A Palavra do Sacerdote

Pergunta
Gostaria de saber sobre “Salvação”, mais precisamente se já a temos garantida. Há alguma passagem da Bíblia que diga que não devemos achar que estamos salvos?

Resposta – O consulente se coloca o problema da salvação, que é precisamente o problema central de nossa vida. Não a saúde, não a sustentação financeira, não o gozo dos prazeres, não a conquista de uma posição social proeminente. Nossa máxima preocupação deve ser salvar a nossa alma e alcançar a vida eterna, mediante o conhecimento, o amor e o serviço de Deus neste mundo.

Com efeito, “que aproveita ao homem ganhar o mundo todo, se vier a perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma?” - disse Nosso Senhor Jesus Cristo (Mt 16, 26).

Aqui já vê o consulente que a possibilidade de não nos salvarmos existe, e é afirmada de modo muito categórico pelo próprio Filho de Deus. Isto é, alguns preferem dispender todos os esforços em alcançar as coisas deste mundo, a ponto de trocá-las pela salvação de sua alma! Não há loucura maior.

Entretanto, a busca da salvação não deve ser feita na angústia de nossa alma. E para isso Deus plantou em nós, pelo sacramento do Batismo, três raízes de salvação, que são as virtudes teologais: a fé, a esperança e a caridade.

“Sem a fé é impossível agradar a Deus” - dizia São Paulo (Heb 11, 6). E a virtude da caridade - que significa amor de Deus - implica na observância dos Mandamentos de Jesus Cristo. Disse Ele: “Permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor” (Jo 15, 9-10). A fé e a caridade, portanto, nos encaminham para a salvação.

Pelo Sacramento do Batismo, a alma recebe as virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade
E podemos ter a certeza moral de que, se perseverarmos no caminho dessas duas virtudes, salvaremos nossas almas. Essa certeza nos é dada pela outra virtude teologal: a esperança. Esta virtude - que, como foi dito, recebemos no Batismo junto com as virtudes da fé e da caridade - nos comunica a certeza moral de alcançarmos a vida eterna e os meios necessários de chegar a ela, apoiados no auxílio onipotente de Deus.

Assim, é muito louvável, oportuno e necessário fazermos freqüentemente atos de esperança. Para isso podemos usar a fórmula consagrada que se ensina nos cursos de Catecismo:

“Eu espero, meu Deus, com firme confiança, que pelos merecimentos de meu Senhor Jesus Cristo me dareis a salvação eterna e as graças necessárias para consegui-la, porque Vós, sumamente bom e poderoso, o haveis prometido a quem observar fielmente os vossos mandamentos, como eu proponho fazer com vosso auxílio”.

Deus é Misericórdia, quer a nossa salvação e não nos nega os meios de alcançá-la, mas é preciso nos esforçarmos por perseverar na fé, na esperança e na caridade, porque a graça de Deus não dispensa a colaboração do homem.

Pergunta – Um índio, quando morre, vai para o Céu? Será que a misericórdia [de Deus] condena os índios? Diz São Paulo, [na epístola aos] romanos, que Deus se dá a conhecer a todos, e com certeza eles crêem em Deus e lhe dão um outro nome, pois estão na ignorância.

Reposta – Deus se dá a conhecer aos homens de dois modos: 1º) pela Revelação, que está contida nas Sagradas Escrituras ou vai sendo transmitida de boca a ouvido, ao longo das gerações, pela Tradição da Igreja; 2º) pelo livro da natureza, como lembra o consulente, citando a Epístola aos romanos, de São Paulo.

Se, passados dois mil anos, o esforço missionário da Igreja não alcançou todos os povos, e há ainda os que não se beneficiaram com as luzes e as graças da Revelação, devem eles guiar-se simplesmente pelo livro da natureza.

Índio xavante, convertido à fé católica, reza fervorosamente diante do Cruzeiro
Este é suficientemente claro, para que os pagãos dele deduzam o poder eterno e a divindade do Criador. Pelo que, não o fazendo, tornam-se “inescusáveis”, como diz São Paulo (Rom. 1, 19-20).

O fato, portanto, é que, mesmo podendo chegar ao conhecimento de Deus através da “grandeza e formosura das criaturas” (Sap. 3, 5), muitos pagãos o rejeitam, fazendo-se merecedores da forte increpação de São Paulo: “Porque, tendo conhecido a Deus [pelas suas obras], não O glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, mas desvaneceram-se nos seus pensamentos, e obscureceu-se o seu coração insensato; porque, dizendo-se sábios, tornaram-se estultos” (Rom. 1, 21-23).

Desvelado o fundo do problema, fica fácil responder à pergunta. Isto é, a Misericórdia de Deus não condenará o índio pagão que, tendo mantido a inocência de sua alma, soube chegar, a partir das criaturas visíveis, ao conhecimento dos atributos invisíveis de Deus, louvando-O e rendendo-Lhe graças por isso.

Os outros, porém, os que escolhem uma vida depravada em lugar de louvar o Criador, Deus os abandona aos próprios desvarios neste mundo, e à condenação eterna no outro, como recorda o Apóstolo, no fim deste mesmo trecho: “Pelo que Deus os abandonou aos desejos do seu coração, à imundície; de modo que desonraram os seus corpos em si mesmos, eles, que trocaram a verdade de Deus pela mentira, e que adoraram e serviram a criatura de preferência ao Criador, que é bendito por todos os séculos. Amém” (Rom. 1, 24-25).

Pergunta – Pode um rico passar pelo buraco da agulha e ir para o Céu? Como o Sr. explica a frase da Bíblia: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha que um rico entrar no Reino dos Céus?”

Resposta – O trecho a que o consulente se refere é um comentário feito por Jesus, após a recusa do moço rico em seguir o convite evangélico: “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens e segue-me” (Mt 19, 21).

Nosso Senhor comentou: “Em verdade vos digo que um rico dificilmente entrará no Reino dos Céus. Digo-vos mais: é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino dos Céus” (Mt 19, 23-24).

O Pe. Matos Soares, autor de uma conhecida tradução da Bíblia para o português, comenta que esse “é um modo proverbial de dizer, que os hebreus empregavam para significar uma coisa naturalmente impossível”. E esclarece que o “dificilmente” do versículo anterior refere-se, não a que as riquezas sejam um mal em si, mas ao fato de que “fazem correr aos que as possuem o perigo de prender demasiadamente a elas o seu coração”.

D. Duarte Leopoldo e Silva, que foi Arcebispo de São Paulo, em sua conceituada Concordância dos Santos Evangelhos, diz que “havia em Jerusalém uma porta, tão estreita e tão baixa, que os camelos não podiam passar por ela, sem que lhes fosse retirada toda a carga e, ainda assim, lhes era preciso abaixar-se e passar quase de rastos. Por isso chamavam-na Porta da agulha, e daí vem o provérbio de que se serve Jesus”.

Os ricos que pautam suas vidads pelos Mandamentos de Deus, como o riquíssimo Patrarca Abraão (gravura acima), salvam suas almas
Outros exegetas têm dado explicações diferentes. Mas a conclusão de todos (desde que não sejam partidários da Teologia da Libertação) é a mesma de D. Duarte: “Assim o rico, para entrar no Céu, deve despojar-se das afeições desregradas, e depois humilhar-se, como cristão que é. Este é o milagre que Deus tantas vezes tem operado, sempre que dá a um rico o espírito de pobreza e desapego”.

A frase conclusiva do comentário se liga ao trecho final deste passo do Evangelho, no qual se lê que os discípulos estavam admirados, perguntando-se: “Quem, pois, pode salvar-se? Então Jesus, olhando para eles, disse: Para os homens isto é impossível, porém não para Deus, porque a Deus todas as coisas são possíveis” (Mc 10, 26-27).

É certo pois que os ricos que empreguem bem suas riquezas, conformando-se aos Mandamentos e à vontade de Deus, podem perfeitamente salvar-se. É o caso de lembrar que Nosso Senhor freqüentava a casa de Lázaro, que era rico, e o considerava como amigo. E uma das figuras exponenciais em santidade do Antigo Testamento, o Patriarca Abraão, era não só rico mas riquíssimo.

Tal é porém o apego dos homens aos bens desta terra - não só dos ricos, mas muitas vezes dos que pouco possuem - que desapegarmo-nos deles é um verdadeiro prodígio da graça, que só Deus pode operar.

 

 

 

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