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Frei Galvão: engenheiro, mestre de obras e trabalhador manual

Lápide da sepultura do novo Beato, capela do Mosteiro da Luz. Sobre ela, a frase latina: "Aqui jaz Frei Antônio de Sant'Anna Galvão, ínclito fundador e diretor deste Mosteiro, tendo sempre em suas mãos a própria alma, placidamente dormiu no Senhor no dia 23 de dezembro de 1822"

Outra tarefa não pequena, a que o Beato dedicou, no total, 48 anos de esforços contínuos, foi edificar a capela e o mosteiro. Desde o início as religiosas levavam sua vida consagrada em condições precárias, mas pouco a pouco o Beato foi edificando o mosteiro magnífico que ainda hoje vemos.

Nessa obra, ele foi o arquiteto, o engenheiro, o mestre de obras e, muitas vezes, o trabalhador manual. Era quem dirigia os numerosos escravos que trabalhavam na obra, aproveitando a ocasião para fazer bem às almas do pobres negros.

Quando morreu, em 1822, ainda faltava edificar a torre da capela. Mas, na minúscula cela que, com autorização de seus superiores, ele passara a ocupar no Recolhimento da Luz (sua saúde combalida já não lhe permitia, como antes, ir a pé diariamente do Convento de São Francisco, onde residia, até a Luz), deixou desenhado na parede o projeto arquitetônico que concebera para a torre.

O Mosteiro da Luz até hoje desperta admiração dos visitantes, pela beleza de suas linhas e pela solidez de sua construção. Assim o quis o Beato. Era paupérrimo em tudo o que lhe dizia respeito, como digno filho de São Francisco, e zelava para que as religiosas mantivessem o mesmo espírito de pobreza. Mas, na hora de construir a casa de Deus, não fazia economias. Queria tudo da melhor qualidade, em tudo deixava a marca de seu bom gosto.

Essas atividades, o Beato precisou conjugar com funções de alta responsabilidade na Ordem Franciscana (foi mais de uma vez Guardião, isto é, superior, de seu convento), e com o apostolado contínuo que sempre realizou em São Paulo e em muitas localidades do interior.

Dons sobrenaturais em vida – Numerosos prodígios post-mortem

Prato que foi utilizado por Frei Galvão - Museu Frei Galvão, Guaratinguetá

Foi favorecido com graças místicas extraordinárias: bilocação, levitação, etc. Era público e notório que, por privilégio divino, freqüentemente lia no segredo das consciências. Realizou curas extraordinárias, por vezes valendo-se das famosas "pílulas de Frei Galvão", que ensinou as freiras a fazer e que, até hoje, obtêm curas maravilhosas













As famosas "pílulas de Frei Galvão"

"Pílulas de Frei Galvão"

"Certo dia, Frei Galvão foi procurado por um senhor muito aflito, porque sua mulher estava em trabalho de parto e em perigo de perder a vida. Frei Galvão escreveu em três papelinhos o versículo do Ofício da Santíssima Virgem: Post partum Virgo Inviolata permansisti: Dei Genitrix intercede pro nobis (Depois do parto, ó Virgem, permanecestes intacta: Mãe de Deus, intercedei por nós). Deu-os ao homem, que por sua vez levou-os à esposa. Apenas a mulher ingeriu os papelinhos, que Frei Galvão enrolara como uma pílula, a criança nasceu normalmente.

"Caso idêntico deu-se com um jovem que se estorcia com dores provocadas por cálculos visicais. Frei Galvão fez outras pílulas semelhantes e deu-as ao moço. Após ingerir os papelinhos, o jovem expeliu os cálculos e ficou curado.

"Esta foi a origem dos milagrosos papelinhos, que, desde então, foram muito procurados pelos devotos de Frei Galvão, e até hoje o Mosteiro fornece para as pessoas que têm fé na intercessão do Servo de Deus" (transcrito de folheto distribuído no Mosteiro da Luz).






Restos do caixão de Frei Galvão - Museu Frei Galvão, Guaratinguetá

Quando morreu, foi sepultado na capela da Luz, onde até hoje seu sepulcro é procurado por fiéis das mais diversas condições que recorrem a ele, confiantes de encontrar no admirável franciscano, agora que goza da Bem-aventurança eterna, a mesma bondade acolhedora que sempre encontraram, enquanto vivia, seus contemporâneos.

Entre 1930 e 1990, o Mosteiro da Luz recebeu relatos escritos de nada menos de 23.929 graças alcançadas pela intercessão de Frei Galvão, sendo 7028 curas, 2702 partos bem sucedidos, 332 casos de pedras de rins, 123 conversões e 13744 casos de outras graças.

O processo de beatificação, aberto em 1938, após quatro fases chega agora a seu feliz termo.

Tem início o caminho para a canonização, após a qual Frei Galvão poderá receber o culto da Igreja universal. Invoquemos com confiança o Beato, em nossas aflições e necessidades. Quem sabe, Deus não estará à espera de um pedido nosso para fazer o milagre necessário para a canonização? (6)

Notas:

(1) A família do novo Beato podia ser, com justiça, considerada integrante da chamada Nobreza da terra (Cf. Plinio Corrêa de Oliveira, Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado a à Nobreza romana, Livraria Civilização Editora, Porto, 1992, Apêndice I).

(2) Maristela, Frei Galvão -- Bandeirante de Cristo, Mosteiro da Imaculada Conceição da Luz, São Paulo, 2a. ed., 1978.

(3) Domingos Luiz, que devia sua alcunha ao fato de ser natural da freguesia de Santa Maria da Carvoeira, em Marinhota, Portugal, é antepassado direto do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira.

(4) Cf. “Folha de S. Paulo”, 4-8-74.

(5) Crônica - 1º Tomo: 1774 a 27 de agosto de 1941 - transcrito na Biografia Documentada de Frei Galvão, Capítulo Sexto, doc. 3.

(6) Quaisquer graças obtidas devem ser comunicadas ao Mosteiro da Imaculada Conceição da Luz, Av. Tiradentes, 676, CEP 01102-000, São Paulo - SP).

Fontes de referência:

Este artigo é baseado quase exclusivamente na Biografia Documentada de Frei Galvão, constante do volume II da "Posição sobre a vida, as virtudes e a fama de santidade utilizada em seu processo de beatificação. É documento acessível a qualquer leitor brasileiro, pois sua tradução, de autoria da Irmã Célia Cadorin, Postuladora da Causa de Beatificação de Frei Galvão, acaba de ser editada em São Paulo, pelas Edições Loyola. Está à venda no próprio Mosteiro da Luz.

Serviram também à redação dele cinco artigos que o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira publicou na "Folha de S. Paulo", sobre Frei Galvão e Madre Helena Maria do Espírito Santo, fundadores do Convento da Luz, intitulados respectivamente: Não leiam ou leiam meu próximo artigo (21-7-74); A nuvem, a onça e o mancebo (28-7-74); Catástrofe, tufão e durabilidade (4-8-74); Resistência na São Paulo colonial (22-12-74) e Consagração, liberdade suprema (29-12-74).

Escravo de Maria


No Mosteiro da Luz, entre as mais preciosas relíquias de Frei Galvão, conserva-se o original de seu ato de consagração como escravo a Nossa Senhora, escrito com sua própria letra em 1766, quando tinha 27 anos de idade:

"Saibam todos quantos esta carta e cédula virem, como eu, Fr. Antônio de Sant'Anna, me entrego por filho e perpétuo escravo da Virgem Santíssima Minha Senhora, com a doação livre, pura e perfeita de minha pessoa, para que de mim disponha conforme sua vontade, gosto e beneplácito, como verdadeira Mãe e Senhora minha. E Vós, Soberana Princesa, dignai-vos de aceitar esta minha pessoa, venda, e filial entrega, não duvideis em me admitirdes ao vosso serviço, a este vil servo .... Nas vossas piedosíssimas mãos entrego meu corpo, alma, coração, entendimento, vontade e todos os mais sentidos, porque de hoje em diante corro por vossa conta e todo sou vosso .... Para o que vos ofereço desde agora todos os meus pensamentos, palavras e obras, e tudo o mais meritório que fizer e indulgências que ganhar, para que apresenteis junto com os vossos merecimentos a vosso Filho Santíssimo, dispondo vós de todos eles conforme for vossa vontade .... Sejam também meus intercessores o Arcanjo São Gabriel, e o Anjo da minha guarda, e todos os mais Anjos, de todos os coros Angélicos, e todos os Santos e Bem-aventurados, principalmente meu pai São Francisco, digo, primeiramente os gloriosos Santos vossos pais e esposo, meu pai São Francisco, Santa Águeda, o Santo do meu nome, São Pedro de Alcântara, Santa Gertrudes, meu pai São Domingos, São Tiago Apóstolo, São Benedito, os Reis Magos, São Jerônimo, Santa Teresa, São Francisco de Borja, a minha Mãe Isabel, e Irmãos, e parentes e amigos, se é que todos gozam da vossa vista, como o espero e piamente suponho, e a todos os mais que é vossa vontade que eu peça em particular. E rogo a todos estes referidos Santos que orem a vós por mim, e me sirvam de testemunhas irrefragáveis desta minha filial entrega e escravidão. E para que conste que esta minha determinação foi feita em meu perfeito juízo faço esta Cédula de minha própria letra, e assinada com o sangue de meu peito. Hoje, dia do patrocínio de minha Senhora e Mãe de Deus, 9 de novembro de 1766. De minha Senhora Maria Santíssima indigno servo. a) Frei Antônio de Sant'Anna".

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