Fevereiro de 1994
Santuário de Bom Jesus da Lapa: espírito de penitência e oração
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Entrevista

Santuário de Bom Jesus da Lapa:
espírito de penitência e oração

Santuário de Bom Jesus da Lapa
Catolicismo tinha se proposto a publicar matéria sobre um dos santuários mais antigos de nossa Pátria, o qual sempre foi, de modo inexplicável, ignorado pelos órgãos da mídia, sendo relativamente pouco conhecido mesmo entre os católicos: o de Bom Jesus da Lapa, na Bahia.

O Santuário de Aparecida do Norte (SP), onde se venera a milagrosa imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida –– Padroeira nacional –– e o Santuário de Nossa Senhora de Nazaré, em Belém, o principal do norte do País, são os mais conhecidos, atraindo anualmente milhões de peregrinos e devotos provenientes de todo o Brasil.

Dentre os demais santuários pátrios, seria natural que o mais antigo –– ao que tudo indica o de Bom Jesus da Lapa, cuja fundação data de 1691 –– fosse bastante conhecido, em âmbito nacional. Tal renomada explicar-se-ia não só por sua antiguidade, como também por seu extraordinário histórico e pelo impressionante número de romeiros, pessoas em geral de nível modesto, oriundas especialmente do interior baiano e de estados vizinhos, imbuídas de profundo espírito religioso. Anualmente tem sido atraídos àquele Santuário, às margens do rio São Francisco, 1 milhão de devotos, sendo que 30 mil somente no dia de sua festa,

Todas essas razões pesavam para que Catolicismo –– a revista das verdades e notícias esquecidas –– se empenhasse em abordar semelhante assunto, tão grato aos verdadeiros católicos tão pouco atraente a um tipo de mídia, engajada em explorar temas sensacionalistas, quando não dissolventes do ponto de vista moral e cultural.

Tendo em vista o acima exposto, é compreensível a enorme satisfação que causou à direção de Catolicismo tomar conhecimento da viagem empreendida há pouco àquele santuário pelo Pe. Olavo Pires Trindade, residente em Miracema (RJ), grande amigo desta revista. De passagem por São Paulo, convidamo-lo a conceder a Catolicismo uma entrevista a respeito do que ele viu e sentiu em Bom Jesus da Lapa.

O zeloso sacerdote aquiesceu amavelmente à nossa solicitação, comparecendo à redação da revista, à rua Martim Francisco, no bairro paulistano de Santa Cecília, onde respondeu a todas as questões propostas pelo repórter.


CATOLICISMO - V. Revma. já conhecia a história do Santuário de Bom Jesus da Lapa antes de visitá-lo?
Revmo. Pe. Olavo Pires Trindade
- Tinha ouvido alusões a esse santuário da parte de romeiros de Minas Gerais, que se referiam a ele com admiração. Mas não podia imaginar que, num interior tão longínquo do Brasil, pudesse haver um local de graças de tal modo extraordinário. Mais um sinal da munificência particular da Providência Divina, como que a vigiar os rincões de nossa grande Nação, e fazer surgir, na hora aprazada, fontes de graças para irradiar.a Fé e preservar os costumes, dando continuidade às sementes abençoadas aqui lançadas por ocasião do Descobrimento, com a Primeira Missa, e depois, com a Evangelização empreendida por Nóbrega e pelo Bem-aventurado Anchieta.


CATOLICISMO - Há alguma obra conceituada que aborde a história do Santuário?
Pe. Olavo
- Fiquei conhecendo a história do santuário de Bom Jesus da Lapa através de duas obras: Resenha,Histórica de Bom Jesus da Lapa, de Mons. Turíbio Vilanova Segura (sacerdote espanhol, capelão e vigário do santuário de 1933 a 1956, Gráfica Bom Jesus, Bom Jesus da Lapa, Bahia, 1987, 53 edição); e Santuário de Bom Jesus da Lapa, do Pe. Lucas Kocik, CSSR (mesma editora, 1988, 63 edição).

Vários escritores e jornalistas brasileiros referem-se a esse santuário, dentre os quais Pedro Calmon, Afrânio Peixoto, Santa Rita Durão em seu poema Caramuru. Todos se expressam com admiração ao escreverem sobre o santuário. Mas há duas fontes fundamentais sobre a vida do fundador do santuário, Francisco Mendonça Mar, que datam de sua época: Santuário Mariano, de Frei Agostinho de Santa Maria, publicado em 1722, que colheu os dados biográficos daquele fundador com o então Arcebispo da Bahia, D. Sebastião Monteiro da Vide, do Conselho de Sua Majestade, o Rei de Portugal. Foi esse Prelado que ordenou sacerdote o ermitão Francisco Mendonça Mar e que aprovou sua vida e atividades apostólicas; e História da América Portuguesa, de Sebastião da Rocha Pitta, editada em 1730.


CATOLICISMO - Pode-se estabelecer uma analogia entre Francisco Mendonça Mar e os cenobitas da antiga Tebaida do Egito, como São Paulo Eremita e Santo Antão?
Pe. Olavo
- Quando li o livro de Mons. Turíbio narrando a vida do ermitão, que posteriormente passou a se chamar Pe. Francisco da Soledade, fui dominado por grande entusiasmo e surpresa, pois não podia imaginar, em nosso Brasil, a existência de um homem tão heroicamente penitente, que praticou uma austeridade de vida tão radical, e cujo grande arrojo impeliu-o a varar sertões imensos - 200 léguas - sob sol inclemente, arrostando a chuva, em meio a índios dos mais bravios, de feras, de cobras; um ermitão que jejuava ou comia apenas raízes, para buscar a Deus na solidão, e nela, levar uma vida de penitência e oração. Uma inspiração divina o fez caminhar meses e meses, conduzindo-o até a Lapa do rio São Francisco, após rejeitar outros recantos apropriados, entre os quais a margem do rio Paraguassu, onde deixou um companheiro de conversão, que construiu ali sua ermida.

Por isso, não vejo nenhum exagero por parte de Mons. Turíbio Vilanova Segura, seu biógrafo mais atual, quando afirma que Francisco de Mendonça Mar - chamado depois da Ordenação Pe. Francisco da Soledade, em honra de Nossa Senhora da Soledade - "renovou na solidão da gruta de Bom Jesus da Lapa as encantadoras cenas dos cenobitas do Antigo Egito e da Tebaida: São Paulo, primeiro ermitão, Santo Antão, Santo Hilário, São Pacomio, etc" (p. 102).

Uma outra pergunta aflora sôfrega em nosso espírito: por que não se difunde isso pelo Brasil? Por que se escondem essas maravilhas?


CATOLICISMO - Conservam-se ainda hoje no Santuário objetos de culto da época de sua fundação?
Pe. Olavo
- Francisco de Mendonça Mar, quando distribuiu seus bens aos pobres, em 1691, e se embrenhou pelo sertão baiano, levou consigo uma imagem de Cristo crucificado, do tamanho de três palmos, que foi colocada num altar da capela-mor da Gruta da Lapa, local onde o ermitão se estabeleceu. Junto a esse crucifixo - cognominado o "Bom Jesus" -, Francisco de Mendonça Mar, "o Monge da Gruta" , expôs à veneração dos primeiros devotos, que começaram a surgir, uma imagem de Nossa Senhora da Soledade

As duas imagens - pólos de intensa devoção popular durante mais de dois séculos - infelizmente foram consumidas pelas chamas, por ocasião do incêndio ocorrido na Gruta, na noite de 10 de maio de 1903. As causas deste são desconhecidas. Supõe-se, contudo, que uma vela deixada acesa no depósito de cera, localizado atrás do altar-mor do santuário, pode ter dado origem ao devastador incêndio, que destruiu altares, imagens, ornamentos, candelabros de prata e vasos sagrados.


CATOLICISMO - Qual a impressão que V. Revma. teve ao entrar na Gruta da Lapa?
Pe. Olavo
- A gruta é realmente uma maravilha da natureza, como que preparada pela Providência Divina para se tornar um áspero e austero êremo e santuário recolhido. O colorido variado das rochas é muito bonito. Apesar da aspereza e irregularidade das conformações rochosas, há uma certa simetria entre as colunas naturais, que sustentam o teto de pedra, e, sobretudo, entre as estalactites existentes nas concavidades onde foram construídos vários altares. O piso de ladrilho, os bancos, os altares, com os seus retábulos e outros entalhes dourados, fruto de uma arte popular, completam a obra da natureza, criando um ambiente propício para a oração.

Mas, o que mais chama a atenção é tanto o clima de bênçãos, de recolhimento, que atrai o visitante e o convida a permanecer ali, quanto o fervor dos romeiros.


CATOLICISMO - O Santuário exerceu alguma influência nos séculos da colonização do País?
Pe. Olavo
- Segundo o historiador Pedro Calmon, Bom Jesus da Lapa tornou-se uma "estação de viajantes, os que iam e os que voltavam [pelo rio São Francisco]; os primeiros leves de mão para ganhar a vida, os outros de surrão pesado, da vida ganha, se alternavam à porta daquele santuário ciclópico, cujas estalactites têm a forma de fabulosos capitéis".

Caçadores de ouro, mascates e vaqueiros faziam pouso no santuário, por espírito de devoção, para rezar, fazer promessas ou render graças junto às imagens do Bom Jesus e de Nossa Senhora da Soledade. Bandeirantes paulistas, como João Amaro Maciel, Bartolomeu Bueno Filho, e depois, o célebre Matias Cardoso, descendo o São Francisco para lutar contra o quilombo dos Palmares ou para sujeitar índios sublevados, depositavam no chão suas armas, a fim de rezarem no Santuário de mãos postas. Todos ficaram tocados pela graça e pelas virtudes do "Monge da Gruta"

O rio São Francisco era então o traço de união dos empreendimentos de baianos, mineiros e paulistas, os três tipos de brasileiros que durante o período colonial mais riquezas descobriram e mais terras desbravaram.

O santuário de Bom Jesus da Lapa, construído às margens do rio São Francisco, é exatamente eqüidistante da nascente e da foz deste, bem como eqüidistante do Rio, ao sul, e de Recife, ao norte; de São Paulo, ao sul, e de Fortaleza, ao norte.


CATOLICISMO - Qual o espírito que predomina entre os romeiros? Pareceu a V. Revma. haver verdadeira piedade e devoção mariana nas pessoas que visitam o Santuário?
Pe. Olavo
- Em nenhum outro santuário ou igreja vi tantos fiéis pedindo para se confessar. Quando surgiu um sacerdote que desejava atendê-los, formou-se uma fila enorme.

Também, em nenhum outro local observei que um sacerdote, com batina tradicional, inspirasse tanta confiança. Parece que os romeiros o tinham conhecido desde sempre. Eles são simples, rudes, mas também alegres, joviais. Falam sem embaraço. Sua simplicidade na devoção, sua preservação de espírito e de costumes causou-me a impressão de ainda estar na década de 1950, no interior do Paraná, quando eu ajudava a Missa. O espírito revolucionário neles ainda não avançou tanto quanto em outros lugares, embora nas gerações mais novas já se note sua ação deletéria, como, por exemplo, nas modas.


CATOLICISMO - Pode-se dizer que em Bom Jesus da Lapa encontra-se mais autêntico espírito religioso do que em Aparecida?
Pe. Olavo
- Sem dúvida. Apesar de o Santuário de Aparecida ser um santuário nacional, centro religioso de todo o Brasil e dos mais concorridos do mundo, para lá confluem algumas romarias fervorosas, que percorrem centenas de quilômetros a pé. No entanto, em Bom Jesus da Lapa nota-se muito mais fervor e devoção. Os devotos rezam longamente, sem pressa. Fazem sacrifícios enormes, como, por exemplo, a subida ao alto da gruta, situada a uma distância de 60 metros do solo, até o Cruzeiro, edificado no cimo da gruta.

De uma certa altura em diante, nessa ascensão, tem-se que pisar em pedras irregulares, redondas, sendo algumas delas azuis, muito bonitas, assemelhando-se a ágatas. Ao longo dessa subida, alguns mendigos pedem esmolas, por amor ao "Bom Jesus" , mediante versos cantados. Recolhida a esmola, eles cantam em agradecimento, implorando graças e bênçãos para o doador. Vi senhoras bem idosas, doentes, mães com filhos nos braços e arrastando outros pela mão, subindo, com muita dificuldade, mas com bastante disposição, animavam-se umas às outras para chegarem até o Cruzeiro, ao lado do qual existe um conjunto de grandes imagens de cimento, formando um Calvário.

O espírito que predomina entre os romeiros é de grande fervor e de uma devoção abnegada. Eles rezam alto, em comum, e cantam, como se não percebessem mais nada a seu redor, a não ser o Bom Jesus. Muitos percorrem longas distâncias, em caminhões, arrostando três ou quatro dias de penosa viagem.

Há ainda algumas romarias de pedestres. Dir-se-ia que eles não se dão conta dos sacrifícios que fazem, como se fossem coisas de rotina. Estão sempre alegres, satisfeitos! Permanecem horas rezando. Ouvi uma moça dizer: "Cheguei às sete e saí às onze. Por mim ficaria mais!"

Os peregrinos rezam o terço, intercalado com cantos religiosos sertanejos, bem diferentes dos entoados no sul do País. Eles cantam a plenos pulmões e com os olhos incendiados.

Sobretudo os romeiros usam uma espécie de uniforme: vestido todo branco, bem comprido, além de chapéu branco, acima do qual figura uma fita azul. Perguntei a uma senhora se aquele era um uniforme de alguma irmandade; respondeu-me que era uma veste em honra do Bom Jesus. Diretamente indaguei se não entrava naquilo algo de superstição, à semelhança do candomblé. A pergunta era supérflua, devido ao bom espírito que ali reinava em tudo. Meu intuito, porém, era observar a reação que a pergunta causaria. A romeira ergueu os braços para cima e exclamou chocada: "Meu Deus'"


CATOLICISMO - No santuário há ex-votos e lembranças que indicam a ocorrência de milagres e graças obtidas por intercessão do Bom Jesus da Lapa?
Pe. Olavo
- Infelizmente não pude visitar a chamada Sala dos Milagres, separada da Gruta principal onde se encontra o Santuário por um pequeno corredor. Contudo, meu companheiro de viagem, Sr. Hailton Ferreira da Silva, cooperador da TFP residente em Bom Jesus do Itabapoana (RJ), pôde observar, através das grades que delimitam a mencionada sala, grande número de objetos que os devotos lá depositam. Mons. Turíbio Vilanova Segura, em sua já mencionada obra, afirma que naquele recinto podem ver-se "esculturas rústicas, populares, de quase todos os membros humanos, caixões funerários e mortalhas inúmeras", acrescentando a isso uma citação do livro Os Romeiros de Diocleciano Martins Oliveira: "fotografias de devotos agradecidos ... muletas de paralíticos que andaram, olhos de vidro lembrando cegos que enxergaram, balas, armas, quépis ou outras peças de equipamento militar de venturosos que voltaram dos campos de batalha, sapatinhos, camisolinhas de crianças batizadas e salvas de moléstias infantis".

Colhi também mais uma informação: é tão grande e ininterrupto o número desses ex-votos e de lembranças, que torna-se necessário recolhê-los em outro recinto, depois de algum tempo, a fim de permitir que outros, mais recentes, sejam expostos na Sala dos Milagres.

Não me consta que haja qualquer tipo de análise científica desses casos extraordinários e de graças recebidas. Como, porém, seria desejável que houvesse em Bom Jesus da Lapa, corno também em outros santuários, um bureau médico, a exemplo do que analisa as curas prodigiosas ocorridas em Lourdes.

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