Setembro de 2005
A tranqüilidade britânica perante a tragédia
Destaque

A tranqüilidade britânica perante a tragédia

De autor anônimo, a fotografia desta página como que transcende o tempo e o espaço, para remeter o espírito a uma grandiosa realidade histórica: a Cristandade.

  • Paulo Corrêa de Brito Fº

U
ma assídua leitora de Catolicismo, da França, teve a amabilidade de nos enviar um artigo admirável, publicado no diário parisiense “Le Monde”, de 16-6-05, observando que talvez pudesse ser aproveitado em nossa revista.

          É com prazer que atendemos a essa oportuna sugestão, pois realmente o tema abordado pelo cotidiano francês presta-se, de modo muito adequado, a um comentário consoante à posição que Catolicismo há anos tem defendido quanto á questão da União Européia.

          Com o significativo título em inglês “We’re not afraid” (não estamos com medo), o artigo tece um comentário da foto (ao lado), no qual se patenteia o brilho do espírito francês. Do texto, destacamos os tópicos mais salientes:

          “Esta é, de longa data, uma de nossas fotos preferidas. Não se conhece seu autor, somente suas circunstâncias. Estamos em Londres, em outubro de 1940, a guerra se trava há vários meses, os bombardeios alemães são diários e bombas incendiárias arrasam um quarteirão da capital britânica. Nos escombros de uma biblioteca, homens impassíveis examinam conscienciosamente as estantes, escolhem livros como conhecedores da matéria e os abrem, como se retomassem sua atividade costumeira, a leitura. A cena parece imóvel, suspensa fora do tempo, irreal sobretudo, de tal maneira os contrastes entre a violência das destruições, a calma dos leitores e o próprio objeto de sua paixão parecem realçar a imaginação. Esta decalagem é suficiente para conferir uma oculta ironia, não escarnecedora ou mordaz, mas de distância e de altaneria".


Europa: jóia composta de múltiplas pedras preciosas

          Lendo o texto acima, veio-nos à mente a antiga grandeza da Europa, fruto sobretudo da graça divina e do vigor da Civilização Cristã, que atingiu o apogeu de sua concretização histórica na Idade Média.

          Ocorreu-nos também um símbolo material que, a nosso ver, representa bem a verdadeira civilização européia: uma jóia composta de várias pedras preciosas –– diamantes, rubis, esmeraldas, safiras, etc. Assim como tais pedras espelham diversos atributos da jóia, cada uma das nações que compõem essa gloriosa civilização foi chamada, de modo análogo, a representar, pela vocação específica que recebeu do Criador, múltiplas qualidades divinas.

          A foto ressalta uma dessas qualidades –– importante atributo da divindade –– a imobilidade transcendente de Deus enquanto Motor Imóvel. Atributo que se nota especialmente na calma, na fleugma, na “distância psíquica” do povo inglês, como que encarnadas nos três leitores.

          O próprio comentário de “Le Monde” é reflexo, por sua vez, de outro aspecto saliente dessa preciosa jóia: o fulgor, a precisão e a penetração do espírito francês.

          Outras sugestivas fotos poderiam indicar, por exemplo, a tenacidade e pugnacidade da mentalidade alemã, o heroísmo e desprendimento do povo espanhol, o sólido bom senso do português, o pendor teológico, a vivacidade e o gênio artístico da população italiana, etc., etc.

          Infelizmente, toda essa riqueza, hoje existente em forma de vestígios da Cristandade, está seriamente ameaçada de desaparecer com a União Européia. Esta, conforme nossa revista tem ressaltado em várias ocasiões, especialmente no artigo Europa desunida: da apostasia ao fracasso (Catolicismo, março/ 2004), tornar-se-á como que um triturador de todas as aludidas pedras preciosas, para reduzi-las a um pó amorfo e incolor. Especialmente –– caso venha a ser aplicada a abominável constituição européia, que omitiu qualquer referência a Deus e rejeitou aquilo que o continente europeu possuiu de mais precioso –– suas gloriosas raízes cristãs.