Janeiro de 2013
A palavra do Sarcedote
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A Palavra do Sacerdote

 

 

 

 

 

Monsenhor JOSÉ LUIZ VILLAC

 

Pergunta— Lendo a matéria de capa da revista de abril/2012, na p. 34, li uma afirmação que me deixou espantado e com muita dúvida. A afirmação é a seguinte: “A devoção à santa Virgem é necessária a todos os homens para conseguirem a salvação.” Não sou teólogo, nem filósofo, mas afirmar que a devoção a Maria é NECESSÁRIA não implica logicamente em dizer que o sacrifício de Jesus na Cruz é INSUFICIENTE? Por favor, esclareçam este ponto, pois não consigo entender. Sou católico e catequista, por isso gosto muito de ler a revista Catolicismo, de onde tiro bons momentos e assuntos de discussão com os catecúmenos que estão na minha turma. Talvez até me encaixe na categoria de devoto escrupuloso (p. 35), mas é importante compreender totalmente as afirmações antes de, eventualmente, propagá-las para aqueles que escutam minha instrução em matéria de fé e doutrina, não é? Agradeço sua atenção.

Resposta— É digno de registro que o missivista “gosta muito de ler” a nossa revista, “de onde tira bons momentos” e temas para tratar com os seus catequizandos. Não obstante, ficou “espantado e com muita dúvida” sobre o que está dito a respeito do papel de Nossa Senhora na obra da Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo, no artigo de abril de 2012.

Trata-se de um artigo escrito por Plinio Maria Solimeo, comemorativo do terceiro centenário do célebre Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de São Luís Maria Grignion de Montfort. Esse livro foi escrito em 1712, mas permaneceu inédito, guardado numa arca até 1842, quando foi descoberto por um missionário da congregação fundada pelo referido santo. A frase que “deixou espantado” o consulente não é de nosso articulista, mas do próprio santo, e se encontra largamente desenvolvida ao longo do Tratado, do qual citaremos a seguir alguns tópicos, para esclarecimento do leitor, como ele instantemente nos pede.

Assim, por exemplo, no tópico 14, diz São Luís Grignion: “Confesso com toda a Igreja que Maria é uma pura criatura saída das mãos do Altíssimo. Comparada, portanto, à Majestade infinita, Ela é menos que um átomo, é antes um nada, pois só Ele é ‘Aquele que é’ (Ex 3,14) e, por conseguinte, este grande Senhor, sempre independente e bastando-se a Si mesmo, não tem nem teve jamais necessidade da Santíssima Virgem para a realização de suas vontades e a manifestação de sua glória. Basta-lhe querer para tudo fazer”.

Mas, em seguida, no tópico 15, o santo continua: “Digo, entretanto, que, supostas as coisas como são, já que Deus quis começar e acabar suas maiores obras por meio da Santíssima Virgem, depois que a formou, é de crer que não mudará de conduta nos séculos dos séculos, pois Deus é imutável em sua conduta e em seus sentimentos”.

A seguir analisa detalhadamente as ações que as três Pessoas da Santíssima Trindade operaram em Maria e por Maria: “Deus Pai só deu ao mundo seu Unigênito por Maria. [...] Porque o mundo era indigno, diz Santo Agostinho, de receber o Filho de Deus diretamente das mãos do Pai, Ele o deu a Maria, a fim de que o mundo o recebesse por meio d’Ela. Em Maria e por Maria é que o Filho de Deus se fez homem para nossa salvação. Deus Espírito Santo formou Jesus Cristo em Maria, mas só depois de lhe ter pedido consentimento por intermédio de um dos primeiros ministros da corte celestial” (n° 16).

E depois de alongar-se sobre as obras que Deus Pai e Deus Filho fizeram por meio de Maria, detém-se especialmente na terceira Pessoa da Santíssima Trindade: “O Espírito Santo, que era estéril em Deus, isto é, não produzia outra pessoa divina, tornou-se fecundo em Maria. É com Ela, n’Ela e d’Ela que Ele produziu sua obra prima, um Deus feito homem, e que produz todos os dias, até o fim do mundo, os predestinados e os membros do corpo deste Chefe adorável. Eis por que, quanto mais em uma alma Ele encontra sua querida e inseparável Esposa, mais operante e poderoso se torna para produzir Jesus Cristo nessa alma, e essa alma em Jesus Cristo” (n° 20).

 

 

Nossa Senhora lança seu cinto a São Tomé no momento  de Assunção

E explica: “Não se quer dizer com isto que a Santíssima Virgem dê fecundidade ao Espírito Santo, como se Ele não a tivesse. Sendo Deus, Ele possui a fecundidade ou capacidade de produzir, como o Pai e o Filho. Não a reduz, porém, a ação, não gera outra pessoa divina. O que se quer dizer é que o Espírito Santo, por intermédio da Virgem, da qual se quis servir, se bem que não lhe fosse absolutamente necessário, reduziu a ato sua fecundidade, produzindo n’Ela e por Ela, Jesus Cristo e seus membros. É um mistério da graça, inacessível até aos mais sábios e espirituais dentre os cristãos” (n° 21).

Assim, quando se lê, no Tratado da Verdadeira Devoção, que “a devoção à Santíssima Virgem é necessária à salvação” (n° 40), trata-se do que os teólogos chamam de “necessidade hipotética”, isto é, porque Deus quis que assim fosse, não porque fosse absolutamente necessário. Daí a conclusão de São Luís Grignion: “É preciso concluir que a Santíssima Virgem, sendo necessária a Deus, de uma necessidade chamada hipotética — devido à sua vontade — é muito mais necessária aos homens para chegarem a seu último fim” (n° 39), isto é, à salvação eterna.

Como o missivista pode notar, nada do que São Luís Grignion expõe tem a ver com a ideia de que o Sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo na Cruz tivesse qualquer coisa de insuficiente. O rumo de seu pensamento é totalmente outro. Tudo se deve ao sacrifício redentor de Cristo. Mas a aplicação desses méritos aos homens é o Divino Espírito Santo que a faz por meio de Maria, conforme explicado por São Luís Maria Grignion de Montfort.

É claro que o Espírito Santo atua pelo indispensável ministério da Santa Igreja, do qual São Luís Grignion foi um ardoroso ministro. Mas este é um ponto subentendido que ele não precisava ressaltar aqui.

4) Na quarta linha primeiro parágrafo do subtítulo "De Maria nunquam satis": 

"A ponto de ter extasiado as melhores almas desde meados do século XIX -- quando o Tratado foi publicado -- até meados do século XX, e mesmo até hoje, ..."

“De Maria nunquam satis”

Certamente há de ter chamado a atenção do leitor a originalidade e até mesmo — como não dizer? — a audácia do pensamento de São Luís Grignion, que é de uma ortodoxia inatacável. A ponto de ter extasiado as melhores almas desde meados do século XX — quando o Tratado foi publicado — até meados do século XIX, e mesmo até hoje, embora esse ardor tenha arrefecido em muitos, por causas que daqui a pouco indicaremos.

Antes, porém, convém deixar consignado que da doutrina de São Luís Grignion se pode resumidamente dizer que é uma aplicação, levada ao extremo, do conhecido axioma mariológico “De Maria nunquam satis”. Isto é, de Maria se podem fazer os maiores elogios, quanto mais altos, melhor: d’Ela só não se pode dizer —como o faziam seus adversários com pontiaguda malícia —que é uma quarta pessoa da Santíssima Trindade...

Tudo isto arrepia os espíritos “protestantizados”, que adotam um princípio oposto: De Maria quantum minus melior...

Dá-nos um depoimento pessoal sobre a penetração deste espírito nos meios católicos o cardeal Joseph Ratzinger, em sua célebre entrevista a Vittorio Messori, da qual o jornalista publicou na revista “Jesus” (Milão, ano VI, novembro de 1984, pp. 67-81) um resumo prévio ao lançamento integral no livro Rapporto sulla Fede (Edizioni Paoline, Milão, 1985). “Antes do Concílio — afirma o Cardeal — não compreendia absolutamente certas fórmulas antigas como Maria é a inimiga de todas as heresias. Outras, como o célebre De Maria nunquam satis, me pareciam excessivas. Mudando a situação, durante e depois do Concílio, e aprofundando o tema, mudei de opinião, convencido de ter-me enganado. De alguns pontos, estou agora mais do que nunca convencido: 1°) Reconhecer a Maria o lugar que o dogma e a tradição católica lhe conferem significa estar solidamente radicados na cristologia autêntica” (“Jesus”, p.79).

Se até o Cardeal Ratzinger sentiu em si a penetração do espírito que rejeitava como excessiva a fórmula De Maria nunquam satis, não é de admirar que o leitor, tão amigo de Catolicismo, tenha ficado perplexo diante da afirmação tão categoricamente marial de São Luís Grignion: “A devoção à santa Virgem é necessária a todos os homens para conseguirem a salvação”.

Esperamos que as explicações aqui dadas convençam o benévolo missivista de que a teologia mariana de São Luís Grignion está solidamente radicada na cristologia autêntica”, como também disso se convenceu o atual Papa Bento XVI.

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