Agosto de 2008
Recusando o Tratado de Lisboa, a Irlanda foi a voz da Europa
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Entrevista

Recusando o Tratado de Lisboa,
a Irlanda foi a voz da Europa

Continua repercutindo o alvissareiro e altissonante NÃO da Irlanda católica às leis anticristãs que os tecnocratas de Bruxelas e os membros do Parlamento Europeu desejam impor aos povos da Europa

Rory O’Hanlon: “Ninguém condicionou a ajuda econômica da União Européia a abrirmos mão de nossa soberania, bem como de muitas de nossas tradições

Rory O´Hanlon nasceu em uma família de políticos. Seu avô lutou na guerra da independência da Irlanda. Seu pai foi membro do parlamento irlandês a partir de 1977, tendo ocupado em diversas ocasiões o cargo de ministro do governo e, mais recentemente, a presidência do parlamento.

Foi educado no colégio dos Irmãos de São Patrício e pelos Padres do Espírito Santo. Posteriormente estudou engenharia civil, tendo exercido durante algum tempo a profissão. Em 1990 conheceu Plinio Corrêa de Oliveira, cujo exemplo o inspirou a dedicar sua vida à Contra-Revolução.

Residiu na Inglaterra, França, Estados Unidos, Itália, Filipinas e Brasil, antes de retornar à Irlanda, onde está à frente da Irish Society for Christian Civilisation (Sociedade Irlandesa por uma Civilização Cristã), coadjuvado por membros de outras TFPs européias e norte-americana.

O Sr. O´Hanlon foi entrevistado, via Internet, pelo colaborador de Catolicismo Sr. Paulo Roberto Campos, sobre o recente plebiscito ocorrido na Irlanda, durante o qual ele não poupou esforços, à frente da sociedade por ele dirigida, atuando destemidamente pelo bom resultado: a vitória do NÃO, o repúdio da Europa profunda e autêntica ao controvertido e rejeitável Tratado de Lisboa, que impõe uma legislação inaceitável.

* * *

Com o Tratado de Lisboa, a margem de interferência das instituições da União Européia na vida irlandesa aumentaria enormemente

Catolicismo — O mundo inteiro ficou admirado com o histórico NÃO da Irlanda (53,4% x 46,6%) à Constituição Européia, rebatizada com o título de Tratado de Lisboa. Poderia dizer algo para nossos leitores sobre seu país, que teria contribuído para a vitória do NÃO?

Rory O´Hanlon — O mundo manifestou-se surpreendido. Mas não deveria surpreender-se com o NÃO irlandês ao Tratado de Lisboa, pois há várias razões, tanto religiosas como econômicas, pelas quais votamos NÃO. Ao longo do século XX a Irlanda foi social e moralmente conservadora. Embora tenhamos enormes problemas na área da família, da moralidade pública, etc., graças a Deus tem havido uma sadia reação ao declínio moral em nosso país nos últimos 25 anos.

Catolicismo — Os irlandeses foram favorecidos por fazerem parte da União Européia?

Rory O´Hanlon — Sim, de fato recebemos benefícios econômicos da Comunidade Européia, e agora nos acusam de sermos ingratos por termos rejeitado o Tratado de Lisboa. Mas ninguém condicionou a ajuda econômica a abrirmos mão de nossa soberania, bem como de muitas de nossas tradições. É também largamente discutível se somos meros beneficiários da União Européia, uma vez que entregamos a ela todas as nossas valiosas águas de pesca.

Catolicismo — Como o Sr. explica a convocatória de um plebiscito, que resultou tão contrário à posição do governo?

Rory O´Hanlon — O governo não tinha escolha. Graças a um caso submetido à Suprema Corte em 1987, o governo irlandês está obrigado a promover referendo sobre cada tratado europeu, quando este afeta a nossa Constituição.

Catolicismo — Quais as propostas do Tratado de Lisboa que causaram maior rejeição entre os irlandeses?

Rory O´Hanlon — Há uma grande preocupação sobre a harmonização de qualquer tratado, em relação ao Imposto de Corporação. Na Irlanda ele é muito baixo, e por isso atrai muito investimento externo. A neutralidade militar foi também outro tema focalizado, pois a Irlanda não deseja lutar numa guerra sobre a qual não exerça controle. Outra consideração foi o fato de essa “democracia aperfeiçoada” vir sendo imposta sobre nossos colegas europeus sem o recurso a referendos. Mas penso que a maior preocupação dos irlandeses dizia respeito à Corte Européia de Justiça, que teria poderes para ditar leis sobre assuntos morais e sociais, particularmente em relação ao aborto e às uniões homossexuais. Tudo isso, evidentemente, causa repulsa em nossa população.

Catolicismo — A identidade nacional e a soberania irlandesa seriam violadas, caso se aprovasse esse controvertido tratado?

Rory O´Hanlon — Como o Tratado de Lisboa era realmente um tratado constitucional europeu, muitos especialistas argumentaram que, se aprovado, ele se sobreporia à necessidade de um referendo para tratados futuros. Além do mais, a margem para a interferência das instituições da União Européia na vida irlandesa aumentaria enormemente. Se o Tratado tivesse sido aprovado, não tardaríamos em nos dar conta da extensão dessa interferência.

CatolicismoA entidade dirigida pelo Sr., a Sociedade Irlandesa por uma Civilização Cristã, como atuou em favor do NÃO no plebiscito?

Rory O´Hanlon — A Irish Society for Christian Civilisation publicou um documento intitulado: Nove razões pelas quais um católico consciencioso deve recusar o Tratado de Lisboa. Nele expôs os perigos que havia em transformar a Carta Européia de Direitos Fundamentais em documento com força legal. Muitas das nove razões giraram em torno da legislação sobre a família, que seria influenciada pela Carta. As outras razões para a recusa do Tratado deveram-se à negação de Deus e das raízes cristãs da Europa. Nosso documento foi distribuído nas paróquias, nas ruas e pelo correio. Foi também publicado em forma de folheto, bem como no jornal católico de maior circulação na Irlanda, o “Alive”, distribuído para cerca de 360 mil residências. Foi ainda divulgado através de nosso site na internet e em blog.

Catolicismo — Essa atuação alcançou muita repercussão? Poderia dar algum exemplo?

Rory O´Hanlon — Nosso documento foi certamente objeto de amplos comentários. É indispensável dizer também que foi muito atacado. Numerosos blogs o criticaram, especialmente aqueles favoráveis ao “casamento” homossexual. Mas, por outro lado, foi reconhecido por atilados ativistas como sendo portador das previsões mais acuradas acerca do pós-tratado. A mídia esquerdista mencionou-o apenas de passagem, e com alguma zombaria. É impossível aquilatar precisamente o efeito de nossa campanha sobre o resultado geral do referendo. Não éramos certamente a maior organização mobilizada contra o Tratado de Lisboa, mas insistimos em assuntos muito importantes, e parece-me que nossa campanha teve bom efeito.

"Devido ao modo como o Tratado de Lisboa vem sendo imposto, sem qualquer consulta pública em muitos países europeus, a Irlanda deve ser a voz daqueles que não têm voz"

Catolicismo — Que atitude tomou a Hierarquia eclesiástica da Irlanda a respeito do assunto?

Rory O´Hanlon — A Hierarquia católica divulgou uma declaração moderadamente a favor do Tratado de Lisboa. Temia-se que ela o fizesse em termos mais fortes, e isso representou um certo alívio. Evidentemente, uma declaração mais decidida da Hierarquia eclesiástica, de apoio ao Tratado, não se compaginaria com a forte reação negativa existente na Irlanda entre os católicos fiéis.

Catolicismo — O Sr. julga que se deveriam fazer plebiscitos, como o realizado na Irlanda, em todos os demais países que constituem o bloco europeu?

Rory O´Hanlon — Sim, deveria ter havido um referendo em cada um dos países da Europa. Mas, pelo visto, a UE não aprecia muito realizar consultas populares, pois a reação conservadora não aceita as imposições que os parlamentares europeístas querem aplicar aos povos do continente europeu. De fato, o último ponto abordado em nosso documento era este: “Devido ao modo como o Tratado de Lisboa vem sendo imposto, sem qualquer consulta pública, a Irlanda deve ser a voz daqueles que não têm voz”. E uma voz não para defender direitos quaisquer, mas os mais sagrados dos direitos. Por exemplo, a Europa Unida, prevista no Tratado de Lisboa, ignora Deus e as raízes cristãs da Europa; cria uma nova identidade européia baseada num secularismo radical e em filosofias atéias; restringe a proteção à vida humana; promove o aborto, a eutanásia e a experiência com embriões; destrói a família tradicional, baseada na união homem e mulher, equiparando-a às uniões entre pessoas do mesmo sexo, etc. Tais imposições chocaram a opinião pública de meu país. Apesar disso, como já mencionei, o governo irlandês só efetuou o referendo porque era a isso legalmente obrigado. Sua preferência teria sido não realizá-lo, o que equivaleria a uma não-derrota para o Tratado de Lisboa. Esta foi, aliás, a mesma atitude dos outros governos europeus, que não promoveram referendos em suas populações, temendo que estes redundassem em derrota para o Tratado. É o que certamente aconteceria.

Publicações difundidas pela Irish Society for Christian Civilisation (Sociedade Irlandesa por uma Civilização Cristã), e que excerceram ponderável influência para o triunfo do NÃO

Catolicismo — E agora, com a rejeição da Irlanda às imposições da Constituição Européia, o Sr. pensa que o Tratado de Lisboa será sepultado? Ou a União Européia exigirá novo plebiscito?

Rory O´Hanlon — Infelizmente, as repercussões pós-referendo na Irlanda indicam que novamente vamos ter que nos confrontar com o mesmo Tratado, ou com uma versão ligeiramente alterada dele. Se o Tratado de Lisboa estivesse morto como seria desejável, seria inútil insistir em aprová-lo em outros países, por isso seu processo de ratificação em curso deveria parar imediatamente. Mas isso não se deu, e numa atitude de completo desprezo pela democracia, diversos outros países o ratificaram, sem consulta popular, após o NÃO irlandês. Portanto, uma declaração de vitória a esta altura seria prematura. Ganhamos uma batalha, mas não a guerra. Teremos ainda longas batalhas pela frente.

Catolicismo — Aos brasileiros que desejarem conhecer o seu país, que lugares o Sr. lhes aconselharia visitar?

Rory O´Hanlon — Penso que a Irlanda tem para mostrar aos visitantes, talvez ainda mais do que outras nações da Europa, os restos da civilização medieval (séculos VI ao XI). Esta foi a idade de ouro da Cristandade na Irlanda, um período de grande crescimento e atividade missionária. Infelizmente, começamos a decair antes que outras nações européias alcançassem o ápice de glória do século XIII. Possuímos muitas ruínas gloriosas de edifícios monásticos, que podem ainda ser encontradas. A maior delas, não distante de Dublin, é o Mosteiro de Glendalough, fundado por São Kevin no século VI.

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