Capa - 1

Foto: Marcello Casal Jr/ABr

RIO+20 = TENTATIVA FRACASSADA DE LEVAR ADIANTE A REVOLUÇÃO VERDE

Reunidos na Cidade Maravilhosa, os ativistas do ambientalismo esperavam dar importante passo para a constituição de um governo mundial verde e a implantação de um miserabilismo tribalista. Devido ao descaso da opinião pública, semearam fracasso. Perigos, porém, permanecem para a civilização ocidental.

Daniel F.S. Martins

Realizou-se entre os dias 20 e 22 de junho p.p. na capital carioca a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável. O evento, conhecido como Rio+20, pretendia celebrar os 20 anos da Eco 92 realizada na mesma cidade, e com isso dar novo empuxe à agenda ambientalista.

Uma grande euforia tomou conta dos ativistas “verdes” nos meses que precederam a conferência, pois para eles não haveria melhor ocasião para atuar. Com efeito, mais de 100 Chefes de Estado e de governo anunciaram presença, as tubas da mídia nacional e internacional estavam prontas para repercutir seus slogans, enquanto polpudas somas de dinheiro eram disponibilizadas.

Estava a cargo dos Major Groups – ONGs ambientalistas credenciadas junto às Nações Unidas – elaborar as primeiras versões do documento principal “O futuro que queremos”, a serem apresentadas aos Chefes de Estado durante a Rio+20. Os trabalhos iniciaram-se em novembro de 2011 e deveriam terminar na véspera da conferência oficial, dia 19 de junho de 2012.

O fracasso

Entretanto, à medida que as discussões avançavam, a euforia diminuía. Ao final do evento, a indignação dos movimentos verdes viria evidenciar o total fracasso do encontro. O documento principal foi gradualmente dessorado, seu gume revolucionário se embotou, e as medidas concretas ficaram para depois...

O texto – esperavam os ambientalistas – deveria representar para a revolução verde de nossos dias o que o Manifesto Comunista foi para a revolução vermelha comunista nos séculos XIX e XX. Mas não passou de uma reedição tímida dos princípios já estabelecidos na Eco92 e cúpulas subsequentes da ONU, bem como de enunciados vagos, sem alcance prático.

A mídia lamentou profundamente o resultado: “A declaração final da Rio+20 contém 23.917 palavras. Apenas duas vezes aparece a palavra que define o resultado palpável de uma negociação: ‘decidimos’. Os outros parágrafos começam com ‘reafirmamos’, ‘reconhecemos’ e equivalentes”.1

Em seu parágrafo inicial, o documento afirma que os compromissos com o desenvolvimento sustentável se faziam “com a plena participação da sociedade civil”. Movimentos ambientalistas logo protestaram, pois segundo eles o documento era marcado “por graves omissões”, e por isso negavam sua participação no resultado final da Rio+20.2 Note-se que tais movimentos se consideram representantes da sociedade civil!

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

O próprio secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon (foto ao lado), declarou no dia 19 de junho: “Eu esperava um texto final mais ambicioso”. Dois dias depois “recebeu uma reprimenda do governo brasileiro, convocou às pressas uma coletiva para a imprensa brasileira e mudou de ideia, afirmando que o texto final, em sua opinião, é sim ‘ambicioso’, além de ‘amplo e prático’”.3

José Manuel Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, declarou que a crise econômica na Europa não foi a responsável pelo enfraquecimento do texto final da Rio+20, e acrescentou que “a Europa sempre defendeu uma ambição maior”.4

Do ponto de vista concreto nada resultou, e a única coisa que ficou decidida foi que em 2015 serão lançados os “Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”, certamente outro realejo de utopias. Essa falta de decisões levou a presidente brasileira a tentar explicar a situação, dizendo que a Rio+20 “é um ponto de partida e não um ponto de chegada”.5 Não é exatamente o que os ecologistas esperavam...

O representante das ONGs na comissão interministerial da Rio-92, portanto uma voz insuspeita, afirmou “Para quem acompanhou o processo preparatório [da Rio+20], confirmou-se o pior dos cenários: nada de concreto foi definido.”6 Uma ministra brasileira, tentando “maquiar” o fracasso, comemorou: “quero destacar a ousadia da diplomacia brasileira de terminar a conferência no prazo”7 (sic!).

Ausência de representatividade

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Além das divergências a respeito do texto, alguns fatores dificultaram a almejada marcha triunfal ecologista. Uma delas foi o próprio adiamento da Rio+20, para não coincidir com o jubileu de diamante da Rainha da Inglaterra, o que poderia diminuir a presença de Chefes de Estado na conferência global. Inicialmente estava marcada para os dias 4 a 6 de junho, mas delegações de muitos países anunciaram que não poderiam ir ao Rio nessa data. A monarquia, em meio ao mundo igualitário moderno, ainda atrai muito mais o público, sem comparação possível, do que uma conferência global sobre o clima...

Mesmo depois de confirmada a data para os dias 20 a 22 de junho, diversos Chefes de Estado e governo de países proeminentes foram cancelando gradualmente sua participação no evento, enviando apenas representantes. Barack Obama, David Cameron, Angela Merkel, entre outros, que seriam peças-chave para prestigiar a conferência, decidiram não comparecer. Enquanto isso, o Brasil se esforçava para trazer governantes de diversos reinos e pequenos Estados africanos e asiáticos, indo buscá-los em seus respectivos países com jatinhos fornecidos pelo próprio governo brasileiro. Quando se é obrigado a buscar os convidados para a festa...

Qual a causa de tamanho fracasso? Durante a semana da conferência, o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira teve ocasião de fazer campanhas de impacto contra as falsidades do ambientalismo, conversando com a população que circulava pelas ruas e praças do Rio de Janeiro e denunciando a paranóia ecologista. Pôde-se então constatar que os mitos catastróficos apregoados pelo ambientalismo não encontram guarida no público. A população não acompanha com entusiasmo a agenda ecologista; como consequência, os “verdes” radicais só conseguirão levá-la adiante à força... Ou seja, por meio de leis e medidas arbitrariamente impostas.

Ambições do movimento ambientalista

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Apesar de todo o insucesso da conferência, seria uma visão simplista considerar a Rio+20 apenas sob esse aspecto, sem abrir os olhos para as ameaças que o evento representa para a civilização cristã. Alguns pontos do documento final, embora não tenham efeito concreto imediato, indicam aonde o movimento ambientalista quer chegar, e importa, portanto, conhecê-los.

Ao anunciar a conferência, a ONU declarou que o objetivo do evento seria simplesmente implementar medidas para promover a “economia verde” com base no “desenvolvimento sustentável”, a fim de erradicar a pobreza no planeta.

Essa tarefa gigantesca só poderia ser levada a cabo por uma nova “superestrutura” que passasse por cima da soberania dos países: “O projeto não irá a parte alguma se não tiver a embasá-lo a ‘estrutura institucional’ almejada pela ONU, com um sistema pactuado de estímulos e sanções que induzam os países a mudar, sem esperar que outros o façam primeiro”, registrou um editorial de “O Estado de S. Paulo”.8

Nesse sentido, é significativo o comentário de David Rothbard, presidente do Comitê por um Futuro Construtivo (CFACT): “A soberania nacional é a espécie com maior perigo de extinção na Rio+20”.9 Desde os preparativos da conferência havia esse mal disfarçado desejo de implantar um governo mundial “verde”, no qual as ONGs, à maneira de soviets supremos, atuariam como “caciques” e “pajés”, estabelecendo normas para os países, além de sanções.

Dr. Kelvin Kemm, físico nuclear e especialista em questões ambientais: "quando se cria nas pessoas uma preocupação, pode-se criar nelas o medo, e com isso elas podem ser controladas".

Como a cantilena do aquecimento global está caindo no descrédito, as ONGs preferiram focalizar os conceitos de “biodiversidade” e “desenvolvimento sustentável” como principais temas. De acordo com o Dr. Kelvin Kemm, físico nuclear e especialista em questões ambientais, “quando se cria nas pessoas uma preocupação, pode-se criar nelas o medo, e com isso elas podem ser controladas”.10

De fato, toda a conferência apresentou como fundo de quadro um controle internacional, baseado no pânico quanto ao futuro do planeta. Conforme admitiu o mesmo especialista, “certas organizações verdes querem claramente exercer controle direto sobre governos do mundo inteiro, e querem impor seu tipo de governo mundial em nosso planeta, nas comunidades, nos negócios e nas famílias. Os conceitos de biodiversidade e desenvolvimento sustentável lhes servem como meras alavancas.

“Os verdes clamam que nossas plantas e espécies animais, nossos recursos naturais, nosso ar e nossa água, enfim, nosso planeta está em estado tão desesperador que são os verdes radicais que têm de tomar conta dele. Eles vão defender a ‘biodiversidade’, e para isso vão decidir o que ‘desenvolvimento sustentável’ atualmente significa e como deve ser implementado”.11

Sustentabilidade, palavra talismã

Plinio Corrêa de Oliveira denunciava em seu livro Baldeação Ideológica Inadvertida e Diáolgo da manipulação das palavras talismãs. Trata-se de expressões "trabalhadas" cuidadosamente pelos inimigos da civilização cristã para mudar imperceptivelmente a mentalidade dos incautos e fazer-lhes aceitar uma ideologia que antes reprovavam.

Ora, se as ONGs deverão decidir qual o significado de “desenvolvimento sustentável” é porque o termo não está ainda definido, podendo prestar-se a qualquer manipulação.

Cabe aqui lembrar o que Plinio Corrêa de Oliveira denunciava em seu livro Baldeação Ideológica Inadvertida e Diálogo sobre as palavras talismãs. Trata-se de expressões “trabalhadas” cuidadosamente pelos inimigos da civilização cristã para mudar imperceptivelmente a mentalidade dos incautos e fazer-lhes aceitar uma ideologia que antes reprovavam.

Determinada palavra – “diálogo”, por exemplo – é selecionada, seu sentido real torcido e usado de maneira a englobar múltiplos significados indefinidos. Assim, “desenvolvimento sustentável”, que aparentemente quer dizer algo como progresso sem o uso abusivo dos recursos naturais, passa a significar qualquer coisa: assentamento de Reforma Agrária é “sustentável”, propriedade privada, não; aborto favorece a sustentabilidade, família numerosa, não; ideologia de gênero é “sustentável”, família tradicional, não. No jargão ambientalista “sustentável” é tudo o que está de acordo com sua cartilha, e insustentável tudo o que se lhe opõe.

Os termos “sustentável”, “sustentabilidade” e “desenvolvimento sustentável” aparecem nada menos que 390 vezes, em um documento de apenas 49 páginas e 283 parágrafos. “Como ‘abracadabra’, pretende-se com essas palavras amorfas transformar até sociedades corruptas em jardins do Éden, sob os auspícios da ONU. Eles usarão menos, poluirão menos, serão sustentáveis, conviverão bem e salvarão as espécies do planeta inteiro de seu pior inimigo: os seres humanos”.12

Aborto e homossexualismo: “sustentáveis”?

Um representante da TFP norte-americana, James Bascom, presente no Rio de Janeiro para acompanhar a conferência, auxiliou a delegação do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, da qual eu fazia parte. Contou-me ele que assistiu a uma reunião de diversas ONGs feministas e ambientalistas, no Riocentro (principal centro dos eventos), durante a qual os ativistas lamentavam o fato de as causas abortista e ideologia de gênero estarem não só paradas, mas em muitos países até retrocedendo. E que era preciso não desanimar, mas ir em frente, diziam.

Uma das injeções de ânimo para esses grupos seria conseguir a inclusão, no texto final da Rio+20, da luta pela “igualdade de gênero” e pelos “direitos sexuais e reprodutivos”. Conhecidas personalidades políticas defendiam essas teses.

A secretária de estado dos EUA, Hillary Clinton, afirmou durante a Rio+20: “Para alcançar o desenvolvimento sustentável, precisamos garantir o direito reprodutivo.13 A diretora-chefe da ONU-Mulheres, a ex-presidente chilena Michele Bachelet, declarou que "se conseguirmos avançar mais rapidamente em questões da igualdade de gênero, também vamos avançar mais rapidamente no desenvolvimento sustentável".

Ora, traduzindo as expressões “direitos sexuais e reprodutivos” e “igualdade de gênero” para a linguagem comum, significam elas, respectivamente, o favorecimento do aborto e da agenda homossexual. A Santa Sé interveio, acompanhada por diversos grupos contrários ao aborto, tendo sido então a expressão “direitos sexuais e reprodutivos” amenizada no documento final para “saúde sexual e reprodutiva”. O texto ficou como segue:

“Reafirmamos nosso compromisso com a igualdade de gêneros e com a proteção dos direitos das mulheres, homens e jovens a terem controle e decidirem livremente e responsavelmente sobre assuntos relacionados a sua sexualidade, incluindo acesso à saúde sexual e reprodutiva, livre de coerção, discriminação e violência” (Parágrafo 146).

Por que aborto e homossexualismo seriam “sustentáveis”? Será pelo fato de impedirem a multiplicação da espécie humana e livrarem o planeta dessa “doença” chamada homem? Que contraste com os Dez Mandamentos do Decálogo e com o mandato divino quando, no princípio, Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança [...] e criou Deus o homem à sua imagem; e criou-os varão e mulher [...] e disse: Crescei e multiplicai-vos, e enchei a Terra, e sujeitai-a” (Gen. 1, 26-28)!

Vozes discordantes da “ideologia verde”

Diante da ofensiva do ambientalismo, que conta com o apoio incondicional da ONU e de diversas ONGs internacionais, um surto de sadia reação tem aparecido por toda parte, especialmente nos Estados Unidos e na Inglaterra.

Um sintoma disso é o Comitê por um Futuro Construtivo (CFACT, na sigla em inglês)*, com a qual tivemos a satisfação de tomar contato durante a Rio+20 e conhecer seu trabalho.

Fundado em 1985 para promover uma “voz positiva nos temas relacionados com meio-ambiente e desenvolvimento”, seus fundadores acreditavam que os ambientalistas, embora falem de “desenvolvimento sustentável”, na verdade coíbem o progresso e pioram a situação dos países pobres.

Eles congregam os cientistas e ativistas políticos que discordam do mito ambientalista, promovem em diversos países projetos de desenvolvimento e progresso real, e “estragam a festa” dos eventos ecologistas.

Durante a Rio+20 promoveram diversas atividades, demolindo mitos ambientalista e desafiando os ativistas verdes a responderem certas questões. Certamente sua atuação ajudou a frear o frenesi verde radical.

Entre os membros da CFACT destaca-se um lord inglês, Sir Christopher Monckton, visconde de Brenchley, que desafiou publicamente o maior protagonista do mito do aquecimento global, Al Gore, para um debate. Al Gore fugiu...

Lord Monckton, durante uma das conferências de imprensa promovidas pelo CFACT no Riocentro, afirmou: “Eles perderam o debate sobre aquecimento global porque este não está acontecendo como eles diziam que ia acontecer. E não há razão para supor que acontecerá como eles afirmavam. Eles agora inventaram o tal desenvolvimento sustentável. Isso significa qualquer coisa que se queira. Você pode dizer que ‘desenvolvimento sustentável’ é igualdade de gênero e emancipação da mulher — termos mencionados pelo menos cinco vezes no esboço do documento final. ‘Desenvolvimento sustentável’ para eles quer dizer todo tipo de causa socialista, marxista e esquerdista que esteja na moda. ‘Desenvolvimento sustentável’ não tem nada a ver com o meio-ambiente e nada a ver com o desenvolvimento”.

Craig Rucker, diretor executivo da CFACT: “Nós não podemos vender a prosperidade potencial das populações pobres pelos trapos sujos do desenvolvimento sustentável. Os seres humanos devem estar em primeiro lugar. De fato, a história tem demonstrado que o meio-ambiente é mais protegido quando os homens prosperam. Não é coincidência o fato de que as regiões do mundo com o melhor ar e com a água mais pura são também aquelas que têm as economias mais avançadas e usaram os métodos convencionais de desenvolvimento para atingir esse patamar. De outro lado, os pobres não podem se preocupar com o ambiente quando todo dia há um problema novo de sobrevivência. A natureza sofre quando as pessoas sofrem”.

David Rothbard, presidente da organização: “Pessoas não são poluição, pessoas não são doença. As pessoas são o maior recurso natural na Terra... O modo de ajudar o meio-ambiente é [...] desenvolver as habilidades humanas através de liberdade política e econômica. Não uma abordagem de cima para baixo, não uma crise ambiental atrás da outra projetada para que as pessoas cedam cada vez mais seus direitos políticos e sua liberdade econômica [...], mas sim permitindo que as pessoas floresçam”.

O jornalista Marc Morano desafiou a ONU em termos fortes. Como a Rio+20 se jactava de procurar “erradicar a pobreza”, ele alfinetou: “O fracasso aqui é bom para as populações pobres do mundo. Fracasso é a única opção para a Rio+20 se você se preocupa com o meio-ambiente e com os pobres. A energia baseada em carbono tem sido um dos grandes ‘libertadores’ da humanidade na história de nosso planeta. James Lovelock, o pai do movimento verde moderno confessou que ‘desenvolvimento sustentável’ não é senão ‘uma estupidez sem sentido’. Vou mais além, e afirmo que precisamos redefinir desenvolvimento sustentável como petróleo, gás e carvão — energia que funciona e energia que tira as pessoas da pobreza”.

___________
(*) O trabalho de CFACT pode ser acompanhado pelo website www.cfact.org

1 | 2 Continua
-->