Entrevista

Na Polônia atual: trágica herança do comunismo

O Prof. Leonardo Przybysz, responsável pelo Bureau das TFPs na Polônia, revela situação pouco conhecida no ex-satélite do antigo império soviético: predomínio da Nomenclatura e estabelecimento de um regime comunista metamorfoseado

            Muito se escreveu sobre o fim dos regimes comunistas na Rússia e em países da  Europa Oriental. Porém, quase não se tem realçado as marcas deixadas naquele Bloco de nações pelo comunismo, que, por tantos anos, as oprimiu.

            Para preencher em alguma medida tal lacuna, Catolicismo apresenta, nesta edição, elucidativa  entrevista com o Prof. Leonardo Przybysz, brasileiro de origem polonesa que vive há vários anos na pátria de seus antepassados, onde é responsável pelo Bureau das TFPs, em Cracóvia. Nesta cidade, o Prof. L. Przybysz - que acompanha com atenção a política polonesa - prontificou-se a responder às perguntas de nosso enviado especial, Sr. Plinio Maria Solimeo, sobre a situação pós-comunista existente naquele país.

            O entrevistado recebeu nosso colaborador no próprio Bureau das TFPs, um agradável imóvel localizado na bela e tradicional cidade de Cracóvia, a primeira em importância da Polônia, depois da capital.

Catolicismo - O Sr. poderia  dizer-nos algo a respeito do processo de liberalização política da Polônia, focalizando especialmente aqueles aspectos menos divulgados pela mídia?

Prof. L. Przybysz
-  Ao falar sobre os aspectos esquecidos pela mídia, não tratarei aqui, por ser bem conhecido, do papel de João Paulo II no processo de liberalização política da Polônia. Uma vez que, muito explicavelmente, os meios de comunicação social dedicaram largo espaço à influência do Pontífice polonês nesse processo.

            Pode-se dizer que a redemocratização na Polônia começou de fato com a queda do Muro de Berlim [1989-1990], embora antes disso já houvesse certa abertura política, devida principalmente à pressão do sindicato Solidariedade, que se tornou assim mundialmente conhecido. Foi por influência dele que outros movimentos na Europa do Leste ousaram aos poucos manifestar seu descontentamento com o regime comunista.

Com relação a Solidariedade, também muito se tem falado. Parece-me no entanto necessário ressaltar um aspecto que quase não vi referido na imprensa mundial. É que, apesar de haver gente bem intencionada em suas bases, esse movimento infelizmente estava infiltrado por elementos com idéias socialistas. Alguns de seus líderes afirmavam querer um regime socialista à maneira da Suécia. O próprio Walesa  afirmou certa vez que não era contra o socialismo.

           

Catolicismo - E Walesa?

Prof. L. Przybysz  - Lech Walesa foi eleito presidente em substituição a Jaruzelski, desta vez em eleições livres, para o período de 1990 a 1995. Um francês o definiu como um misto de tribuno, orador e saltimbanco. A nosso ver, prevaleceu nele o saltimbanco, pois, para ser tribuno e orador, o ex-operário eletricista precisaria  de, pelo menos, aprender a falar com correção gramatical. Em que pese sua popularidade, devido à sua atuação à frente de Solidariedade nos anos de oposição ao regime, Walesa não esteve à altura do cargo. Foi mesmo uma nulidade como presidente, razão pela qual perdeu a segunda eleição, vencida por Aleksander Kwasniewski, um ex-comunista.

Catolicismo - O Sr. mencionou esse ex-comunista... Como foi sua eleição?

Prof.  L. Przybysz - Aleksander Kwasniewski, atualmente no poder, ganhou a eleição presidencial não por confessar-se um comunista arrependido, o que nunca fez. Seu principal trunfo foi a aparência pessoal - é jovem e considerado bonito pelas mulheres -, juntamente com as promessas de proporcionar casa para os que precisam; promessa, é claro, que não cumpriu, nem tinha como fazê-lo. Prevaleceu, em suma, em sua eleição, o temperamento público [propensões], e não a opinião publica [pensamento]. Ou seja, não houve debate ideológico. E, pelo mesmo motivo, tem ele grandes possibilidades de reeleição...

Catolicismo - E os partidos de centro ou de direita?

Prof. L. Przybysz - Como em quase todo o mundo, também na Polônia os políticos de esquerda são em geral mais sagazes, ou mais velhacos, que os do centro... Além disso, estão mais bem estruturados e possuem mais experiência política, pois, afinal de contas, estão no poder há mais de 50 anos.

Catolicismo - Não houve restituição geral de propriedades confiscadas durante o regime comunista?

Prof. L. Przybysz
-
Não houve uma devolução geral dos bens confiscados, porque simplesmente não foi aprovada nenhuma lei nesse sentido. E isso se deve, em grande parte, à  política do lápis grosso, de Mazowiecki. Alguns poucos os recuperaram porque moveram processos e a Justiça lhes deu ganho de causa. Por exemplo, a devolução de três hotéis aqui do centro de Cracóvia: Hotel Polônia, Hotel Europeu e Hotel Pollera, hoje restaurados, limpos e funcionando razoavelmente.

Catolicismo - Por que alguns recuperam os bens recorrendo à Justiça e outros não?

Prof. L. Przybysz - Seria longo explicar aqui por que uns conseguem na Justiça a recuperação de seus bens e outros não. Isso se deve a causas diversas e muito complexas. Uma delas é o custo dos processos, muito dispendiosos, sendo poucos os que dispõem de recursos para movê-los.

Na verdade, para a devolução dos referidos bens, o país se encontra diante de uma situação arquicomplicada - situação que os comunistas criaram, é verdade, mas que serve de argumento para não se tocar a coisa para a frente.  Em primeiro lugar, muitos dos proprietários já morreram e o processo se complica com os herdeiros. Depois, há o problema dos que emigraram e adquiriram outra cidadania. Existe ainda o problema da documentação: depois de tantos anos, quem vai conseguir provar cabalmente que é proprietário? Para complicar ainda mais o caso, uns tantos bens confiscados foram vendidos para empresas estrangeiras que estão investindo na Polônia. Porém, os membros da Nomenclatura (como se costuma chamar os burocratas, membros do Partido Comunista) embolsaram o dinheiro e fim!

Catolicismo - Situação realmente complexa...

Sr. L.Przybysz - E tem mais. Esses ex-proprietários não têm experiência e muitas vezes nem espírito de iniciativa.

Catolicismo - É grande o número de propriedades rurais recuperadas?

Sr. L.Przybysz - Se há proprietários que recuperaram suas terras mediante processo, seria difícil dizer em que número e em que medida. Simplesmente não há dados oficiais.

Catolicismo - E o Judiciário, como tem atuado?

Prof. L. Przybysz - Esse é outro fator que impede a normalização da situação. Seria ingênuo pensar que o Judiciário está disposto a rever, na esfera jurídica, todas as monstruosidades cometidas pelo comunismo. Não houve nenhuma mudança no pessoal do Judiciário; ninguém foi demitido por ser membro do PC, por ter abusado do poder etc. Ninguém foi processado. Os juízes são os mesmos, os promotores, os mesmos.  Alguns processos em curso - por exemplo, contra o General Jaruzelski e um ou outro ex-ministro comunista - são  apenas pró-forma; vão-se arrastando indefinidamente à espera, ao que parece, de que eles morram, à espera de que o tempo vá apagando das memórias o desejo de um acerto de contas com essa gente.

Catolicismo - Poderia contar-nos alguns casos de injustiças do regime comunista nessa matéria?

Prof. L. Przybysz - Sim. Conversei com algumas pessoas conhecidas sobre o que se passou durante o regime comunista.

Começo com o caso do Prof. W., de uma família não apenas rica, mas muito rica, com diversas propriedades rurais, de quem roubaram todas as terras. A casa familiar - um palacete - foi reformada e transformada em escola de agricultura. As terras confiscadas ficaram abandonadas, o mato invadiu o jardim, tudo virou ruína. Ele me mostrou fotos da propriedade antes e depois do comunismo. É de chorar! Mais recentemente, alguém construiu nesse terreno, nas proximidades do antigo edifício, uma grande casa, onde se instalou comodamente. Como tirar agora essa pessoa, caso a propriedade seja devolvida ao Prof. W.?

O Dr. S.R., advogado, possuía um grande apartamento num belo e histórico edifício situado na praça central de Cracóvia, em frente à Mariacka (Igreja de Maria). Foi dele expulso sem maiores explicações,  e ainda devia dar-se por contente por ter sido destinado a morar num pequeno apartamento na cidade operária, a 10 km do centro da cidade, onde está até hoje. Foi nesse pequeno apartamento, de apenas 50m2, que ele criou os cinco filhos. “Por que não tenta recuperar hoje o apartamento roubado?” - perguntei-lhe. “É tal a complicação que é melhor desistir”.

Catolicismo - E a Reforma Agrária, como foi feita?

Prof. L. Przybysz - Quanto aos grandes proprietários,  foram desapropriados, como no caso do Prof. W., ao qual me referi. Suas terras foram transformadas nos chamados PGR, que eram, no fundo, fazendas coletivas. É claro, faliram todas. Hoje estão sendo divididas em pequenas porções e vendidas por preço barato a quem o desejar. Quanto aos pequenos proprietários, isto é, os minifúndios, ninguém foi expropriado; constituíam eles 85% dos proprietários de terras. Por isso,  a situação da Polônia era menos miserável do que a dos outros países do bloco soviético.

Catolicismo - Por isso o regime polonês não era tão mal visto no Ocidente...

Prof. L. Przybysz - É verdade que o regime comunista na Polônia era mais brando do que o existente em outros países do bloco soviético. Mas isso era intencional da parte de Moscou, pois eles queriam dar a entender ao mundo capitalista que o comunismo não é tão mau assim: “Vejam a Polônia, todo mundo pode ir à igreja, os camponeses não foram expropriados de suas terras” etc. Lembro-me que nas décadas de 1970-1980, brasileiros que viajavam para a Polônia, sobretudo religiosos, voltavam contando maravilhas da situação polonesa, sobretudo quanto à liberdade religiosa...

Catolicismo -  Quais as perspectivas para o futuro?

Prof. L. Przybysz - Agora está em questão o ingresso da Polônia na União Européia. Mas esse processo não é fácil. Devido ao apego dos pequenos agricultores à sua terra e às suas tradições, o ingresso da Polônia na União Européia desperta neles toda sorte de desconfianças, de má vontade quanto a qualquer modificação no sistema de explorar a terra. E esse é talvez o maior problema que a UE está encontrando na Polônia. Hoje, cerca de 28% dos poloneses ainda trabalham no campo; a UE quer que esse número seja reduzido para 5%, se não me engano. A solução, então, consiste em empurrar o pessoal para as cidades.

Catolicismo - Qual seria, então, o balanço final da experiência comunista?

Prof. L. Przybysz
- O saldo, por tudo quanto vimos, é tremendamente negativo! E o pior não é o dano material, a miséria em que ficou o país, mas o causado nas mentalidades.

Em muitos casos, as mentalidades ficaram imbuídas de conceitos igualitários que lhes foram impingidos pelo comunismo durante quase meio século. Pois, se até em vários países do Ocidente, que não passaram pelo rolo compressor do comunismo, há tanta gente que é contra a propriedade e vota nos socialistas, o que dizer da opinião pública dos países assim chamados ex-comunistas?  A deterioração produzida é enorme! Em um livro que acaba de ser lançado - cujo título, traduzido para o português, seria Transformação e pós-comunismo - Jan Kofman e Wojciech Roszkowski comentam que o esquecimento da época comunista é um dos maiores processos patológicos da democracia polonesa. Os autores indicam a presença, na mentalidade social, de uma herança da época comunista, caracterizada como igualitarismo, espera da ajuda do Estado, falta de respeito pela propriedade privada, má vontade em assumir responsabilidades, confusão de conceitos etc. Segundo eles, os antigos membros do PC pertenciam mentalmente ao partido no poder e, no geral, assim ficaram.

            Só uma nova e especial pregação dos princípios da doutrina social católica poderá, aos poucos, começar a desenovelar esse tremendo aranzel decorrente da negação da Lei de Deus e da Lei Natural, o que certamente custará pelo menos uma geração. Mas isso supõe uma colaboração entre a autoridade eclesiástica e a civil, sem o que nada se fará. Seria isso viável em nossos dias? Não parece!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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