Outubro de 1998
Cochim, a Rainha do Mar da Arábia
Cultura

Cochim,
a Rainha do Mar da Arábia

Embora essa cidade indiana, conquistada e evangelizada pelos portugueses desde o início do século XVI, tenha passado posteriormente para a dominação  de holandeses e ingleses protestantes, a marca do catolicismo, bem como da língua e de costumes lusos é preponderante

 

Plinio Maria Solimeo

O visitante que chega de trem à legendária Cochim, na Índia -- primeira base estável dos portugueses em sua epopéia do Oriente -- tem uma primeira surpresa ao ler na plataforma da ferrovia: Ernakulam North. Isso se explica, porque a moderna Cochim (ou Kochi, na língua local) consiste num aglomerado de cidades ligadas entre si pelo crescimento. A maior e mais importante delas é exatamente Ernakulam, onde situa-se os melhores comércios, hotéis e bancos.

Esta encontra-se no continente, e separa-se de Forte Cochim (como é designada atualmente a antiga Cochim do tempo dos portugueses) por um estuário tão largo, que o visitante julga ser já o mar ou um enorme lago (1). Nesse estuário há várias ilhas habitadas, inclusive a artificial Willingdon Island. Construída pelos ingleses com a terra retirada do aprofundamento do leito do rio para a construção do porto, grande como a Ilha do Governador, no Rio,  em Willingdon Island estão o aeroporto, hotéis, bases da Marinha e uma ferrovia.

Na Cochim atual, que conta aproximadamente com 1.300.000 habitantes, estão as sedes de três circunscrições eclesiásticas: a Diocese de Forte Cochim, fundada no tempo dos portugueses; a Arquidiocese de Verapoli (hoje pequena localidade na grande Cochim) também de rito latino, trasladada para Ernakulam; e, a menos de 100 metros desta, situada na mesma rua, a do rito oriental católico Syro-Malabar, antes localizada em Angamali, cujo Arcebispo Maior é também Cardeal.

Forte Cochim, base para futuras conquistas

Quando Vasco da Gama chegou à Índia, aportou em Calicute, no sudoeste do país. Essa cidade tinha como rei um potentado a que os lusos chamavam de Samorim, que devia em grande parte sua boa fortuna à presença de mercadores árabes que haviam feito desse porto um rico entreposto comercial.

Ora, desde data imemorial os muçulmanos e os ibéricos eram inimigos figadais e irreconciliáveis. Não é difícil de compreender que os primeiros dissessem ao Samorim cobras e lagartos dos segundos, tornando-lhes impossível qualquer acordo de amizade ou comercial. Por isso em 1500, quando Pedro Alvares Cabral, após descobrir o Brasil, dirigiu a segunda expedição à Índia, procurou outro local estratégico.

O Samorim, açulado pelos islamitas que viam com terror o estabelecimento dos lusos em solo indiano, invadiu Cochim em represália pela boa acolhida que o rajá (2) concedera aos portugueses, obrigando-o a refugiar-se no forte da ilha Vypin.

Mas não contava com a entrada em cena do mais extraordinário personagem da odisséia portuguesa no Oriente: Afonso de Albuquerque, que derrotou as tropas do Samorim e aliados, repondo benignamente o rajá em seu trono.

Este, agradecido, não demorou em perceber as vantagens que lhe traria uma aliança com tão poderosos protetores... E proclamou-se  vassalo do Rei de Portugal.

 Nesse forte, é claro, ergueu-se uma igreja, e o grande conquistador deixou como capelão seu próprio confessor. Assim começou a evangelização do país, pois os portugueses eram tanto aguerridos guerreiros quanto zelosos cristãos.

Além da igreja do forte, foi construída na cidade o  primeiro Templo de rito latino  ainda existente na Índia, dedicado a São Francisco de Assis. Nele, em 1528, Vasco da Gama encontrou sua última morada. E dois anos após, o grande Apóstolo das Índias, São Francisco Xavier, pregava aos gentios.

Em reconhecimento pelos feitos dos missionários lusos naquele principado, o Papa Paulo IV, em 1557 criou a Diocese de Cochim, elevando ao mesmo tempo a de Goa a Arquidiocese. Os limites da nova Diocese estendiam-se desde Cananore, ao norte do atual estado de Kerala, até o Ceilão e toda a costa oriental do subcontinente indiano, incluindo nele Burma.

Em virtude do comércio das especiarias passado das mãos dos mouros de Calecute para a dos portugueses de Cochim, esta prosperou tornando-se em pouco tempo o mais importante porto da Costa do Malabar. Mais tarde, antes da ascensão de Bombaim, a cidade seria denominada a Rainha do Mar da Arábia.

Cochim sujeita a hereges holandeses e ingleses

Uma triste constante em toda a empresa dos lusos no Oriente, foi o papel que hereges holandeses invariavelmente desempenharam. Sempre que os primeiros conquistavam heroicamente novos reinos, desenvolviam-nos e evangelizavam-nos, vinham depois os batavos calvinistas e roubavam-lhes, um a um. Assim se deu com Cochim em 1663.

Por ódio à fé católica,  os calvinistas destruíram o grande colégio jesuíta da cidade, sua rica biblioteca, e todas as igrejas católicas, com exceção da de São Francisco, que passaram a utilizar para o culto herético (4). Construíram muitas casas de campo nas ilhas do estuário, e os palácios Bolghatty e o Holandês, este em Mattancherry, nos arredores de Cochim.

Os batavos tiveram que travar árdua luta com o Tigre do Mysore, o sanguinário Tipu Sultão, o que os enfraqueceu a ponto de se tornarem fraca presa para outros hereges, os ingleses. O governo britânico, estabelecido em Cochim, dedicou-se a várias obras públicas, entre as quais a construção de um moderno porto, mediante aprofundamento do leito do estuário.

Como tanto holandeses quanto ingleses eram mais comerciantes que missionários, fizeram pouco proselitismo de suas seitas. Por isso, apesar de os portugueses terem saído da região há mais de três séculos, sua presença é muito mais sensível não só quanto ao culto católico, como também nos sobrenomes de muitos fiéis, e no tocante ao próprio vocabulário local, que conserva inúmeras palavras lusas, mais ou menos deturpadas.

Hoje em dia, na esfuziante Cochim, é muito comum ver-se símbolos religiosos católicos em lojas, joalherias e hotéis dos maiores da cidade, pertencentes a católicos do rito Syro-Malabar. E, nas ruas, ônibus e autorickshaws com nomes como Saint Joseph, St. Mary's, Christ the King...

Com efeito, por obra e graça dos portugueses, Kerala é o estado de maior população católica da Índia (5).

 

Notas

1. Mesmo alguns dos habitantes locais ora usam o termo lago, ora o rio, e até lago de água corrente, pois recebe as águas de vários rios que descem da cadeia montanhosa central, os Ghats, em busca do mar.

2. Raja, rani significam rei e rainha. Por sua vez  Maharaja, maharani significam grande rei (imperador) e  grande rainha.

3. Os Cristãos de São Tomé eram cristãos que alegavam sua origem e conversão ao trabalho missionário daquele Apóstolo. Quando os portugueses chegaram à Índia, estavam eles infectados pela heresia nestoriana e inúmeras superstições.

4. Os ingleses passaram a usá-la depois para o culto anglicano, ao qual pertence até hoje. Felizmente os ossos de Vasco de Gama já haviam sido transferidos para Portugal.

5. Isso porque, embora proporcionalmente Goa tenha mais católicos (aproximadamente uns 30% contra 22% de Kerala), sua população é de apenas 3 milhões, enquanto a de Kerala beira os 50 milhões.

 

Fontes de referência:

Além de observações pessoais, foram consultadas para este artigo as seguintes obras:

Cochin, Microsoft (R) Encarta. Copyright (c) 1993 Microsoft Corporation, Cochin.

Cochin Diocese - A glorious past: Bishop Joseph Kureethara - 20 years of Holy service, in "Indian Communicator", Cochim, 9/2/96.

Nayab Naseer,  A Road Guide to Kochi-Ernakulam, TTK Pharma Limited - Printing Division, Madras 600 044, (Cochin).

Christianity in Kerala in retrospect, in "Indian Communicator", Cochin, 9/2/96, p. 8.