A Palavra do Sacerdote

Monsenhor JOSÉ LUIZ VILLAC

Pergunta — Os jornais destes últimos dias estiveram cheios de notícias sobre a descoberta, pelos cientistas, da chamada “partícula de Deus”. Qual é o alcance dessa descoberta para a nossa Religião?

Resposta — Entre os leitores de Catolicismo certamente há pessoas com formação universitária capaz de entender as complicadas matérias científicas envolvidas na descoberta em questão. A maioria de nossos leitores, entretanto, mesmo entre os que têm uma formação cultural acima da média, não terão essa possibilidade. Isso, entretanto, não os impedirá de compreender o alcance dessa descoberta para a confirmação de um ponto básico da nossa fé, como é a existência de Deus. Por isso, pareceu-nos que a presente pergunta dá ensejo a corroborá-los nesse ponto fundamental da doutrina da fé.

Os cientistas constatam e analisam fatos, e com eles elaboram uma visão do universo físico, porém não sobem até considerações metafísicas, palavra de origem grega que indica aquilo que está além do físico. As ciências físicas, portanto, não podem provar a existência de Deus, pois isso está acima de sua competência. Mas a visão do universo que delas decorre permite que os homens, a partir dela, cheguem ao conhecimento certo da existência de Deus.

Aliás, a simples contemplação do universo basta aos homens para chegar a esse conhecimento certo. Por isso, diz São Paulo, em sua epístola aos Romanos, que os homens que negam a existência de Deus são inexcusáveis: “Porque o que se pode conhecer de Deus é-lhes manifesto, porque Deus lho manifestou. Porque as coisas invisíveis d’Ele, depois da criação do mundo, compreendendo-se pelas coisas feitas, tornaram-se visíveis: assim, o seu poder eterno e a sua divindade; de modo que são inexcusáveis” (Rom 1,20).

Assim, se mesmo um homem de pouca cultura, olhando a grandeza do universo, pode chegar ao conhecimento certo da existência de Deus, quanto mais cientistas que, analisando com os seus moderníssimos instrumentos de observação a arquitetonia do universo, estão em condições de tirar, para além da física, a conclusão da existência de Deus, constatando “o seu poder eterno e a sua divindade”. De modo que eles, mais que os ignorantes, “inexcusabiles sunt” se não reconhecem a existência de Deus, como diz São Paulo.

Alcunha inapropriada, porém muito sugestiva

Ao longo do século XX, os cientistas elaboraram um Modelo Padrão da Física, para explicar o comportamento do universo em escala sub-atômica. Esse modelo comportava a existência de 32 partículas, das quais 31 já haviam sido geradas e detectadas em experiências. Faltava comprovar a existência de uma, cujas características haviam sido descritas pelo físico inglês Peter Higgs, que por isso leva seu nome: bóson de Higgs. Esta partícula “seria responsável por dotar de massa todas as demais partículas. Isso teria ocorrido no primeiro trilionésimo de segundo após o Big Bang, a grande explosão que deu origem ao Universo. E é por isso que, para horror de muitos cientistas, o bóson foi apelidado de partícula de Deus” (Cesar Baima, Habemus Higgs, “O Globo”, 5-7-12).

Outro articulista acrescenta as seguintes explicações: “A alcunha foi dada pelo prestigiado físico Leon Lederman (vencedor do Prêmio Nobel em Física e autor de The God Particle, livro que explica a teoria para o público leigo), pelo fato de o bóson de Higgs ser a partícula que permite que todas as outras tenham diferentes massas. Ele fez uma analogia com a história bíblica da Torre de Babel, em que Deus, ao se enfurecer com a soberba dos homens, faz com que todos falem línguas diferentes. Da mesma maneira, o Higgs faria com que todas as partículas tivessem massas variadas. O nome pegou, mas a maior parte da comunidade científica prefere chamá-lo mesmo de bóson de Higgs, para que a brincadeira não distorça o real significado do trabalho ou atribua a ele alguma conotação religiosa imprópria. Ateu, Higgs também não gosta da alcunha” (Salvador Nogueira, Provável ‘partícula de Deus’ foi achada, afirmam físicos, “Folha de S. Paulo”, 5-7-12).

O fato é que, depois de laboriosas experiências realizadas no Grande Colisor de Hádrons (LHC) do Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (Cern), em Genebra, os cientistas consideraram que havia base sólida para anunciar que o bóson de Higgs havia sido descoberto: “Do ponto de vista de um leigo, eu diria: ‘Achamos!’. Do ponto de vista de um cientista, eu pergunto, ‘Achamos o quê?’”, disse Rolf Heuer, diretor-geral do Cern. “Descobrimos um bóson, que muito provavelmente é o de Higgs. Mas ainda precisamos estudar a fundo suas propriedades para ter certeza” (Jamil Chade e Herton Escobar, Cientistas descobrem partícula que pode explicar origem do universo, “O Estado de S. Paulo”, 5-12-12).

Prossegue este último artigo: “‘Estamos apenas no começo. Peço às pessoas, em especial aos físicos teóricos, que sejam pacientes’, disse a pesquisadora Fabíola Gianotti, arrancando risos do auditório. [...] Fabíola apresentou os resultados do experimento Atlas, um dos dois gigantescos detectores usados para estudar as partículas geradas nas colisões do LHC. ‘São resultados muito preliminares, mas muito sólidos. Caso contrário, não os apresentaríamos’, disse Joe Incandela, porta-voz do outro experimento, chamado CMS. ‘Encontramos algo muito profundo, diferente de qualquer outra partícula’”.

Segundo as praxes acadêmicas, o anúncio dessa descoberta será agora submetido à analise da comunidade científica mundial. De sua parte, Ronald Shellard, físico de partículas do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Física, comenta: “A descoberta coroa o maior feito intelectual da humanidade até agora, uma teoria que explica uma infinidade de fenômenos. Mas, para o LHC, ela é apenas o começo” (cfr. Salvador Nogueira, artigo citado). Este articulista acrescenta: “Há a possibilidade de que a nova partícula não seja o Higgs previsto pela hipótese original, mas o primeiro membro de uma ‘família’ de mais de um Higgs — ou algo ainda mais estranho”.

Se assim for, os cientistas descobriram algo que abre uma janela para um novo panorama ainda desconhecido pela ciência, que agora devem explorar. Quando os cientistas acreditavam ter concluído a decifração de um mistério, eis que outro mistério se apresenta diante deles!

Depois de laboriosas experiências realizadas no Grande Colisor de Hádrons (LHC) do Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (Cern), em Genebra, os cientistas consideraram que havia base sólida para anunciar que o bóson de Higgs havia sido descoberto

O universo será sempre um mistério para o homem!

Tudo isto acontece porque o universo é uma criatura de Deus, um fruto da mente divina, que o homem não pode jamais abarcar. Nem toda a eternidade do Céu será suficiente para o homem compreender a Deus inteiramente. No Céu, o homem nunca se saciará de Deus, porque Ele sempre mostrará de Si algo novo aos bem-aventurados, por toda a eternidade.

Caindo dessas alturas celestes para o universo em que vivemos, consideremos como, por cerca de 250 anos, imperou na ciência a teoria da gravitação universal de Newton. Pouco a pouco foram aparecendo fatos que a teoria de Newton não explicava. Veio Einstein com sua teoria de que a massa encurva o espaço em torno dela. Isso permitiu solucionar várias das discrepâncias apresentadas pela teoria de Newton. Mas em que consiste propriamente a força da gravidade continua até hoje inexplicado.

Agora, espera-se que a descoberta do bóson de Higgs permita lançar alguma luz sobre a natureza da força da gravidade. O físico Alberto Santoro, professor da Uerj e um dos principais cientistas brasileiros no Cern, observa que “a descoberta da nova partícula abre a porta para avanços em vários campos da física, como a supersimetria, na busca pela chamada ‘teoria do tudo’, que uniria sob uma única égide as quatro forças fundamentais do Universo — gravidade, eletromagnetismo, nuclear forte e fraca. — Matéria escura, assimetria, matéria e antimatéria, dimensões extras, são muitas as questões em aberto — explica. — Até o final dessas experiências, dentro de pelo menos 20 anos, vamos poder definir a ciência antes e depois do LHC” (cfr. artigo de Cesar Baima citado).

O já mencionado Joe Incandela aponta as magníficas perspectivas que agora se abrem para os cientistas: “Estamos penetrando na estrutura do universo em um nível que jamais tínhamos alcançado até agora. Isto está nos dizendo alguma coisa. É a chave da estrutura do universo. Estamos agora na fronteira [do nosso conhecimento]. Estamos no limiar de uma nova investigação, e isto poderia nos revelar... — talvez não vejamos nada de extraordinário, e talvez percebamos que é apenas parte da história que já conhecemos; ou talvez descobrimos um campo inteiramente novo de pesquisas (Scientists May Have Found ‘God Particle’, In The News in voaspecialenglish.com, 6 de julho de 2012).

Daqui a 20 anos, diante das novas descobertas até lá realizadas, muitas questões serão solucionadas... e muitas questões novas se apresentarão aos cientistas.

Quem, por brincadeira, denominou o bóson de Higgs de “partícula de Deus”, fez mais que uma brincadeira. Estava remetendo para uma coisa muito séria: a compreensão de que, por mais que a ciência avance, a mente divina, que dispôs com infinita sabedoria todas as coisas do universo, continuará sendo sempre um mistério para os homens!

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