Fevereiro de 1994
Realidade Virtual
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Discernindo, comentando, agindo

Realidade Virtual

Notícias sobre a "Realidade Virtual" começam a freqüentar os espaços da mídia brasileira, vindas sobretudo da Europa, Estados Unidos e Japão. E já nos anunciam que em breve será tão fácil penetrar nessa ... realidade irreal quanto é fácil hoje em dia assistir a um programa de televisão.

Imagine-se, caro leitor, sentado numa poltrona singular, que lembra uma cadeira elétrica. Colocam sobre sua cabeça um capacete do qual partem vários fios. Suas mãos são recobertas por luvas especiais e seus pés por botas estranhas. À frente de seus olhos são ajustados uns óculos esquisitos.

A cadeira é capaz de movimentos os mais inesperados, inclinando-se fortemente para os lados, para frente ou para trás e, conforme o caso, sacudindo-se ou virando de cabeça para baixo. Evidentemente você está bem amarrado nela para não cair.

Tudo está pronto para o início da sessão. É bom avisar que não se trata de uma sessão espírita, embora os resultados não sejam tão diferentes.

Produz-se uma concatenação de efeitos de computador com imagens de televisão. Aquela parafernália toda vai fazer com que seus sentidos sejam ativados de maneira a lhe dar a impressão de que você está imerso numa realidade que de fato não existe: a "Realidade Virtual".

Assim, por exemplo, você pode se encontrar de repente num deserto, andando em dorso de camelo, sentindo um calor tórrido e tendo sua pele chicoteada pelo vento quente saturado de areia, enquanto seus olhos são ofuscados pela intensa reverberação da luz do sol.

Ou então você pode estar numa festa no século XVIII, num palácio cheio de salões, deslocando-se agradavelmente de um lugar para outro ao som de música clássica, conversando com príncipes que o admiram e lhe servem champanhe e quitutes.

Ou ainda, se quiser, poderá participar ativamente de uma partida de futebol, sendo nela o principal jogador, ou de um massacre, de uma guerra, ou ecologicamente abraçar macacos na floresta. Também fazem parte do elenco cenas imorais, é claro, à vontade.

A "Realidade Virtual" é, no fundo, a fuga da realidade para o sonho, podendo a pessoa e!'colher entre os vários tipos de ilusão que a máquina lhe oferece. Fala-se em aplicações dela também para a engenharia, o exército, a medicina etc. Aqui nos ocupamos apenas do aspecto chamado "lúdico", o mais difundido.

* * *

Do ponto de vista técnico, a "Realidade Virtual" é indubitavelmente um grande avanço. Mas, e do ponto de vista humano?

Um dos temas-chave que tem dividido os homens em todos os tempos é a alternativa realidade-ilusão. A realidade, neste mundo marcado pelo pecado original, apresenta-se difícil, cheia de problemas e sofrimentos, e é necessário uma constante ascese para olhá-la de frente e tomá-la como ela é.

Foi por isso que Nosso Senhor Jesus Cristo disse: "Quem quiser vir após Mim, tome a sua Cruz e siga-Me" . Quão poucos, porém, costumam ser os amigos da Cruz! As ilusões são mais fáceis de seguir, pois elas dependem apenas de nossa imaginação, que voa ao impulso de paixões desregradas, seja o orgulho, a impureza, a preguiça, o que for.

Em épocas de racionalismo, a fuga da realidade levou homens como Spinoza, Kant e tantos outros a construir sistemas teórico-imaginativos opostos à filosofia realista de Santo Tomás de Aquino. Em épocas de utopismo, arrastou aos desvarios socialistas de Proudhon.

Depois, a própria razão foi ficando para trás, como elemento arcaico que mais atrapalhava do que ajudava a busca desenfreada do irreal. Veio o tempo das sensações, o cinema, a televisão, época que Paulo VI qualificou de "civilização da imagem" .

Mas a sensibilidade ainda tem um suporte humano que dificulta cortar inteiramente as amarras com o real. A partir do rock, a sensibilidade ficou para trás em favor de um irracional desatar dos instintos. E finalmente com as drogas, parceiras quase inseparáveis do rock, produziu-se o delírio puro sem mescla de realidade.

Nessa fuga para sempre mais longe da realidade, para sempre mais distante da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, a "Realidade Virtual" representa hoje um requinte. É a droga técnica, capaz de criar um mundo em que se vive apenas para a satisfação dos delírios mais inconfessados do egoísmo e da sensualidade.

"Chassez le naturel, il reviendra au galope" , diz um sábio dito francês. Expulsai o natural e ele voltará a. galope para vingar-se. Estamos assistindo ao impressionante espetáculo de um mundo que, na busca desesperada de subtrair-se à Cruz de Cristo, vai se lançando nos braços da irrealidade total, portando da loucura.

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