Setembro de 2005
Silêncio indignante
Por que Nossa Senhora Chora?

Lacrimação da Virgem de Fátima em Nova Orleans, EUA, em 1972
Silêncio indignante

Neste ano, mais precisamente em julho, deu-se a soturna comemoração dos 30 anos do massacre da população do Camboja pelas tropas comunistas de Pol Pot e seus asseclas. Desse terrível acontecimento pouco se falou, enquanto a mídia está repleta de críticas à atuação dos Estados Unidos no Iraque.

Tais contradições fazem lembrar a increpação feita por Plinio Corrêa de Oliveira, após a queda da Cortina de Ferro, aos inocentes úteis no Ocidente, pela sua conivência com o que se havia passado no império soviético: “Os inocentes úteis eram adestrados em apagar a noção da nocividade do comunismo, e de sua importância como perigo próximo para cada país. Inocente útil era de preferência um clérigo de aparência conservadora, um pacato e despreocupado burguês, um político que se diria absorvido inteiramente nas tricas, micas e moxinifadas a-ideológicas da politicagem. E assim por diante” (“Folha de S. Paulo”, 14-2-90).

30 anos de silêncio

Museu das atrocidades do Khmer Vermelho, no Camboja
Sobre o Camboja, transcrevo alguns trechos da reportagem de Dorrit Harazim, intitulada 30 anos de silêncio (“O Estado de S. Paulo”, 17 e 18-7-05):

"Por que ninguém chora ou canta pelo Camboja?

Trinta anos atrás, a comunidade internacional assistiu em silêncio à metódica eliminação do modo de vida dessa nação de sete milhões de habitantes. Estados Unidos, Canadá e Inglaterra, entre outros expoentes da civilização ocidental, compactuaram com os interesses da China emergente dos anos 70 e permitiram que a máquina de desumanização do Camboja vingasse.

Entre o ‘Ano Zero’ (1975) do que seria a construção de um novo povo até a derrocada do Khmer Vermelho (1979), Pol Pot tinha abolido dinheiro, religião, propriedade, escolas, individualidade e família da vida cambojana. A partir dos sete anos de idade, toda criança passou a pertencer a Angkar, a Organização.

Todas as cidades e vilas do país deveriam ser imediatamente esvaziadas para que o contaminado modo de vida urbano pudesse ser erradicado para sempre. Em pouco tempo, toda uma população de sete milhões de pessoas teve suas raízes arrancadas e foi colocada em marcha. Sem saber para onde, nem por quê, ou até quando.

As ordens eram repetidas em tom mecânico, não ameaçador, desprovidas de qualquer eco emocional. Conseguiram que a massa se pusesse em marcha de forma absurdamente silenciosa. Os exaustos, desesperados ou doentes iam ficando para trás. Os deportados iniciariam ali seu brutal processo de purificação ideológica. Começou assim uma revolução de profundidade jamais alcançada.

Na prática, o extermínio através da diminuição progressiva de ração diária e aumento do trabalho forçado. ‘No novo Kampuchea (nome antigo do reino cambojano) só precisamos de 1 milhão de pessoas para continuar a revolução. Não precisamos do resto’, dizia um dos editais. Bebês e crianças pequenas eram arremessados contra troncos de árvores ou degolados com a face cortante de folhas de palmeira doce.

Foi somente no fim dos anos 90 que esse genocídio silencioso conseguiu merecer a atenção da ONU e ser qualificado como crime contra a humanidade. E não são poucos os ex-líderes mundiais e governos que prefeririam protelar para sempre a exumação de sua conivência com os campos da morte cambojanos.

Como apontou o jornalista e escritor americano William Shawcross já em 1979, o mundo a tudo assistiu como um drama menor, sem relevância."

*     *     *

Não nos iludamos, este é o mundo em que vivemos! Como ter surpresa pelo fato de que Nossa Senhora chore? E como ter surpresa se, de repente, essas lágrimas se transformarem em açoites?