Novembro de 2005
Reeleição na Colômbia — um clamor nacional
Colômbia

Reeleição na Colômbia — um clamor nacional

No início de outubro p.p., quando a Corte Constitucional colombiana deveria julgar se a reeleição presidencial seria possível, a Sociedade Tradición y Acción publicou manifesto (cuja transcrição segue abaixo) no jornal “El Tiempo”, o principal do país. O documento faz um apelo ao alto Tribunal para não interferir nos veementes desejos da opinião pública, de que o Chefe de Estado possa ser novamente eleito. Três semanas depois, a Corte aprovava tal possibilidade, eliminando a incerteza reinante. Se o apelo fosse rejeitado, a insegurança cresceria rapidamente.

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Que a sentença da Corte Constitucional não frustre
as justas aspirações do povo colombiano


Fac simile do manifesto publicado em "El Tiempo"
Nos próximos dias, a Corte Constitucional deve reunir-se em sessão plenária para decidir em Direito sobre a reforma à Carta aprovada pelo Congresso na legislatura passada. Trata-se da reeleição presidencial, um tema que gerou não poucas polêmicas entre seus defensores e detratores, e que é da maior transcendência para o futuro de nossa Pátria.

A Sociedad Colombiana Tradición y Acción, como entidade cívica inspirada na doutrina católica, que analisou atentamente todo o processo sócio-político da Colômbia nos últimos 30 anos — primeiramente como Tradición, Familia y Propiedad – TFP, e agora como Tradición y Acción — não pode deixar passar este momento histórico sem fazer um pronunciamento público.

A Colômbia viveu duas décadas de caos

A partir dos anos 80, a Colômbia veio se convertendo em um dos paradigmas mundiais do caos. A guerrilha marxista e o narcotráfico, numa guerra sem quartel contra a sociedade e o Estado, demoliram a ordem jurídica, fazendo de nosso país um dos mais violentos e perigosos do mundo. Incontáveis cidadãos honestos e trabalhadores foram literalmente massacrados por hordas assassinas, com dezenas de milhares de mortes por ano.

Centenas de pequenos povoados foram arrasados pela ação desses grupos criminosos. O seqüestro alcançou níveis escandalosos, com mais de duas mil vítimas por ano. A extorsão se apoderou dos campos e das cidades, levando incontáveis cidadãos honestos a se esconder ou ir para o exterior, enquanto bandidos e assassinos campeavam desafiantes por toda parte.

Claudicando ante o crime, não se consegue a paz

Como pôde acontecer tudo isso, à vista de todo o país, sem que ninguém o impedisse? — Essa é uma das grandes interrogações que a História deverá responder. Durante duas décadas, muitos de nossos dirigentes políticos preferiram claudicar diante dos agressores, em vez de enfrentá-los de acordo com a Lei. Entregou-se tudo ante as ameaças dos subversivos, alegando que assim se obteria a paz. E cada dia que passava, a paz estava mais distante, enquanto a extorsão e o crime dominavam todos os ambientes da nação.

O presidente Álvaro Uribe (primeiro plano) interveio ante a Corte Constitucional para defender os critérios do Governo
O sangue de muitos inocentes foi derramado caudalosamente, demonstrando que a paz não se obtém claudicando ante os criminosos, mas lutando com heroísmo na defesa dos princípios e instituições ameaçados. Bispos, magistrados, juízes, ministros, governadores, prefeitos, generais e candidatos presidenciais caíram abatidos por causa do erro de que através da transigência se obtém a pacificação dos violentos. Mas, apesar das evidências, os que detinham os cargos de maior responsabilidade continuavam impondo à opinião pública suas capitulações, fazendo o impossível para que continuasse o processo de demolição da nação colombiana.

Uma advertência profética

Em novembro de 1982, quando começava o carrossel de capitulações, um documento anunciou o que haveria de vir. A Sociedad Colombiana de Defensa de la Tradición, Familia y Propiedad – TFP — entidade que já não existe, tendo alguns de seus integrantes fundado Tradición y Acción — publicou um manifesto nos nove principais jornais do país: “Anistia aos guerrilheiros: Medida de pacificação, ou transferência da guerrilha do fundo das selvas para o coração das cidades?” (cfr. “El Tiempo”, 9-11-1982). Essa análise, pouco ouvida na ocasião, foi uma denúncia profética do que sucederia durante os 20 anos seguintes, caso o país não reagisse ao processo de falsa pacificação que o conduzia ao desastre.

Quando os pertinazes disparates dos claudicadores chegaram ao extremo de entregar à subversão partes importantes de nosso território, começou finalmente uma reação vigorosa e salvadora. A opinião pública, saturada de tantas mentiras, sofismas e crimes, tornou-se implacável na censura contra todos aqueles que propiciaram a entrega da Colômbia aos grupos ilegais.

Essa sã reação levou o Dr. Álvaro Uribe à Presidência e, uma vez no Poder, seu combate frontal a todos esses males mudou completamente a fisionomia de nossa Pátria. Hoje, depois de três anos de governo, os papéis se inverteram. Os bandidos voltaram para as selvas ou saíram do país, tendo de se manter escondidos ou trânsfugas para não serem capturados ou mortos; e os colombianos honestos já podem sair para o campo, pelas estradas, mover-se e trabalhar livremente, dentro de um processo de recuperação notável que apenas começa, e no qual ainda falta muito caminho para percorrer.

Apoio ou recusa a um clamor nacional

Presidente colombiano Álvaro Uribe
O que então está em jogo, com a decisão a ser tomada nos próximos dias pela Corte Constitucional, não é só se o povo colombiano poderá ou não reeleger o atual Presidente por outros quatro anos. Decide-se também algo muito mais transcendental: se se reconhece a transformação profunda de nossa Pátria, que exige dos governantes, dos líderes espirituais, das autoridades civis e militares, da Polícia e dos órgãos de segurança, dos juízes e dos magistrados, dos congressistas, dos deputados e dos vereadores, e de todos que têm em suas mãos os destinos da nação, uma atitude firme, intrépida e sem concessões em face das minorias criminosas que nos impuseram o caos durante 20 anos.

Ninguém pode negar que no plano político essa luta foi assumida pelo Presidente da República, e essa é a razão pela qual goza de tão altos índices de popularidade. Ele obteve resultados notáveis em recuperar a confiança da população, sem a qual uma nação não progride, mas se empobrece, arruinando as fontes de emprego e de bem-estar do país. Truncar essa obra na metade do caminho, quando a imensa maioria dos colombianos a apóia com vigor e entusiasmo, equivale a decapitar as aspirações mais profundas da Colômbia e a recomeçar o funesto processo de demolição nacional.

Essa é a razão pela qual, entre os que recusam a reeleição presidencial, encontram-se muitos dos que foram indolentes ou cúmplices quando a Pátria estava sendo destruída. Por isso fazemos um apelo público à reflexão, esperando que a Corte Constitucional saiba interpretar as mais legítimas e nobres aspirações do povo colombiano, no momento de tomar uma decisão de tanta transcendência.

A opinião pública não poderá ser emudecida em um assunto desta importância, pois todas as pesquisas que auscultaram o sentir da Colômbia indicam que esta deseja de modo categórico a reeleição, precisamente porque anseia a verdadeira pacificação, com base no império da Moral e do Direito. Isto não deve ser ignorado pela honrada Corte Constitucional, pois fazê-lo desvirtuaria a própria essência de nossas instituições e relançaria o país no abismo.

Como católicos, imploramos a intercessão do Sagrado Coração de Jesus, a Quem nossa Pátria está consagrada há quase um século, para que ilumine com sua Sabedoria e Prudência aqueles que têm em mãos um assunto de tanta importância. Da resposta que eles emitam proximamente, depende que na Colômbia continue sendo restaurada a vigência dos princípios da civilização cristã, ou que de novo seja subjugada pelos partidários do crime, graças à indolência de numerosos homens públicos.

Sociedad Colombiana Tradición y Acción