Janeiro de 2013
Contradições, desentendimentos e fragmentação de planos no mundo temporal e espiritual
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A União Europeia transformou-se numa real “desunião europeia”; os EUA polarizaram-se em duas metades inconciliáveis; divisão no mundo católico em face da interpretação do Concílio Vaticano II e caos no sonho de concórdia irenista universal; 18 Prêmios Nobel fixaram o “pêndulo do Apocalipse” a cinco minutos do fim.

  Luis Dufaur

2011 não havia ainda se encerrado quando o monumental presépio da catedral de Rieti — diocese italiana que viu nascer o presépio inspirado por São Francisco de Assis — era “abolido” por ordem do bispo. Mais tarde, veio o esclarecimento de que ele seria montado em proporções mínimas, adaptando-se à crise econômica europeia.

Despojado de seu maravilhoso simbolismo, o presépio de Rieti representou o ano de 2011 que expirava, e o de 2012 que se iniciava no esquecimento de Deus e de sua Igreja, em consonância com o mundo atual e seus péssimos rumos. E, no final de 2012, constatamos que a situação tanto no plano temporal quanto no espiritual agravou-se consideravelmente.

14 de abril de 1912 – 13 de janeiro de 2012: um século separou o espetacular naufrágio do Titanic do catastrófico encalhamento do Costa Concordia — o maior navio de cruzeiro já construído na União Europeia. Ben Macintyre, do jornal londrino “The Times”, interpretou o fato como sendo o prenúncio do fim de uma época confiante e insegura, do mesmo modo como o Titanic o fora da Belle Époque. O capitão do Costa Concordia quis ostentar a imponência do navio fazendo-o passar muito próximo da ilha do Giglio, na Toscana. Uma pedra submersa desventrou o gigante flutuante. Simultaneamente, no mar convulsionado das crises, a União Europeia (UE) gemia, atingida em suas vísceras econômicas, enquanto conceituados especialistas traçavam planos para abandonar a nave quase perdida do euro e talvez da própria UE.

Desconjuntamento da União Europeia

Em 2012 quase não houve semana em que os líderes políticos e os timoneiros do sistema bancário mundial não se reunissem para com um golpe de leme evitar sua falência nos dias subsequentes. A pequena Grécia custou planos faraônicos de resgate; e Portugal não consegue se reerguer. O euro — moeda-símbolo e instrumento de uma atividade econômica continental geradora de enriquecimento, bem-estar e concórdia — passou a ser considerado como símbolo do empobrecimento forçado, das privações e dos desacordos que corroem a Europa.

Da Espanha provieram estalidos assustadores: governo nacional falido; sistema bancário em situação calamitosa; regiões em estado de falência; famílias endividadas além do razoável; hospitais sem verbas nem medicamentos; bandos de saqueadores atacando supermercados. Na madrilense Puerta del Sol e nas grandes cidades, eclodiram rumorosas manifestações dos chamados “indignados”. Tratava-se de magotes constituídos principalmente por agitadores profissionais que, junto com baderneiros de outras capitais europeias, enfrentaram violentamente a polícia. Como a opinião pública espanhola não os acompanhou, chegado o verão os “indignados” se dissolveram, conformados com as férias. Nas eleições regionais da Galícia, a mídia “profetizou” a derrota do governista Partido Popular (conservador). Mas este venceu com larga margem de votos.

 

 

Os "indignados" promovem qubra-quebras em cidades espanholas

Desemprego recorde; cortes nas despesas públicas; aumento de impostos; cortes de benefícios para a população; despejos maciços de pessoas incapazes de pagar as dívidas de suas casas aos bancos; limitações das verbas dos governos regionais: estas e outras “austeridades” foram pretexto para que certas regiões necessitadas de subsídios ameaçassem com secessão ou independência. Na Catalunha, as eleições regionais de novembro serviram de teste para iniciar o processo de separação da Espanha. Porém, o povo catalão puniu o partido CiU, principal promotor da “soberania”, e manteve o statu quo vigente. Ainda assim, 160 dos 947 municípios se declararam “território catalão livre e soberano”, e os representantes catalães romperam em dezembro as tratativas com o governo de Madri a respeito do uso da língua castelhana.

O caso espanhol foi apenas o mais carregado em cores devido ao temperamento nacional. Na Escócia, com menos ruído, o premiê britânico David Cameron aprovou a realização de um plebiscito para se decidir sobre sua separação da Grã-Bretanha. Se esta for aprovada, a unidade britânica perderá muito de sua força. E a Escócia independente passará a ser uma pequena república submissa em tudo à União Europeia.

França, Alemanha, Itália e Inglaterra abaladas

No final de 2012, na França, as propostas do novo presidente socialista François Hollande — estatizantes e militantemente contrárias aos proprietários “ricos”, de um lado, mas perdulárias e favorecedoras da Revolução Cultural de outro — causaram desastrosos resultados. Os mais ricos fugiram do país devid



 Movimento separatista na Catalunha

o aos impostos escorchantes — inclusive o famoso ator Gerard Depardieu —, as fábricas diminuíam seu ritmo de produção, o Estado-Previdência cresceu de modo doentio. Com isso pulverizou-se a popularidade do presidente socialista, sem que o governo freasse a cavalgada rumo ao abismo. Hollande fora eleito em maio não por mérito próprio, mas pela náusea causada no público francês pelo então presidente Nicolas Sarkozy. Em novembro, a revista “The Economist” apontou a França como uma “bomba-relógio no coração da Europa” (“Folha de S. Paulo”, 17-11-12). As “agências de classificação de risco”, estranhamente poderosas, rebaixaram o rating soberano da França, que até então se situava no máximo. França e Alemanha constituem a dupla indispensável para garantir a coesão da UE. Sem elas a União Europeia só pode esperar um esboroamento. Em dezembro, o público francês clamava por um retorno da direita em clave mais radical, crescia o Front National na extrema direita, enquanto nas ruas multiplicavam-se as manifestações contra o aborto e contra o “casamento” homossexual impulsionados pelo governo de esquerda.

Enquanto a Alemanha pagava ao longo do ano o custo sideral da aventura da unificação europeia, sua população passou a achar que o preço da utopia estava alto demais. Na ótica germânica, o país perdia demasiado sangue para manter povos que “não trabalham”. E os beneficiados ainda se voltaram contra a Alemanha como diante de um chefe de campo de concentração que obriga os prisioneiros a trabalhar sem piedade. Angela Merkel passou a ser caricaturizada com bigode hitlerista ou com chicote na mão. Pelo final do ano, a própria bonança econômica alemã tocava no fim: quem iria comprar as máquinas e os instrumentos de alta tecnologia, causa de sua riqueza? Os europeus em recessão, não; os EUA possuem a sua tecnologia; a China diminuiu a produção e a exportação; e os ‘emergentes’ não têm dimensão para solucionar o caso.

A Itália somou-se aos países em virtual estado de falência, sobretudo em dezembro, quando a desobediência e a revolta generalizada contra as medidas de austeridade provocaram a queda do premiê Mário Monti e abriram a possibilidade de um retorno de Berlusconi ao poder. Na Inglaterra, os britânicos não ocultaram sua antiga antipatia contra a União Europeia. Puniram o Partido Conservador nas eleições parlamentares complementares de novembro, dando mais votos ao Partido da Independência (em relação à UE). Boris Johnson, prefeito conservador de Londres, voltou então a acenar com um plebiscito sobre a saída da UE, sempre prometido e jamais convocado. É grande o temor de que a voz popular — que não aceitou o euro — peça agora a saída da Grã-Bretanha da UE.

Do mito da concórdia à babel da discórdia geral

Economistas, colunistas, editorialistas, Prêmios Nobel e outras sumidades lucubraram uma penca de hipóteses sobre o futuro da Europa. De claro só sinalizaram uma coisa: a inexistência de líderes ou de pensadores à altura do desafio.

A ilusão de uma Europa como a sonhada nos anos 50 pelos pais fundadores da União Europeia foi se diluindo como fumaça. Esses “pais” imaginaram uma “filha” altamente democrática, já não mais hostil ao cristianismo como o democratismo laico do século XIX, herdeiro da Revolução Francesa. O comunista sentar-se-ia junto ao capitalista, o próprio anarquista junto ao aristocrata, o anticlerical ao lado do católico, e todos dialogariam sem graves impedimentos, visando consensualmente um porvir da Europa. As rivalidades nacionais e regionais se evolariam. E, de braços dados, também as religiões iriam superando os conflitos e diferenças do passado. Entretanto, em 2012 o mito da concórdia e do consenso não resistiu à prova da realidade. O sonho virou pesadelo e a discórdia geral ficou indisfarçável.

A União Europeia passou a ser tratada de “desunião europeia”, enquanto desenhos e caricaturas representavam esfarrapada sua bandeira de doze estrelas. Falou-se em criar dois euros, um “forte” e outro “fraco”, em excluir alguns países da união monetária, e até em voltar às antigas moedas nacionais. Estudos e planos nesse sentido foram elaborados no segredo dos mais altos grupos econômicos. O sonho utópico resistia ainda em dezembro. Propunham-se esquemas fiscais e de governo cada vez mais ditatoriais, causando arrepios à população.

 

 

 A torre de Babel, uma parábola para a situação atual da Europa

Hungria proclama verdades e UE tenta amordaçá-la

Bastou que uma nação da União Europeia inscrevesse em sua constituição princípios cristãos para que o coro dos países em desordem se levantasse em bloco contra ela. Com efeito, em janeiro, passou a vigorar na Hungria uma Lei fundamental que invoca para o país a bênção de Deus e se ufana pelo fato de há 1000 anos nosso rei Santo Estêvão ter criado o Estado húngaro sobre base sólida e inserido nossa pátria como parte da Europa cristã”. A referida constituição define o casamento como“união entre um homem e uma mulher”, “base para a sobrevivência da Nação”, e protege a vida do nascituro desde a concepção até a morte natural. Mas para a desvairada UE o povo húngaro estava “abolindo a democracia”. Falou-se até em “expulsão da Hungria da União Europeia como algo que não é mais impensável” (“O Estado de S. Paulo”, 3-1-12).

Apoiado em seu país por manifestações populares maciças, Viktor Orban, premiê húngaro, defendeu em Madri que “a crise europeia aconteceu pelo abandono das responsabilidades dos dirigentes que puseram em tela de juízo as raízes cristãs”. Sublinhou que “uma Europa regida segundo os valores cristãos se regeneraria”, e mostrou como exemplo que o primeiro rei húngaro, Santo Estêvão, ofereceu sua coroa a Nossa Senhora ao morrer sem descendência. Afirmou ainda que o protestantismo entronizou a avareza, sobre cuja base foi erguida uma pirâmide de créditos que escraviza hoje famílias e povos. Estados, empresas e pessoas emprestaram e contraíram dívidas ciclópicas, mas a verdadeira raiz da crise é a ausência de princípios morais católicos. O premiê acrescentou que os dirigentes políticos europeus, que estrangulam povos endividados, menosprezam os ideais cristãos, especialmente os da vida de família e do crédito justo (InfoCatólica, 18-11-12).

 

 

Angela Merkel representada como Hitler

A cólera cristofóbica que penetra a mais alta administração da UE, dos EUA e dos governos nacionais europeus “laicos” desatou-se contra a Hungria. Quando o bom senso, a moral e a própria história são vilipendiados tão clamorosamente, quem pode garantir que o desconcerto geral na UE não atinja um paroxismo de irracionalidade, levando-o ao colapso? Os fatos de 2013 darão resposta a esta pergunta.

Crise no Vaticano

As suspeitas e denúncias sobre irregularidades na administração vaticana deixaram na penumbra a ofensiva desencadeada contra a Igreja Católica sob o pretexto de combater a pedofilia. A Mons. Carlo Maria Viganò — hoje Núncio nos EUA — foi atribuída, e nunca desmentida, a descoberta de graves desordens na gestão do Estado do Vaticano: “uma rede de corrupção, nepotismo e favorecimento” nos contratos, segundo informou “O Globo” (27-1-12).

 

 

Apoio popular ao premiê Viktor Orban, pelas suas posições conservadoras condenadas pela comunidade Europeia

As denúncias foram ampliadas por uma imprensa sensacionalista e anticlerical, que apontou a existência de uma suposta “luta pelo poder” que incluía desvios de capitais a partir de um esquema em cujo centro estaria o eclesiástico de maior confiança de Bento XVI: o cardeal Tarcísio Bertone, secretário de Estado. Boatos, intrigas e “documentos confidenciais” furtados da mesa do Papa serviram de munição a um volumoso livro do jornalista Gianluigi Nuzzi Chiarelettere, intitulado Sua Santità — Le carte segrete di Benedetto XVI (Milão, 2012, 326 pp.). A Cúria romana era descrita como “palácios da intriga” povoados por espíritos gananciosos, sem moralidade e de pouca fé. Segundo a mencionada obra, a única saída razoável seria o Papa abandonar o Palácio de São Dâmaso, sua residência atual, e a própria Basílica de São Pedro. O vaticanista Vittorio Messori sugeriu “confiar à UNESCO locais artísticos e turísticos, os palácios sobre a colina do Vaticano, voltar à ‘verdadeira’ catedral do bispo de Roma, a de São João de Latrão, com uma estrutura institucional reduzida ao mínimo” (“Corriere della Sera”, 13-2-12). Rumores — ora fantasiosos, ora com visos de realidade, confirmados por vezes pela autoridade vaticana — emergiram do noticiário sobre o governo do Vaticano. Entre os boatos não demonstrados figurou um suposto complô gestado no Vaticano visando assassinar o Papa Bento XVI, o qual teria sido descoberto pelo cardeal Paolo Romeo, arcebispo de Palermo (“O Estado de S. Paulo”, 19-2-12). Entre os fatos confirmados e julgados destacou-se o caso de Paolo Gabriele, mordomo do palácio pontifício, condenado a 18 meses de prisão pela justiça vaticana por ter roubado documentos confidenciais da secretaria do Papa, os quais apareceram no escândalo. A mídia difundiu a versão de que o mordomo não teria agido sozinho, e que por trás havia pessoas hierarquicamente mais elevadas.

Revoltas eclesiásticas cismáticas

 

 

Pe. Helmut Shüller, Líder da revolta clerical do movimento subversivo "Iniciativa dos Párocos"(Pfarrer Initiative), que alega contar com 400 sacerdotes e diáconos

Da Áustria partiu a “Iniciativa dos Párocos” (Pfarrer Initiative), movimento subversivo que alega contar com 400 sacerdotes e diáconos. O líder da revolta foi o Pe. Helmut Schüller, ex-vigário geral da arquidiocese de Viena. Os rebelados lançaram um Apelo à desobediência contra Roma, qualificado de cisma pelo cardeal Walter Brandmüller (www.chiesa, 20-3-12). Em fevereiro, 500 sacerdotes alemães, austríacos e suíços repeliram esse apelo como “mais um triste sintoma do cisma que de fato vem se verificando há tempo sob o olhar dos bispos, na área de língua alemã”. Eles criticaram com dureza a fraca reação dos bispos, que “preferem ficar vendo como se deteriora a autoridade” (Vatican Insider 21-2-12). Entre seus objetivos principais, os clérigos sediciosos incluíram: abolição do celibato; reintegração no clero dos sacerdotes casados reduzidos ao estado laical; ordenação de mulheres; aceitação do homossexualismo; sacramentos para os divorciados que se casaram novamente; leigos na presidência da liturgia dominical; etc. Setores do clero na Alemanha, França, Eslováquia, EUA e Austrália aderiram à revolta.

Em abril, o cardeal Christoph von Schönborn, arcebispo de Viena, confirmou o homossexual assumido Florian Stangi na chefia do conselho paroquial de Stützenhofen. Diante disso, o Pe. Gerhard Swierzek julgou que não podia permanecer à frente da paróquia (Unisinos, 4-4-12).

A rebelião desencadeada pela “Iniciativa dos Párocos” foi a ponta de um iceberg que cresceu desmesuradamente em 2012. Fato marcante nesse sentido foi o protagonizado pela Conferência da Liderança Religiosa Feminina (LCWR — Leadership Conference of Women Religious), organização que representa a grande maioria das congregações religiosas femininas, muito progressistas, mas fadadas a desaparecer devido à falta de vocações e pelo fato de suas religiosas já terem uma idade média de 74 anos. Simultaneamente, sob a liderança da irmã Simone Campbell, as religiosas da associação Network — Lobby Nacional Católico para Justiça Social — tornaram-se as “queridinhas da esquerda americana”. Durante 15 dias elas percorreram nove estados, numa caravana em prol do presidente Obama e de sua reforma da saúde. Essa reforma atenta contra princípios morais fundamentais católicos e ameaça a sobrevivência de numerosas instituições caritativas da Igreja.

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