Maio de 1998
A três décadas da Revolução da Sorbonne: germes em toda a capilaridades da vida social
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Internacional

 

A três décadas da Revolução da Sorbonne

Há 30 anos, em maio de 1968, começava uma agitação estudantil convencional em Nanterre, periferia de Paris. Essa agitação logo se estendeu, se radicalizou e transformou-se numa contestação global não só ao Governo e à sociedade, mas também à razão, à moral e à cultura. Ela convulsionou numerosas cidades francesas, iniciando um processo revolucionário que vem deteriorando profundamente a civilização contemporânea.

Alfredo MacHale


Até essa época, apesar de no Ocidente terem ocorrido grandes manifestações de impiedade, subsistia ainda precioso efeito da civilização cristã: um fundo cultural em contraste com o qual o público julgava os erros revolucionários, o que gerava obstáculos para que estes se impusessem de forma rápida e definitiva.

Este artigo, cujas idéias mestras são baseadas em conferências proferidas para sócios e cooperadores da TFP na capital paulista, pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, visa mostrar que os agentes da Revolução -- multissecular processo de destruição da civilização cristã -- decidiram desfechar um imenso golpe na tradição cultural católica, abrindo caminho aos ousadíssimos erros que surgiriam nas décadas seguintes. Foi esta a função da chamada Revolução da Sorbonne.

Poucos anos antes, a onda de protestos e a crise moral que eclodiram na juventude norte-americana haviam mostrado o enorme avanço alcançado pelo igualitarismo e pela imoralidade. Tal avanço acentuou-se com a revolução contestatária da Sorbonne, não tanto devido à má doutrina que a inspirava, mas à utilização da força impulsiva das más tendências como arma de agressão revolucionária.

O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira lendo os jornais da época, com o noticiário das convulsões que, a partir da Universidade da Sorbonne, incendiavam Paris, comentou em reunião para sócios e cooperadores da TFP na capital paulista, em ...."É um impulso universal que nasce, que sacode a mocidade inteira. A característica singular [do movimento da Sorbonne] é ser um puro impulso.... É uma era histórica nova. É o homem que renuncia à razão e surge a civilização do instinto -- se é que se pode chamar civilização -- que se opõe à moribunda civilização da razão, da inteligência e da vontade".

Agentes do caos obrigados a voltar temporariamente a seus antros

A contestação impugnava todas as regras de conduta, seguindo o famoso slogan "é proibido proibir". Esta expressão aparatosa e de uma incoerência desafiante procurava causar impacto psicológico no público para exacerbar as más tendências e inibir a razão. E à medida que se delineavam as sinistras metas e a radicalidade do movimento, crescia na burguesia o temor de que os restos de ordem fossem arrasados pela anarquia. Esta reação contra o auge do caos não afetou as raízes do mesmo, de modo que, quando terminou a fase mais turbulenta da desordem, o mundo havia sofrido uma substancial modificação.

Foi-se tornando cada vez mais freqüente aceitar como normais as excentricidades, loucuras e depravações difundidas por aquela revolução cultural, rejeitando o raciocínio e o bom senso.

Desde então as esquerdas radicais fizeram um recuo tático de suas ideologias para melhor contaminar a sociedade com tendências opostas à civilização e à moral cristãs, frente às quais a resistência da opinião ocidental foi muito menor que a demonstrada ante o socialismo e o comunismo.

Inércia da opinião católica diante da revolução contestatária

 
Paris, 11 de maio de 1968: a rua transformou-se num cemitério de carros

Com as aberrações anarquizantes da Sorbonne sucedeu o que muitas vezes ocorre em nossa época com os erros da moda, sobretudo quando estes se encontram em estado germinativo: penetraram facilmente em todos os ambientes, dando origem a contestações contínuas, até mesmo nos meios católicos.

Numa conferência pronunciada para sócios e cooperadores da TFP, em 20/6/71, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira fez o seguinte prognóstico:

"Eu disse que a Revolução de maio de 68 iria fracassar, mas que ela recolheria os seus restos nas sacristias.

"Depois, a doutrina da Revolução de Maio ganharia os meios especificamente eclesiásticos e, através destes, estimularia os meios religiosos a uma atitude idêntica."

Confirmando essa penetração das idéias sorbonnianas nos meios católicos, o Cardeal Jean Marie Lustiger, Arcebispo de Paris -- que em fins dos anos 60 foi capelão da Universidade de Paris -- escreveu em suas Memórias que "o espírito de Maio de 1968" expandiu-se por todo o corpo social, invadindo até mesmo instituições da Santa Igreja:

"Vi que uma parte do meio eclesiástico entrava na mesma loucura, utilizava as mesmas noções, transpunha para a instituição eclesial as mesmas categorias, as mesmas manipulações, tomando como objeto a própria Igreja e seu funcionamento..."

O Purpurado foi mais longe:

"Estava escandalizado com a idéia de que padres ou leigos tratassem a própria Igreja e sua Hierarquia como os estudantes ou os grupos esquerdistas tratavam a instituição universitária... E isso não cessou de repercutir, porque uma boa parte do que alguns chamaram pejorativamente de `pós-Concílio' -- ou seja, a crise progressista da era pós-conciliar -- ao menos na França nada tem a ver com o Concílio Ecumênico Vaticano II, mas depende do `pós-1968', de sua mitologia e de seus slogans".

Em que pese a opinião do Cardeal Arcebispo de Paris, a verdade total é que, debilitada a opinião católica pela crise pós-conciliar, suas convicções não foram bastante fortes para rejeitar por completo os germes revolucionários da Sorbonne.

Tais germes refugiaram-se nas sacristias, -- e também, naturalmente, desde os antros da avant-garde esquerdista -- para tentarem reiniciar o processo, muito mais lento e laborioso, de conquistar os ambientes estudantis para novas ofensivas violentas, tão logo as circunstâncias o permitissem.

Violência inédita em intensidade, método e propósito

 
Barricadas diante da Faculdade de Medicina, em Paris

A Revolução da Sorbonne mostrou desde o início a intenção de impor violentamente seus desígnios, derrubando as classes e instituições que aparentemente sustentavam o mundo da época, intimidando os setores conservadores da opinião pública com um presumido poder arrasador.

A agitação era liderada por ativistas extremamente violentos, de origens e matizes diversos, entre os quais -- convém destacar -- moviam-se aqueles que, alguns anos depois, traumatizariam o mundo com o brutal genocídio que dizimou a população do Camboja. Com efeito, um desses líderes foi o recentemente morto Pol Pot, responsável pela execução de aproximadamente 2 milhões de cambojanos. Desejavam eles acabar com toda forma de civilização existente naquele país, segundo um projeto de contracultura de alcance mundial.

Tal violência omnímoda, gerada em pequenos antros infiltrados no mundo universitário, era uma voragem infernal, que crescia, avançava e aniquilava, procurando devorar o mundo e lançá-lo na pior forma possível de mal, de sabor anárquico e óbvia inspiração satânica.

Após um auge, moderação; na crise moral, um abismo após o outro

Apesar da inércia externada inicialmente pela opinião pública diante da rebelião, afinal, quando viu a gravidade dela, reagiu com indignação, impondo aos agitadores derrotas, retrocessos e silêncios. Isto, porém, não impediu que nos últimos anos o esquecimento e a indolência tenham o efeito de uma anistia, a qual abre caminho às piores reincidências.

Nessa perspectiva cabe perguntar: persiste hoje esse aspecto da índole anarquista que se observou na Sorbonne e que penetrou em tantos ambientes nos anos seguintes?

Obviamente, enquanto tal não se manifesta, pois o ímpeto contestatário cessou quando o que poderíamos chamar de temperamento público sentiu-se saturado da violência.

A partir de então o grosso da juventude deixou-se levar pela ânsia da prosperidade e gozo da vida, típicas do mundo de hoje, mostrando-se satisfeita, sem ideais, princípios ou preocupações sérias, procurando um ponto intermediário entre a contestação e um resto de tradição.

Assim, dir-se-ia que o movimento da Sorbonne foi derrotado e que não há perigo de que o fenômeno se repita. Mas o esquecimento indolente desses crimes mostra que a rejeição aos mesmos está longe de ter a força necessária para impedi-los.

Nova violência após um recuo estratégico?

Avenida dos Champs Elisés, tendo ao fundo ao Arco do Triunfo, 30 de maio de 1968: gigantesca manifestação de 1 milhão de franceses contra a rebelião e de apoio ao Governo

De qualquer modo, o que sucederá se essa ânsia de prosperidade e gozo da vida terminar numa súbita decepção, como acontece com tanta freqüência no instável mundo de hoje? Que influência poderão ter os princípios morais -- sustentáculos dos povos nos momentos críticos -- uma vez que os fautores da contestação conseguiram que aqueles fossem maciçamente abandonados?

Na realidade, todas as grandes revoluções seguiram um processo pelo qual avançaram até certo ponto. Porém, ao extravasarem dos pequenos antros onde foram elaboradas para ambientes maiores, começaram a provocar indignações, mesmo entre os revolucionários moderados que, de início, as tinham apoiado. Então, tornou-se necessário interromper o processo, pois, do contrário, surgiria uma reação muito mais impetuosa e talvez incontenível da sociedade inteira.

Quando isso se produziu por ocasião da rebelião de Maio de 1968, muitos acreditaram que o ideal revolucionário havia perdido força. Mas, na realidade, ele simplesmente adaptara-se a novas formas de sensibilidade, para consolidar suas conquistas entre os frouxos, e de acordo com o gosto deles; isso, depois de haver derrubado as oposições mais duras, à espera de novas circunstâncias que permitissem outras radicalizações.

Na sinistra herança sorbonniana: revoluções sexual e indumentária

Após a revolução da Sorbonne, os germes que as provocaram penetraram nas capilaridades da vida social, com graves e avassaladoras conseqüências, ocupando hoje efetivamente o campo que os revolucionários de início planejaram conquistar.

Com efeito, a revolução indumentária então lançada vai desde o unissex às modas étnicas, ou seja, de inspiração indígena; do nudismo aos punks; das tatuagens ao uso constante de blue jeans e tênis, abarcando auges de extravagância e imoralidade sem precedentes na História. E também a revolução sexual, iniciada naquela época, acabou com o recato, levou o casamento à sua fase terminal, disseminou o amor livre e erotizou por completo a sociedade. Isto prova que não só se cumpriram as metas da Sorbonne, mas que o mundo foi muito mais longe nessa matéria.

Mais ainda: a queda das resistências ao crime e ao pecado, o desprestígio que se lança sobre as autoridades, as leis e os princípios, vão fazendo com que as multidões esqueçam cada dia mais a ordem moral ensinada pela Igreja. Assim, legaliza-se o aborto, expandem-se despudoradamente a droga, a homossexualidade e toda sorte de aberrações em matéria de costumes; generalizam-se o concubinato e o divórcio, crescem a delinqüência e a impunidade, produzindo efeitos globais de uma anarquia sempre maior.

Eis os nefastos frutos que estão sendo colhidos das sementes jogadas em maio de 1968 pela Revolução da Sorbonne!

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