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Terceira parte do Segredo de Fátima: visão profética, angustiante de início, que termina numa imagem de esperança

Na edição anterior, Catolicismo noticiou a divulgação da terceira parte do Segredo de Fátima e forneceu aos leitores o texto completo das três partes do referido Segredo. Em cumprimento da promessa de um comentário sobre a parte ora divulgada, publicamos aqui substanciosa apreciação redigida pelo fatimólogo Antonio Augusto Borelli Machado, autor do best-seller As aparições e a mensagem de Fátima conforme os manuscritos da Irmã Lúcia,  publicado em 18 línguas e perfazendo o impressionante total de 3,7 milhões de exemplares.

·         Antonio Augusto Borelli Machado

Fac-símile do manuscrito que contém a terceira parte do segredo
E
ntre os grandes acontecimentos já ocorridos ou por ocorrer neste ano de 2000, ocupará certamente um lugar ímpar a revelação da terceira parte do Segredo de Fátima feita pela Santa Sé, com grande aparato publicitário, no último dia 26 de junho, na Sala Stampa do Vaticano. A sessão, presidida pelo próprio Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, acompanhado de Mons. Tarcisio Bertone, Arcebispo-emérito de Vercelli e Secretário da mesma  Congregação, foi retransmitida ao vivo pela rede de TV estatal italiana e outras emissoras de TV de todo o mundo.

O documento divulgado pela Santa Sé se intitula A mensagem de Fátima e reúne diversas peças da maior importância, entre as quais um Comentário teológico, feito e assinado pelo Cardeal Ratzinger, contendo uma explanação sintética sobre o “lugar teológico” da revelação pública e das revelações privadas na Igreja, seguido de “uma tentativa de interpretação do ‘segredo’ de Fátima”.

Na conferência de imprensa da Sala Stampa, o Cardeal Ratzinger foi enfático ao afirmar que de forma alguma a Santa Sé pretendia impor essa interpretação, pelo que se deduz estar facultado aos estudiosos tentar aprofundá-la ou mesmo oferecer novas perspectivas de interpretação. Com quanta prudência e modéstia devem fazê-lo, é supérfluo encarecer.

De nossa parte, é o que despretensiosamente procuraremos encetar em seguida, aduzindo conceitos da espiritualidade montfortiana (de São Luís Maria Grignion de Montfort), tão afins com a Mensagem de Fátima, bem como enriquecimentos desses conceitos produzidos pelo eminente pensador e homem de ação católico, Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, falecido em 1995. Excertos de dois artigos seus publicados em Catolicismo (de maio de 1953 e fevereiro de 1958, respectivamente) e que também transcrevemos aqui (ver pp. 22-23 e 26-27), constituem autênticas glosas do terceiro Segredo, feitas com mais de quatro décadas de antecedência!

Para maior facilidade de compreensão, intercalamos subtítulos no texto da terceira parte do Segredo, que extraímos do referido documento apresentado pela Sagrada Congregação da Doutrina da Fé. Os números colocados depois de cada subdivisão remetem para os Nossos comentários logo abaixo.

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Terceira parte do segredo:

Visão profética de um castigo iminente, de uma catástrofe imensa e do grande retorno das almas a Deus

“J.M.J.

A terceira parte do segredo revelado a 13 de Julho de 1917 na Cova da Iria — Fátima.

D. José Alves Correia da Silva, Bispo de Leiria, ordenou à Irmã Lúcia escrever a mensagem de Nossa Senhora
Escrevo em acto de obediência a Vós Deus meu, que mo mandais por meio de sua Ex.cia Rev.ma o Senhor Bispo de Leiria e da Vossa e minha Santíssima Mãe (1).

Primeira cena: A ameaça de castigo que pende sobre o mundo

Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora um pouco mais alto um Anjo com uma espada de fôgo em a mão esquerda; ao centilar, despedia chamas que parecia iam encendiar o mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: Penitência, Penitência, Penitência! (2).

Segunda cena: Uma pavorosa catástrofe que deixa o mundo meio em ruínas e produz vítimas em todas as categorias sociais, inclusive e maximamente o Santo Padre, o Papa

O Prelado com a religiosa em Tuy (Espanha)
E vimos numa luz emensa que é Deus: “algo semelhante a como se vêem as pessoas n'um espelho quando lhe passam por diante” um Bispo vestido de Branco “tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre”. Varios outros Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fôra de sobreiro com a casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dôr e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de juelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam varios tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns trás outros os Bispos Sacerdotes, religiosos e religiosas e varias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de varias classes e posições (3).

Terceira cena: O Grande Retorno da humanidade a Deus

Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal em a mão, n'êles recolhiam o sangue dos Martires e com êle regavam as almas que se aproximavam de Deus (4).

Tuy-3-1-1944”

Fátima: explicação e remédio da crise contemporânea

Um comentário sobre o terceiro Segredo feito com mais de quatro décadas de antecedência

·         Plinio Corrêa de Oliveira

A sociedade humana apresentava na primeira parte deste século, isto é, até 1914, aspecto brilhante. O progresso era indiscutível em todos os terrenos. A vida econômica tinha alcançado uma prosperidade sem precedentes. A vida social era fácil e atraente. A humanidade parecia caminhar para a era de ouro.

Santo Agostinho...
Alguns sintomas graves, entretanto, destoavam das cores risonhas deste quadro. Havia misérias materiais e morais. Mas poucos eram os que mediam em toda a sua extensão a importância destes fatos. A grande maioria esperava que a ciência e o progresso resolvessem todos os problemas.

A Primeira Guerra Mundial veio opor um desmentido terrível a estas perspectivas. Em todos os sentidos, as dificuldades se agravaram incessantemente até que, em 1939, sobreveio a Segunda Guerra Mundial. E assim chegamos à condição presente, em que se pode dizer que não há sobre a Terra uma só nação que não esteja a braços, em quase todos os campos, com crises gravíssimas.

Em outras palavras, se analisamos a vida interna de cada nação, notamos nela um estado de agitação, de desordem, de desbragamento de apetites e ambições, de subversão de valores, que se já não é a anarquia franca, em todo caso caminha para lá. Nenhum estadista de nossos dias soube ainda apresentar remédio que corte o passo a este processo mórbido de envergadura universal.

São Vicente Ferrer...
O elemento essencial das mensagens de Nossa Senhora e do Anjo de Portugal em Fátima, no ano de 1917, consiste exatamente em abrir os olhos dos homens para a gravidade dessa situação, em lhes ensinar sua explicação à luz dos planos da Providência Divina, e em indicar os meios necessários para evitar a catástrofe. É a própria História de nossa época e, mais do que isto, o seu futuro, que nos é ensinado pela Mãe de Deus.

O Império Romano do Ocidente se encerrou com um cataclismo iluminado e analisado pelo gênio de um grande Doutor, que foi Santo Agostinho. O ocaso da Idade Média foi previsto por um grande profeta, São Vicente Ferrer. A Revolução Francesa, que marca o fim dos Tempos Modernos, foi prevista por outro grande profeta, e ao mesmo tempo grande Doutor, São Luís Maria Grignion de Montfort. Os Tempos Contemporâneos, que parecem na iminência de se encerrar com nova crise, têm um privilégio maior. Veio Nossa Senhora falar aos homens.

São Luís Maria Grignion de Montfort, um dos grandes santos que previram o ocaso de suas respectivas épocas
Santo Agostinho não pôde senão explicar para a posteridade as causas da tragédia que presenciava. São Vicente Ferrer e São Luís Grignion de Montfort procuraram em vão desviar a tormenta: os homens não os quiseram ouvir. Nossa Senhora a um tempo explica os motivos da crise, e indica o seu remédio, profetizando a catástrofe caso os homens não A ouçam.

De todo ponto de vista, pela natureza do conteúdo como pela dignidade de quem as fez, as revelações de Fátima sobrepujam, pois, tudo quanto a Providência tem dito aos homens na iminência das grandes borrascas da História.

Os diversos pontos das revelações relativos a este tema constituem propriamente o elemento essencial das mensagens. O mais, por importante que seja, constitui mero complemento.

·         Catolicismo, nº 29, maio de 1953 (extratos)

 

 

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