Junho de 1996
Desmistificação dos preconceitos anti-medievais
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História

Desmistificação dos preconceitos anti-medievais

Pesquisas sérias de consagrado historiador contemporâneo restabelecem a verdade sobre uma época histórica, de longa data distorcida e caluniada

Guy de Ridder


Muito se tem falado sobre a Idade Média, e geralmente com críticas a esse período histórico. Na maior parte das vezes as críticas não são fundamentadas. Trata-se de um realejo repetido até o enfadonho, pela maior parte das pessoas, algumas até de boa fé.

E como era pequeno o trabalho sério de pesquisa histórica sobre o período, o único esforço que os detratores do medievalismo tiveram era ir repetindo "o que se contava outrora". Mas convém ressaltar que, de uns tempos para cá, pesquisadores e historiadores dignos destes nomes, alguns de grande importância, têm realçado tudo o que de bom, de belo, de útil caracterizou a Idade Média. Basta lembrar neste sentido a renomada historiadora francesa Régine Pernoud. (1)

Muito recentemente um medievalista de projeção, autor de várias obras sobre sua especialidade, galgou um mirante superior entre os historiadores sérios ao publicar uma obra que, sem insistir especialmente sobre os lados benéficos da Idade Média, procura refutar os principais mitos anti-medievais.

Legenda Negra

Jacques Heers, atual diretor do Departamento de Estudos Medievais da Universidade de Paris-Sorbonne, publicou "uma vigorosa diatribe contra a visão da Idade Média divulgada pelos historiadores e escritores de dois séculos para cá. Medieval, feudal, senhorial constituem, ainda mesmo em nossos dias, insultos ou injúrias, como resultado de uma legenda urdida a partir do século XVIII e sabiamente orquestrada pelos revolucionários franceses de 1789, pelos bonzos da História e sobretudo pelos mestres do ensino público".

É justamente essa legenda negra que o autor combate empenhadamente. Seu livro (2) mostra "os erros, o ridículo, mais ainda as desonestidades desta visão pejorativa, ao mesmo tempo que procura tornar públicas as últimas pesquisas de história social, as quais, indo em sentido oposto à correnteza dos slogans modernos, vê-se vitimada por uma espécie de lei do silêncio".

Descreve ele como foi adotada a palavra média para designar o referido período histórico. E lembra, a esse propósito, o papel dos humanistas italianos e dos historiadores protestantes na cunhagem da infeliz expressão Idade Média.

O homem renascentista pretendia que entre a Antiguidade clássica -- na qual ele se inspirava voluptuosamente -- e sua época, nada de muito precioso tinha existido: "Pareceria que nossa civilizaçao, a da Europa em seu sentido amplo, viveu duas épocas marcadas pelas liberdades e pelas criaçoes originais: primeiramente, a Antiguidade; muito tempo depois de um sono pesado e uma interminável espera, a "Renascença", na qual os homens finalmente acordaram, mudaram completamente de atitude ante a vida e tomaram a cargo seu destino. Entre estas duas épocas fortes, a noite dos tempos obscuros da Idade Média, aos quais é de bom tom não dar nenhum crédito, exceção feita, lá e acolá, para algumas manifestações marginais. Tomada em bloco, esta Idade Média é apenas constituída de mediocridade".

Também os protestantes, "furiosos contra a Igreja medieval e tudo aquilo que ela tinha produzido, carregaram de conteúdo novo esta época intermediária".

Estava assim criada a expressão, que atendia a interesses ideológicos e de conveniência.

O termo medieval passa a designar não somente uma época e a `definir' tão bem quanto mal um contexto cronológico, mas é tomado resolutamente como qualificativo de uma escala de valores, a ser julgada e condenada: sinal de arcaísmo, de obscurantismo, de menosprezo ou de indignação virtuosa. Tornou-se uma espécie de injúria. A palavra medieval foi erigida em insulto comum".

Fantasmas: fruto de obsessão ideológica

Prepõe-se o autor a efetuar uma análise "de alguns aspectos da sociedade ou civilização que a legenda negra ainda apresenta sob uma visão espantosa, mas sobre os quais numerosos trabalhos recentes trazem interessantes e surpreendentes correções. Lembremo-nos, pois, dos trabalhos que têm o mérito de basear-se em algo mais sólido do que fantasmas de autores movidos por uma obsessão ideológica". (3)

Mostra ele também as incoerências de uma "Nova História", surgida nos anos sessenta (alusão evidente ao movimento que irrompeu na Revolução da Sorbonne, em maio de 1968), que pretendia re-analisar todas as aquisições da História tradicional ou clássica, acusada de rotina, sem para tanto definir seus métodos e seus objetivos.

Para ele, "a expressão Idade Média não pode, em caso algum, conceber-se como uma realidade. E é preciso sobretudo que se evite o adjetivo medieval, que é indefensável, pois não quer dizer estritamente nada".

Interessante discurso desenvolve o escritor a respeito do valor das palavras no decorrer dos tempos: "As palavras não nascem do simples acaso; estão sempre carregadas de intenções. Imaginamos que sempre se soube, em todos os tempos, escolher os vocábulos portadores de imagens, de mensagens expressas de modo mais ou menos claro. No caso, as palavras se carregaram de cores, mas não correspondem a nada. Tratava-se apenas de opor uma era de grandes progressos e de libertação do homem de uma quantidade de interditos, a um longo período de esclerose, de obscurantismos e de tabus. Para a palavra renascimento, a intenção era ainda mais viva. Forçoso é constatar que esta idéia de despertar de um sono em relação ao passado foi causa de erros grosseiros, dos quais não nos desembaraçamos ainda. E isto, pela simples magia, pelo grave peso das palavras".

A esse propósito importa lembrar que tal expressão carregada de subentendidos é um exemplo das palavras-talismãs, cujo conceito foi desenvolvido pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em seu substancioso ensaio "Baldeação Ideológica Inadvertida e Diálogo" (4), o qual recomendamos vivamente ao leitor.

Demonstra a seguir Jacques Heers que "a Idade Média propriamente dita nunca existiu. A divisão dos tempos anteriores em diferentes períodos cronológicos é apenas uma convenção que acabou impondo-se como lei, mas que nao corresponde a nenhuma espécie de realidade. É apenas uma abstração".

Numa referência favorável ao Brasil, o historiador declara que o descobrimento e a colonização de nosso País devem ser tomados como exemplo de empresa bem sucedida, como fruto "de conquistas feitas debaixo do controle senhorial, isto é, de uma estrutura social medieval. Os pioneiros acomodaram-se muito bem com ela. Em vista dos resultados obtidos, como "invocar uma sociedade de oprimidos, dada ao fracasso ou à revolta"?

Muito interessante ainda a contestação feita por Heers ao mito de um pretenso renascimento, que ele rejeita totalmente. Demonstra que a idéia de uma renascença, isto é, de um progresso em relação aos tempos anteriores, "foi imposta por um cenáculo de bons publicistas a soldo de um certo príncipe". Ou seja, já era o poder da mídia publicitária da época, que procurava moldar a opinião pública.

Renascença restaura escravidão

Tal foi o entusiasmo despertado por estes cenáculos para com o mundo antigo, que nao se hesitou em restabelecer um mau costume que fora já praticamente eliminado por influência da Igreja: a escravidão. "Tomando como exemplo a Antiguidade, a moda acabou por imbuir os espíritos e tornar aceitável o que até então tinha sido recusado. Em vários países, os vencidos sao reduzidos pelos vencedores a escravos. A história dos conflitos entre partidos oferece numerosos exemplos de atrocidades indignas, na Itália da Renascença: Colà di Rienzo, grande admirador da Roma republicana, glorificava-se, em 1354, após sua vitória contra os Colonna e outros barões romanos, de ter trazido dois mil homens a Roma, para vendê-los como escravos".

Sumamente oportunos são estudos deste gênero de desmistificação histórica, levados a cabo por personalidades sérias e professas em seus domínios.

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Notas:

1 - Principais obras de Régine Pernoud: "Lumières du Moyen Age" e "Pour en finir avec le Moyen Age".

2 - Jacques Heers, Le Moyen Age, une Imposture - Vérités et Légendes, Ed. Perrin, Paris, 1993.

3 - Grifo nosso.

4 - Plinio Corrêa de Oliveira, Baldeação Ideológica Inadvertida e Diálogo, Ed. Vera Cruz, São Paulo, 5ª ed. 1974.

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