrar no Céu a alma inteiramente purificada de seus pecados. Ora, olhando cada um de nós para dentro de si mesmo, perceberá tantas manchas, que logo conclui que não está em condições de se apresentar diante de Deus e de ser aceito num lugar — o Céu, morada do Santo dos santos e Reino da santidade –– que repugna toda e qualquer mancha, por ínfima que seja. Daí a pergunta: o que fazer para apagar essas manchas que nos impedem a entrada na bem-aventurança eterna?

Essa é justamente uma importante razão de ser do jejum, da maceração (ou mortificação) corporal, da oração e mesmo da comunhão freqüente feita com a alma isenta de todo pecado mortal. Pois tais atos, realizados com o desejo sincero de expiação e de agradar a Deus, sobretudo quando oferecidos por meio de Nossa Senhora e unidos ao Sacrifício redentor de Cristo, purificam nossa alma inclusive dos pecados veniais e nos habilitam a entrar inteiramente purificados no Céu. Se, apesar disso, no fim de nossa vida restar na hora da nossa morte um saldo negativo para nós, ele será pago no fogo purificador e santificador do Purgatório.

Um mundo inteiramente afastado de Deus

Convento de clausura - Sabadell, Espanha: vida de dedicação a Deus
Ademais, acontece que o homem não está só, neste mundo, mas vive em sociedade com outros homens, os quais, por sua vez, travam — ou deviam travar — a mesma batalha. Muitos porém não o fazem, e até deliberadamente se opõem aos Mandamentos da lei de Deus, encaminhando-se assim para a perdição eterna.

Quis entretanto a misericórdia divina que os atos expiatórios de uns pudessem suprir o déficit dos outros. De modo que os méritos de uns alcançam de Deus graças para outros pecadores, que assim podem vir a salvar as suas almas. Disse-o Nossa Senhora categoricamente aos três pastorinhos de Fátima: “Vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas”.

Esta é a mais pura doutrina do Evangelho, que a Santa Igreja exprime no dogma da Comunhão dos Santos.

De forma que, quando vemos o mundo afastado de Deus, devemos nos perguntar se temos feito tudo quanto podíamos e devíamos, para alcançar as graças necessárias para que as almas abandonem o caminho da perdição e voltem para as vias benditas da salvação. Tanto mais quanto Nossa Senhora advertiu em Fátima que, se os homens não fizerem a penitência devida, um grande castigo purificador desabará sobre o mundo, após o qual, então sim, virá um dilúvio de graças que restabelecerá a ordem cristã sobre a face da Terra. Será o triunfo do Imaculado Coração de Maria, também profetizado em Fátima.

São Paulo: “O justo vive da fé”

Sacramento da confissão
Mas a consulente quer saber também como podemos conhecer que nossos atos de reparação pelos nossos pecados, ou pelos dos outros, estão sendo aceitos por Deus.

Mais uma vez, trata-se de uma pergunta oportuna, porque nem sempre recebemos a graça sensível que torne isso evidente aos nossos olhos. São os períodos de aridez da vida espiritual. É o que São João da Cruz chama de “noite escura”, pela qual Deus faz geralmente passar as almas destinadas a alcançar alto grau de santidade.

Nesses momentos, é preciso perseverar fortemente nas boas resoluções que tomamos quando o Céu estava claro diante de nós, e prosseguir com nossos atos de oração, penitência e freqüência aos Sacramentos (principalmente o sacramento da Confissão e a Eucaristia), pois, como dizia São Paulo, “justus ex fide vivit” (o justo vive da fé — Rom. 1,17). É o que a própria missivista diz que faz (“porque Deus o quer”), e merece louvor por isso.

No mundo secularizado e ateizado em que vivemos, esta postura é mais meritória do que nunca, pois tudo nos leva hoje em dia a crer tão-só no que os nossos sentidos percebem diretamente. Mas essa é uma posição racionalista, que se recusa a ver dois palmos adiante do nariz. Disse, de propósito, dois palmos — e não um só, conforme a expressão usual — porque à distância de um palmo certamente muitos de nossos contemporâneos vêem, tanto assim que a ciência vai cada dia descobrindo novas maravilhas na natureza. Mas, em seguida, se recusam a ver um palmo mais à frente, isto é, se recusam a refletir sobre o que viram e perceberam pelos sentidos. Com efeito, embora Deus seja invisível aos nossos olhos, e portanto não O possamos alcançar diretamente pelos sentidos, pela maravilha de suas obras facilmente podemos deduzir que Ele existe. É a evidência (a maior de todas as certezas) inata que leva as crianças ou outras almas inocentes à espontânea convicção de que não pode existir efeito sem sua causa adequada. E, por aí, chegam á existência de Deus. Por isso, o mesmo São Paulo observa com razão que os incréus são culpados pela sua incredulidade: “ita ut sint inexcusabiles” (Rom. 1,20).

Sacramento da comunhão
A mesma consideração serve para avaliar os resultados de nossas obras e exercícios espirituais. Posto que Deus nos mandou fazer atos de penitência pelos nossos pecados e os dos outros, ainda que não tenhamos nenhum conhecimento sensível de que eles estão sendo agradáveis a Deus, podemos ter a certeza de que Ele os recebe favoravelmente, desde que os pratiquemos com a consciência reta (isto é, com o desejo de sermos agradáveis a Ele, e não por qualquer desejo de vanglória pessoal). Palavra de Cristo e ensinamento da Igreja.

Mais ainda. A penitência, e sobretudo a Sagrada Comunhão, quando praticadas por amor de Deus, dão glória a Ele e reparam os Sagrados Corações de Jesus e Maria, tão ofendidos. E esta é a finalidade maior, pois a criatura existe para glorificar o Criador. Por isso é que devemos louvar Maria, excelsa Mãe de Deus e Mãe dos homens.

No dia do Juízo Final, esse misterioso entrelaçamento espiritual que constitui a Comunhão dos Santos será patenteado diante de toda a humanidade reunida no Vale de Josafat. Então conheceremos com pormenores tudo quanto recebemos pelos méritos de outros, às vezes desconhecidos de nós nesta Terra, e ser-lhes-emos eternamente gratos. E também conheceremos quanto as nossas boas obras beneficiaram a terceiros que, por sua vez, nos agradecerão também por toda a eternidade o que fizemos por eles. E num júbilo eterno cantaremos o louvor de Deus, que misericordiosamente acolheu as nossas boas obras e nos purificou de nossos pecados pelos méritos infinitos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim seja!

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