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Papa acolhe favoravelmente e bispo reconhece oficialmente

Mons. de Bruillard quem encaminhou as revelações a Pio IX em 1851

Mons. de Bruillard abriu um inquérito oficial sob os cuidados de uma comissão de 16 sacerdotes experientes. Os videntes escreveram de próprio punho o relato do acontecido. A comissão pronunciou-se pela autenticidade da aparição. Mas o Cardeal Louis de Bonald, Arcebispo de Lyon e metropolitano do bispo de Grenoble, se opôs ativamente a essa conclusão aprobatória.

O bispo de Grenoble ordenou que os videntes, separadamente, redigissem de novo e com esmero os fatos e as palavras de Nossa Senhora. Estes relatos foram levados a Roma e entregues em mãos ao Papa então felizmente reinante, o Bem-aventurado Pio IX.

No Vaticano, o Santo Padre discerniu a transcendência da mensagem. Abriu os lacres na presença dos portadores da importante correspondência, dois cônegos da diocese de Grenoble. Fazendo o comentário "aqui há a candura e a simplicidade de uma criança", pôs-se de pé e se aproximou da janela para ler com mais atenção. Seus lábios se contraíram, suas maçãs do rosto se incharam. Terminada a leitura, disse-lhes: "Trata-se de flagelos dos quais a França está ameaçada. Mas ela não é a única culpada. A Alemanha, a Itália, a Europa toda o são também e merecem os castigos. Tenho menos a temer de Proudhon [teórico socialista] do que da indiferença religiosa e do respeito humano".(1) E acrescentou: "Não é sem razão que a Igreja é chamada militante, e que vós vedes aqui o seu Capitão".

No ato, encaminhou os documentos a Mons. Frattini, promotor da Fé, anexando a eles a opinião de que "estavam bem, que ele estava contente e que eles exalavam a verdade".(2) Mons. Frattini pronunciou-se em favor da aparição e o Cardeal Lambruschini, prefeito da Sagrada Congregação dos Ritos, julgou que os documentos “não deixavam nada a desejar” e aprovou o "edificante e inteiramente louvável rigor" com que agiu Mons. Bruillard.

Fortalecido pela acolhida favorável do Sumo Pontífice e da Santa Sé, o bispo de Grenoble reconheceu oficialmente a aparição e fez publicamente seu elogio ao clero e aos fiéis. Por isso, La Salette é uma das raríssimas aparições reconhecidas canonicamente pela Igreja.

Se a mensagem de Nossa Senhora fosse sem grande transcendência, a decisão de Roma teria posto fim às polêmicas. Porém a tempestade, longe de amainar, recrudesceu ao máximo.

Vendaval revolucionário contra La Salette

Maximin e Mélanie, os videntes de La Salette, na época das aparições

Os católicos liberais desprezaram La Salette desde o início. Aliás, o pranto de Nossa Senhora era especialmente por causa deles. Vendo que a obra de Nossa Senhora progredia com a bênção do Papa, tais católicos passaram à contestação e à difamação aberta, com intrigas e escritos desabonadores.

Mons. de Bruillard defendeu a autenticidade da aparição e a difusão da mensagem. Mas, sendo já muito idoso, teve que renunciar à diocese. O imperador Napoleão III e o Cardeal Jacques Mathieu, líder dos bispos galicanos (que contestavam prerrogativas inderrogáveis da Santa Sé), impingiram seu candidato para a sucessão: Mons. Jacques Ginoulhiac. Assim que o Vaticano foi informado disso, desaprovou a nomeação e urgiu ao Núncio Apostólico em Paris para que impedisse a posse. A Concordata da época, infelizmente, concedia regalias –– abolidas depois –– ao governo civil para a designação de bispos. O novo prelado tomou posse da diocese antes de chegar o veto de Roma.

Pio IX tinha razões por demais graves para não aprovar a nomeação: Mons. Ginoulhiac era um líder liberal. Posteriormente foi grande opositor à proclamação do dogma da infalibilidade pontifícia, a ponto de abandonar Roma para não participar do dia glorioso da promulgação desse dogma no Concílio Vaticano I. Era também acérrimo inimigo da mensagem de La Salette. Quando dois eclesiásticos da diocese publicaram sem licença um libelo difamatório contra os videntes, com a assinatura de 50 padres, o Papa exortou-o a permanecer dentro dos limites do Direito Canônico e pediu-lhe que difundisse a mensagem. Mons. Ginoulhiac aparentou aceitar a solicitação do Pontífice e censurou o libelo. Mas, desde então, empenhou-se em abafar a mensagem e silenciar os pastorinhos. Católicos liberais, poderes civis e associações anticatólicas sabiam que se a mensagem fosse bem recebida, a causa da Revolução estava perdida.

Para complicar ainda mais o quadro, vários pseudo-videntes espalhavam mensagens parecidas, mas manifestamente falsas. Uma pretensa mística — a condessa Pauline de Nicolay — dizia transmitir revelações que desclassificavam moralmente os pastores. Propôs sibilinas fórmulas, avidamente endossadas pelo bispo liberal, no sentido de que o papel de Mélanie e Maximin havia terminado antes de 1858, ano no qual deviam revelar a íntegra do Segredo!

Somente o relato das vicissitudes dessa controvérsia daria matéria para um artigo da extensão do presente. Mas nosso objetivo neste artigo é apresentar o segredo de La Salette, de acordo com os estudos mais recentes, aos quais adiante nos referiremos.

Impunha-se estudo a partir dos documentos originais

A polêmica entre os franceses atingiu uma tal confusão, que a Santa Sé, por meio de decreto do Santo Ofício de 21 de dezembro de 1915, proibiu a publicação de toda a versão do segredo, mas de maneira alguma desencorajava a devoção a Nossa Senhora de La Salette. Em 9 de maio de 1923, uma edição do segredo com imprimatur do bispado de Lecce datado de 15-11-1879, foi inscrito no Index de livros proibidos. Essa edição fora aprovada em numerosas dioceses por cardeais e bispos.

Impunha-se fazer um estudo a partir dos documentos originais para deslindar a controvérsia. Entretanto, como fazê-lo, se os originais tinham desaparecido no próprio Vaticano? Com isso, toda difusão pública ficava bloqueada, talvez para sempre.

Para sempre?

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