Vidas de Santos

São Caetano de Tiene
Apóstolo da autêntica Reforma católica

Suscitado pela Providência para combater os efeitos paganizantes do Renascimento, fundou a Ordem dos Teatinos para a reforma do clero

Plinio Maria Solimeo

São Caetano de Tiene foi outrora um santo muito popular no Brasil. Há várias cidades, igrejas, capelas e ruas em sua honra por todo o território nacional, embora sua vida seja insuficientemente conhecida. Visamos hoje contribuir para sanar essa lacuna.

Muita coisa se poderia dizer sobre o Renascimento. Sob certo ponto de vista, foi nesse período histórico que se deram “as realizações do que é chamado espírito moderno, em oposição ao espírito que prevaleceu durante a Idade Média”.1

Plinio Corrêa de Oliveira esclarece como se formou e desenvolveu esse espírito: “A admiração exagerada, e não raro delirante pelo mundo antigo, serviu como meio de expressão desse desejo (de uma ordem de coisas fundamentalmente diversa da que chegara a seu apogeu nos séculos XII e XIII). Procurando muitas vezes não colidir de frente com a velha tradição medieval, o Humanismo e a Renascença tenderam a relegar a Igreja, o sobrenatural, os valores morais da Religião, a um segundo plano. O tipo humano inspirado nos moralistas pagãos que aqueles movimentos introduziram como ideal na Europa, bem como a cultura e a civilização coerentes com este tipo humano, já eram legítimos precursores do homem ganancioso, sensual, laico e pragmático de nossos dias, da cultura e da civilização materialistas em que cada vez mais vamos imergindo. Os esforços por uma Renascença cristã não lograram esmagar em seu germe os fatores de que resultou o triunfo paulatino do neopaganismo”.2

Muitos membros da Igreja docente infelizmente absorveram esse espírito, e tal absorção foi uma das primeiras causas da crise religiosa, com toda sua repercussão sobre os fiéis. Foi em parte para combater essa situação calamitosa que a Providência suscitou São Caetano de Tiene.

Condes verdadeiramente católicos

Catedral de Vicência, cidade onde nasceu o santo

São Caetano nasceu em outubro de 1480 em Vicência, cidade da então República de Veneza. Seu pai, Gaspar, conde de Tiene, doutor em Direito e capitão de Couraceiros, possuía castelos nessa cidade. Era sobretudo um católico exemplar. Consagrado à Virgem Santíssima logo após o batismo, Caetano foi educado num ambiente nobre e profundamente religioso.

Quando contava apenas dois anos, faleceu seu pai. Coube à mãe, Maria do Porto, a árdua tarefa de educar os três filhos.

Praticamente nada se sabe da vida estudantil de Caetano. Como ele era tímido e modesto, evitando sobressair, ficamos privados dos pormenores de sua juventude. Sabemos que cursou os estudos jurídicos e teológicos na Universidade de Pádua, onde já era apontado como espelho de sabedoria em meio à libertinagem dos jovens colegas e notado por sua doçura, ingenuidade, modéstia e temperança.

Em 1504 Caetano graduou-se doutor em direito civil e canônico e recebeu a tonsura clerical. Três anos depois foi para a Roma.

Na Cidade Eterna, nessa época: “Leão X [Papa renascentista] submergia inconscientemente no tumulto de sua vida faustosa e de seus gostos profanos. Enquanto o mundo oficial da cúria romana entregava-se à arte, à política, à frivolidade ou à corrupção, um grupo de homens piedosos, honradamente persuadidos da necessidade de uma renovação social [e religiosa], organizaram uma irmandade destinada a fomentar a vida cristã em si mesmos e nos que os rodeavam”.3 Chamaram-na Companhia, ou Oratório do Amor Divino. Seus membros “mostraram ao mundo, com seu exemplo, que a fé e as obras não estavam mortas na Roma do Renascimento, apresentada então por Lutero como centro de todos os vícios”.4

Esse Oratório visava “combater a influência paganizante do Renascimento”,5 procurando “reacender o fogo do amor de Deus nos corações, e impedir que a heresia, a libertinagem, o amor aos prazeres e a paixão dos interesses não o banissem”.6 Ou seja, almejava uma verdadeira reforma católica. São Caetano entregou-se de corpo e alma ao Oratório.

Recebe nos braços o Menino Jesus

Na noite de Natal de 1517, Nossa Senhora apareceu a São Caetano com o Menino Jesus recém-nascido nos braços

Na noite de Natal de 1517, quando São Caetano rezava junto à relíquia do presépio que se venera na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma, Nossa Senhora apareceu-lhe com o Menino Jesus recém-nascido nos braços, acompanhada de São José e São Jerônimo, tendo depositado o Divino Infante nos braços de Caetano. Este fato é relatado pelo próprio santo a Sóror Mignani, em carta de 28 de janeiro de 1518. Tal aparição repetiu-se nas festas seguintes da Circuncisão e da Epifania. Por isso São Caetano é representado sempre com o Menino Jesus nos braços.7 Que pureza virginal e que limpeza de alma deveria ter alguém para receber tal privilégio!

Caetano voltou então à sua cidade natal, Vicência, para assistir aos últimos momentos de sua piedosa mãe. Depois do falecimento desta, enquanto cuidava dos negócios domésticos, o santo ingressou no Oratório de São Jerônimo, cujos fins eram os mesmos da Confraria do Amor Divino, mas que incluía entre seus membros também leigos pobres. Apesar do vozerio suscitado em suas relações, por considerarem indigno alguém de grande nascimento como ele misturar-se com humildes trabalhadores, Caetano não se importou. E fez de tudo para elevar espiritual e materialmente aqueles pobres operários.8 Conseguiu incrementar entre eles a comunhão frequente e as visitas aos enfermos nos hospitais. Fundou também o hospital dos Incuráveis, para os pobres sem esperança de cura.

Reforma do clero e regeneração da sociedade

Ao contrário de Lutero, que pretextou certos desmandos no clero para atrair as pessoas para sua pseudo-reforma, Caetano buscou levar adiante a obra da autêntica reforma católica desejada pelos Concílios de Latrão e de Trento. Pensou em fundar uma Ordem religiosa que enaltecesse o estado sacerdotal com a profissão dos três votos religiosos, sob a obediência a um superior e a dependência imediata da Santa Sé. Seu objetivo seria trabalhar pela reforma do clero e regeneração da sociedade. Caetano encontrou ótima aceitação entre três ilustres membros do Oratório do Amor Divino: João Pedro Carafa, bispo de Chietti, também oriundo de ilustre família condal e mais tarde Papa Paulo IV; Bonifácio Cola, hábil e virtuoso advogado, e Paulo Consiglieri, também de alta sociedade e vida ilibada.

Surgiu assim a Ordem dos Teatinos. Caetano compreendeu “que o nó do problema estava no clero, contagiado em grandes setores pela cobiça, a frivolidade e a imoralidade do Renascimento”.9 Esses religiosos deveriam ter tal confiança na Divina Providência, que não poderiam nem mesmo pedir esmolas, mas esperar que elas fossem dadas espontaneamente. Clemente VII (quadro ao lado) autorizou a nova fundação.

Em 1527 deu-se o saque de Roma, quando o Condestável de Bourbon, com um exército de 30 mil soldados composto por luteranos e assalariados sem princípios, pôs em sítio a Cidade Eterna. Por dois meses os luteranos – fervendo de ódio contra a fé católica, e seguidos pelo resto da soldadesca ávida de destruição –, causaram à cidade as maiores calamidades, não respeitando lugares sagrados nem pessoas. Caetano chegou a ser preso e torturado. Os teatinos, depois de muitos sofrimentos, tiveram que se trasladar para Veneza, onde empreenderam, a par das obras de misericórdia, a reforma do Missal e do Breviário romanos, que o Papa lhes havia encomendado.

Em todos os lugares em que esteve, São Caetano “contra o materialismo paganizante do Renascimento, desfraldou a bandeira do sobrenaturalismo cristão, modelando sua vida e sua ação sacerdotal segundo aquela máxima evangélica que constituiu também o lema de sua Ordem: ‘Buscai primeiro o Reino de Deus e sua justiça, e tudo vos será dado por acréscimo’. Promoveu com extraordinário zelo a magnificência do culto litúrgico, a santidade e o decoro dos templos, e a prática da comunhão frequente, metas importantes para sua obra de reforma”.10 Lutou contra a heresia que se infiltrava nos círculos aristocráticos e intelectuais de Nápoles, denunciou ao Santo Ofício três pregadores ganhos pela heresia luterana; fundou ou reformou vários mosteiros, estabelecendo para os operários dessa cidade um Monte de Piedade, que se tornou no atual Banco de Nápoles.

“A primeira figura da idade moderna”

Em 1547 o vice-rei de Nápoles, D. Pedro de Toledo, decidiu estabelecer ali o Tribunal da Inquisição nos moldes do espanhol. A nobreza e o povo se amotinaram e a sedição foi afogada em sangue. Isso resultou numa verdadeira guerra civil. As súplicas e mediações de São Caetano foram em vão. Como registra a bula de sua canonização, “aquebrantado pela dor ao ver Deus ofendido pelos tumultos populares, e mais ainda pela suspensão do Concílio de Trento, no qual havia posto tantas esperanças, caiu enfermo de morte”11 e faleceu no dia 7 de agosto de 1547. A bula diz ainda que, no mesmo dia de seu falecimento, cessaram todas as revoltas populares, segundo se crê por sua intercessão.

Seu ofício litúrgico afirma que São Caetano, por seu infatigável zelo, mereceu ser chamado Caçador das almas. O povo cristão o invoca com o título de Pai de Providência, porque sua intercessão é muito eficaz para se obter para as famílias e indivíduos os dons da Providência Divina. Um escritor, referindo-se ao santo, afirmou que, “como homem e como sacerdote, é a primeira figura da idade moderna”.12

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Notas:
1. William Barry, The Renaissance, The Catholic Encyclopedia, CD Rom edition.
2. Revolução e Contra Revolução, Parte I, Cap. III, 5 B, Catolicismo nº 100 (abril/199).
3. Fr. Justo Perez de Urbel, Año Cristiano, Ediciones Fax, Madri, 1945, tomo III, p. 300.
4. Edelvives, El Santo de Cada Dia, Editorial Luis Vives, S.A., Zaragoza, 1948, tomo IV, p. 385.
5. Pedro Antonio Rullán, San Cayetano de Thiene, Gran Enciclopédia Rialp, Ediciones Rialp, Madri, 1971, tomo V, p. 419.
6. Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Paris, 1822, tomoIX, p. 380.
7. Cfr. Pedro Antonio Rullán, op. cit. p. 418.
8. Cfr. http://www.corazones.org/santos/cayetano.htm.
9. Pedro Antonio Rullán, op. cit. p. 418.
10. Id. Ib.
11. Id. Ib.
12. Julio Salvatori, apud Pedro Antonio Rullán, op. cit. p. 419.

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