Junho de 2013
Estará nascendo a Contra-Revolução Francesa?
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Internacional

Estará nascendo a Contra-Revolução Francesa?

Um acontecimento fascinante de alcance mundial

O presidente da Assembleia, o socialista Claude Bartolone, fora de si, ordenou aos gritos: "Retirem daqui esses inimigos da democracia(sic), eles não têm direito de estar aqui!"

Alejandro Ezcurra Naón

"Não toques no casamento, ocupa-te do desemprego"

 Ainda há pouco, a Revolução(*) que devasta o Ocidente cristão avançava com suma cautela, evitando o quanto possível reações na população que escapassem a seu controle e comprometessem o êxito de sua marcha rumo à utopia igualitária e anárquica.

Mas agora essa cautela parece ter ficado para trás: à medida que uma maré conservadora vai se consolidando por todas partes, as forças revolucionárias parecem ter optado por atropelar sem comedimento a opinião pública, procurando impor-se através da via dos fatos consumados.

É o que vemos em países como Venezuela, Argentina, Brasil, Colômbia ou Uruguai, cujos governos e parlamentos implementam leis e políticas anticristãs cada vez mais despóticas, sobretudo em matéria de família, alvo central da atual Revolução cultural. E também em temas como o cerceamento da propriedade privada, as “negociações de paz” com as FARC na Colômbia etc. E o fazem passando por cima do sentimento das maiorias e do próprio Estado de Direito.

  

Socialistas, os “vitoriosos”... vencidos

O caso de maior ressonância desse atropelo se deu em fins de abril na França, com a aprovação de um projeto legislativo de “casamento” entre pessoas do mesmo sexo, impulsionado pelo governo socialista. As pesquisas revelavam que a maioria dos franceses se opunha a essa absurda paródia matrimonial. E as impressionantes mobilizações de protesto realizadas em Paris nos dias 13 de janeiro e 24 de março p.p. (a última das quais com 1,4 milhão de pessoas, a maior manifestação pública da história da França) e em muitas outras cidades, constituíram uma imagem visível dessa tendência.

Conscientes da falta de apoio na opinião pública e para evitar que a recusa desta ao projeto crescesse até se tornar incontenível, o governo socialista e a Assembleia Nacional dominada pela esquerda optaram cinicamente por antecipar de um mês a votação parlamentar, prevista para fins de maio. Assim, no dia 23 de abril o projeto foi votado e aprovado, diante do protesto de uma multidão calculada em 200 mil pessoas.

15 mil prefeitos declararam sua negativa formal de celebrar em suas jurisdições "casamentos" civis entre pessoas do mesmo sexo

Enquanto os deputados esquerdistas festejavam a votação com aplausos rítmicos e gritos de “igualdade! Igualdade”, das galerias um grupo de jovens interrompeu o sabbat revolucionário desfraldando uma bandeira branca com a palavra “Referendo”.

Então o presidente da Assembleia, o socialista Claude Bartolone, fora de si, ordenou aos gritos: “Retirem daqui esses inimigos da democracia (sic), eles não têm o direito de estar aqui!”(1).  Como se vê, a “democracia” socialista consiste em reduzir ao silêncio os que pedem a democracia de verdade.

Essa bofetada contra o sentimento popular, por pura e cega obstinação ideológica, custou caro à esquerda. Os socialistas saíram vencidos de sua “vitória”. A aprovação ao governo Hollande despencou de modo “inexorável”:em abril caiu até 25%, “o índice mais baixo jamais alcançado por um presidente na V República”, enquanto a recusa de sua gestão subiu até 74%.(2), (3)

 

Um novo e histórico fenômeno de opinião

Esses números não indicam apenas uma conjuntura política. Eles correspondem a um novo e extraordinário fenômeno de opinião, que toca no fundo dos espíritos e se estende por toda a França. É um estado de resistência ativa à ofensiva revolucionária marcado por quatro notas inéditas: 1) uma raiz ideológico-religiosa; 2) seus protagonistas são jovens de ambos os sexos, casados e solteiros; 3) sua estratégia é inovadora e eficiente; 4) tem todas as características de serirreversível.

Nas semanas prévias à aprovação do projeto ocorreram multitudinárias manifestações de recusa em cidades de toda a França, as mais importantes das quais foram as já mencionadas de Paris. Outras manifestações estão sendo anunciadas e prometem grande afluxo de participantes.

Ao mesmo tempo em que essas demonstrações se desenrolavam, as ruas de Paris e das principais cidades do interior eram cenários de constantes manifestações-relâmpago de grupos, cada qual com uma vintena de jovens, que deixavam a polícia desconcertada. Sua estratégia consistia em ocupar diferentes pontos da cidade, interrompendo durante alguns minutos o trânsito e proferindo vigorosamente ditos chibantes,como este, dirigido a Hollande: “Touche pas au mariage,/ occupes du chômage” (“não toques no casamento, ocupa-te do desemprego”). Quando a polícia chegava, eles se dispersavam velozmente, para reaparecerem depois em outro ponto combinado pelo celular. Alguns desses grupos eram de ciclistas, que convergiam a um lugar pré-determinado – por exemplo, na Ponte dos Inválidos –, sentavam-se na pista, faziam uma barreira com suas bicicletas, e depois de executar suas proclamações e cânticos, partiam, às vezes aplaudidos pelos motoristas.

Com a polícia sobrecarregada por esse “jogo de esconde-esconde” de vários grupos atuando simultaneamente em Paris, Manuel Valls, ministro do Interior, ordenou dispersá-los com abundantes cargas de gás lacrimogêneo. Represália inútil: sua ordem foi rapidamente ridicularizada, e ele passou a ser chamado de “Manuel Gas”.

Em matéria de estratégias inéditas, cabe destacar os bem-organizados “comitês de recepção” ao presidente Hollande e a seus ministros. Em todos os atos públicos a que algum deles assistia, grupos de jovens os recebiam com canções, vaias e slogans muito bem escolhidos — a charmosa e fulgurante chispa francesa não podia estar ausente —, a ponto de eles, humilhados e atemorizados, se sentirem obrigados a cancelar vários de seus compromissos públicos.

Também sit-in noturnos de protesto – vigílias com velas, cânticos religiosos ou patrióticos e recitação do Rosário – são realizados durante algumas horas em lugares simbólicos, como os jardins de Luxemburgo ou do Louvre. Tais ações continuam até hoje, embora em muitos casos sejam duramente reprimidas pela CRS (tropa de choque). O saldo dessa repressão tem sido centenas de manifestantes presos diariamente, vários deles feridos (inclusive sacerdotes e crianças), só pelo fato de protestarem de modo pacífico. Indignado por esse abuso da polícia, Tugdual Derville, um dos principais porta-vozes dos protestos, desafiou: “Quantos carros foram incendiados? Quantos vidros foram quebrados? Nenhum!”. A própria polícia começou a expressar mal-estar, tendo alguns de seus membros felicitado os estudantes por sua valentia; lamentavam prendê-los e queixavam-se de que estavam sendo utilizados com fins políticos: “Sentimos vergonha de fazer o que estamos fazendo”.(4)

Outra estratégia publicitária é o chamado “balcão para todos”, aplicado em várias cidades: nas sacadas das casas pendem uma infinidade de faixas e bandeiras iguais à dos manifestantes que passam pelas ruas,(5) formando um vistoso espetáculo.

Seria longo referir o extraordinário ímpeto de uma população que se sente maltratada por um poder político que, a menos de um ano de ter assumido, se divorciou tão rápida e drasticamente dos cidadãos, ignorando suas expectativas e reivindicações. Um bom “sismógrafo” para se medir esse estado de resistência é o fato de 15 mil prefeitos (sim, exatamente 15 mil!) terem declarado sua negativa formal de celebrar em suas jurisdições “casamentos” civis entre pessoas do mesmo sexo. O próprio jornal “Le Monde”, favorável ao governo, comenta que quem quiser conhecer até onde vai o país, basta colocar em alguma busca da Internet duas palavras: “Hollande demissão”.(6) O comentário mais difundido é: a esquerda perdeu a juventude, perdeu a rua, perdeu o povo... e perdeu a bússola.

 

Os católicos na vanguarda da “direitização” da sociedade

Embora a nefanda lei tenha sido aprovada, a população não se dá por vencida e os protestos redobram. Inclusive agora, tendo os estudantes veillants (participantes das vigílias de protesto) entrado no período de provas, suas mães os substituem. São por isso chamadas “mères veilleuses” (mães em vigília), que por um jogo de palavras o público converte em “merveilleuses” (maravilhosas).(7)

Mais de um milhão de pessoas protestam nas ruas de Paris contra a aprovação do "casamento homossexual"

A participação de famílias nos protestos indica que a sociedade como um todo se sente envolvida neles e que o francês médio passou, em muito larga medida, do centro para a direita: estamos perante “a emergência de uma geração conservadora orgulhosa de seus valores, que está encantada por difundi-los ruidosamente na rua... Abundam os grupos de famílias jovens, católicas na sua maioria, acompanhadas de bandos de jovens encantados por protestar”.(8) São setores que nunca antes foram contestatários, mas que agora “descobrem o perfume particular da insurreição”.(9)

Nessa frente, a presença católica é determinante. E isso tem um alcance incalculável. O site “Boulevard Voltaire” traça o perfil dos contestatários: “Estes resistentes são... católicos! [...] Eles começam a compreender o fracasso de um liberalismo que enlouqueceu; procuram criar outra coisa, e não cristianizar o socialismo. Trata-se de famílias e, sobretudo, de jovens” que “saíram à rua para dizer ‘basta’ aos destruidores da sociedade”.(10) Completa outro site: são pessoas “de alto nível espiritual e dogmático, seguros de sua fé e de seu sangue, pelo qual correm 1500 anos de França, e conscientes dos deveres que esta herança contém”.(11). Um dos jovens “em vigília” explica por que estão ali: “Somos a luz e o sal do mundo: somos católicos franceses e nada poderá nos fazer vacilar”.(12)

A revista do Episcopado francês “La Croix” — cuja posição no caso é ambígua e concessiva – se alarma com a polarização criada. Ela explica que, para a esquerda, “retroceder é impossível, seria renegar a si mesma”; e acrescenta que o fato de os católicos constituírem a “maioria hostil ao projeto”, o vigor de sua resistência faz com que se fale inclusive de “ameaça de uma ‘guerra civil’”. Comentário impensável até muito pouco tempo atrás.(13)

 

Um “despertar” contra-revolucionário talvez irreversível

Esse apaixonante fenômeno de opinião pública tem a França como ponta-de-lança, mas meios de (des)informação o escondem quanto podem. Assim o define o conhecido jornalista Ivan Roufol:

“A esquerda esfrega os olhos. Ela foi despojada do que lhe era mais querido! Ela não viu chegar, com efeito, a nova indignação popular. Ela, que tanto adulou a juventude, descobre estupefata que esses indignados lhe voltam as costas: milhares de jovens desafiam o poder estabelecido, recusando seu projeto de ‘casamento’ e de adoção para os homossexuais”.[...]

Por outro lado, a esquerda não compreende o que acontece: “Ela só vê nos manifestantes ‘extremistas’, ‘ultras’, ‘exaltados’, ‘homofóbicos’ [...]. Essa grosseira demonização deixa de lado o essencial: o que está chegando é o despertar de uma juventude [...] que segue uma direção oposta à da herança da velha sociedade que chega a seu fim: a dos adeptos de maio de 1968 e de sua ideologia relativista do ‘politicamente correto’”.

Daquele legado revolucionário esses jovens “recusam tudo, a começar por seu desprezo pela família, pela nação e pela cultura. Há já vários anos que as pesquisas de opinião identificaram esse novo perfil da juventude, que se inscreve em uma reação a 40 anos de desastres ideológicos: ela quer doravante escrever uma nova História”.(14)

O ciclo da Revolução Francesa – que se tentou revigorar e acrescer em maio de 1968 – esgotou e a “nova história”, que agora começa a ser escrita, aparece como um acontecimento exatamente oposto: o nascimento de uma Contra-Revolução Francesa dotada de um formidável potencial de propagação decorrente da irradiação cultural que a França conserva até hoje.

Se esses resistentes atuarem com convicção e perseverança, pode-se esperar desse movimento o que Plinio Corrêa de Oliveira observou: “Quando os homens resolvem cooperar com a graça de Deus, são as maravilhas da História que assim se operam: é a conversão do Império Romano, é a formação da Idade Média, é a reconquista da Espanha a partir de Covadonga, são todos esses acontecimentos que se dão como fruto das grandes ressurreições de alma de que os povos são também susceptíveis. Ressurreições invencíveis, porque não há nada que derrote um povo virtuoso e que verdadeiramente ame a Deus”.(15)

 

 

*     *     *

(*) Empregamos o termo “Revolução” no sentido que lhe dá o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em seu ensaio Revolução e Contra-Revolução, de processo histórico de destruição do Ocidente cristão.

 

1. http://www.lifesitenews.com/news/france-passes-gay-marriage

2.www.lexpress.fr/actualite/politique/la-cote-de-popularite-de-hollande-poursuit-son-inexorable-chute_1232729.html

3.www.franceinfo.fr/politique/francois-hollande-au-plus-bas-dans-les-sondages-960481-2013-04-21

4. www.nonaumariagehomo.fr/spip.php?article124

5.Ver por ejemplo: http://www.facebook.com/pages/Balcon-Pour-Tous/573556362675102?ref=stream

6.http://www.lemonde.fr/politique/article/2013/03/30/le-web-se-dechaine-contre-hollandouille-ier_3150860_823448.html

7.http://www.lamanifpourtous.fr/fr/toutes-les-actualites/248-merveilleuses-meres-veilleuses

8.www.abc.es/internacional/20130421/abci-manifestacion-anti-matrimonio-gay-francia-201304211856.html

9.www.mairespourlenfance.fr/les-meres-veilleuses-une-merveille-saluee-par-les-maires-pour-lenfance

10. www.bvoltaire.fr/francoisteutsch/le-peuple-catholique-sest-leve-et-il-a-de-beaux-restes,18934

11. www.gloria.tv/?media=428401&postings

12. http://www.ndf.fr/poing-de-vue/19-04-2013/une-soiree-en-hollandie

13. Bruno Frappat,Sommes-nous devenus fous? (“¿Nos hemos vuelto locos?”), “La Croix” 19-4-2013.

14.http://video.lefigaro.fr/figaro/video/rioufol-la-jeunesse-veut-ecrire-une-nouvelle-histoire/2310117112001/

15. Plinio Corrêa de Oliveira, Revolución y Contra Revolución, Ed. Tradición y Acción por un Perú Mayor, Lima 2005, Parte II, Cap. IX, 3.

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